Sobre masculinidades que prescindem de pênis

Uma abordagem mais aprofundada sobre "Vera" (1986) e o incômodo que os personagens transmasculinos do filme suscitam.

BuzzShe

Uma das passagens mais marcantes do filme "Vera" (1986), de Sérgio Toledo, do qual comecei a falar na última coluna, é quando Bauer aparece na casa de Clara para uma visita surpresa e os pais dela, não sabendo que Bauer nasceu com vagina, o tratam como homem ao longo de toda a interação.

Reprodução | Bauer e Clara, em “Vera”.

Clara se surpreende, pois Bauer foi apresentado a ela como mulher e ela se acostumou a vê-lo dessa forma, ainda que o filme deixe claro, desde o princípio, o quanto ela estava confusa quanto a isso.

Seus olhos viam um homem, sua intuição dizia que ele era um homem, mas o gênero atribuído a Bauer no nascimento fora divulgado no local onde os dois trabalhavam e, de posse dessa informação, as impressões obtidas por seus cinco sentidos eram sempre colocadas em xeque. No entanto, quem não possuía essa informação confiava no que via, o caso dos pais de Clara.

Um filme que se divide entre mostrar dois momentos da existência de Bauer. Primeiro, no internato em que passou parte da adolescência, justo o lugar onde descobriu que poderia reivindicar outra identidade que não a que lhe foi imposta no nascimento ("machão" é o termo que ali se usa e importantíssimo começarmos um levantamento tanto dos termos que foram atribuídos a nós quanto dos que fomos elaborando para pensar o que somos). Em função dessa nova identidade, ele e seus pares enfrentarão todo tipo de violência por parte da instituição, com diretor e funcionários se mostrando visivelmente ameaçados diante dessas masculinidades que prescindem de pênis: "pra ser macho tem que ter culhões", diz o diretor à determinada altura do filme, quando tenta obrigar os machões da instituição a se depilarem e a usarem saia.

O segundo momento é o pós internato, o agora, quando o professor Paulo se responsabiliza por Bauer, tira-o de lá e o ajuda a obter um emprego.

Reprodução | "Vera", 1987.

Bauer é o nome pelo qual ele se faz conhecer, sempre se referindo a si próprio no masculino, mas todos o tratam como se ele fosse uma mulher. Após ser demitido por querer usar terno no ambiente de trabalho, Bauer chega mesmo a dizer ao professor que vai juntar dinheiro e fazer uma cirurgia para "arrumar seu sexo", "virar um homem de verdade", frases que nos ajudam a entender de que maneira o desejo por intervenções corporais vão se firmando dentro de nós.

Num mundo em que tivéssemos as nossas identidades legitimadas, os genitais teriam outro significado e pessoas trans não estariam reféns de uma narrativa que prega ("pregação", eis a palavra) que nossas existências são um erro e/ou que nascemos no corpo errado. Não digo que cirurgias como essa deixariam de existir, mas sim que o motivo de recorrer a elas seria completamente outro. Minha utopia, aliás, seria um mundo em que tais intervenções cirúrgicas estivessem disponíveis não apenas para pessoas trans, mas para quaisquer pessoas que sentissem vontade de ter outro genital que não o original de fábrica. Ser trans não tem nada a ver com querer ter outro genital e ser cis não significa que aquele genital com que você nasceu é o único que faz sentido no seu corpo.

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Mas voltemos ao "Vera", ou melhor, ao artigo de João Silvério Trevisan (mencionado na última coluna) sobre o filme.

Reprodução | Mulherio-SP (J.S.Trevisan falando sobre o filme 'Vera'), 1987.03-04

Trevisan sai da exibição tomado por "um indefinido desassossego", caminhando pela boca-do-lixo paulistana "aos prantos, no meio das prostitutas e seus clientes", enquanto pensava: "há no mundo, incógnitas e persistentes, essas pequenas flores de vida efêmera que passam deixando um perfume abalador em sua ambiguidade — como Vera que é Bauer que não sabe quem é". A passagem é tocante, mas espero que, a essa altura, já sejamos capazes de perceber os problemas de declarações do gênero.

Trevisan dirá, em vários momentos do artigo, que Bauer não sabe quem é, mas o que testemunhamos no filme é o oposto: um jovem muito convicto da sua identidade, capaz inclusive de fazer com que o leiam da forma como ele se entende. Quem não tem convivção, no caso, é a sociedade ao redor, sociedade essa que irá impor todo tipo de obstáculo às reivindicações de figuras como Bauer e Herzer (o autor de "A queda para o alto", narrativa autobiográfica na qual se baseia o filme e que venho abordando ao longo de vários textos da minha coluna), contando inclusive com o apoio de militantes dos nascentes movimentos homossexual e lésbico-feminista.

Pessoas trans e travestis faziam parte do tal "movimento homossexual", mas o que se via na prática era uma profunda incompreensão dessas narrativas, incompreensão que motivou os mais variados ataques e deslegitimações.

No artigo de Trevisan, por mais que flagremos uma atitude empática por tratar tais existências pelo menos como ambíguas, as incompreensões são o tempo todo explicitadas: por exemplo, ao mencionar, no começo do texto, "três estranhos e velhos travestis" com quem ele cruzou na caminhada, seres "de vozes masculinas", mas vestindo "roupas de mulher" e que lhe remetiam à "vivência da máscara", ou então ao pontuar um dos aspectos que mais o chocou no filme, "o perturbador machismo reivindicado como meta por mulheres".

Como sagrar-se homem, numa sociedade machista, sem valer-se desse machismo? Se você foi criado para ser homem e é reconhecido como tal, talvez você tenha mais espaço de manobra, mas a coisa muda de figura quando seu próprio corpo é usado para inviabilizar o gênero com que você se identifica. O espanto de Trevisan fala do lugar que ele ocupa, pessoa que se reivindica homem, é reconhecida como homem e tem condições de questionar o machismo. Mas se nem figuras como Trevisan são capazes de reconhecer como homens Bauer, Herzer e seus pares, o que dirá da sociedade?

Isso ajuda a entender por que, muitas vezes, homens trans recorrem a tudo o que for considerado mais macho para conseguirem ser lidos como homens. Com mulheres trans e travestis se dá algo similar também. O que fará com que pessoas trans e travestis sejam acusadas de "reproduzir estereótipos de gênero". Não. Jogamos com as regras do jogo, só isso. Nem todo mundo quer ser mártir de uma causa, transformar-se em cara de uma identidade por vir. Muites de nós só queremos poder existir como nos entendemos e sumir no meio da multidão.

No fim do artigo, Trevisan ainda louvará o fato de "Vera" ter sido filmado por um homem, numa nova deslegitimação da identidade de Bauer: "Na elaboração dessa saga da não-identidade (ou identidade em crise), acho que foi importante que um homem fizesse esse filme sobre uma mulher que pensa ser homem". Sérgio Toledo não "pensa que é homem", ele simplesmente "é", o contrário de Bauer. Não surpreende que nenhuma palavra tenha sido dita a respeito de o filme se chamar "Vera" e, ao mesmo tempo, ter várias cenas em que o personagem repete: "Não me chame de Vera, meu nome é Bauer".

Estaremos prontes, hoje, para perceber isso como uma violência?

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