Até quando sofreremos transfobia em nossos relacionamentos?

Às vezes é difícil contar com a boa vontade das pessoas cis hétero em se desconstruir.

BuzzShe

A vontade de escrever, na minha última coluna, sobre esse paradoxo tão presente na comunidade travesti, o da busca por "homens de verdade", veio após uma conversa com uma mona queridíssima.

Ela tinha me dito que só se relacionava com caras que nunca tivessem namorado outra travesti antes, o que nos levou a uma discussão sobre o quanto de transfobia a gente não acaba sofrendo ao sair com gente que nunca antes tenha se envolvido com uma travesti.

Qual a minha surpresa quando, uma semana depois, ela me contou que encontrou por acaso o primeiro cara com quem tinha saído depois da transição e, pensando no que eu disse pra ela, deu umas dicas de coisas que ele nunca mais deveria fazer, caso voltasse a ser envolver com uma travesti! "A próxima que pintar pelo caminho dele acho que não vai passar pelo que eu passei", me disse, por fim. E acredito que tenha razão em pensar dessa forma.

Sabem o que ele havia feito? Depois de gozarem lindamente, falou que era a primeira vez que transava com um homem. Simples assim. A vontade dela era matá-lo, tanto na hora quanto nesse reencontro anos depois, mas ela respirou fundo dessa vez e explicou pra ele o motivo de ter saído vazada de lá, chorando, e nunca mais ter retornado as mensagens dele.

Parece absurdo o que ele fez, mas casos como esse são infelizmente comuns.

Reprodução/Internet

É possível, inclusive, que muita gente cis (e mesmo trans) que se acha desconstruída pense que nunca faria o mesmo, mas é só se ver na presença de uma travesti pra reproduzir comportamentos e frases bem parecidos. Remédio pra isso? Antes de qualquer coisa, vergonha na cara pra ir atrás de informação, ir atrás de aprender sobre realidades que a pessoa não vive na própria pele.

Mas tá difícil contar com a boa vontade de homem cis hétero de se desconstruir (só 30% do meu público, no Instagram, é composto por homens, para vocês terem uma ideia) e, já que esses continuam sendo o alvo preferencial do desejo de tantas monas, de duas uma: ou elas próprias começam a desconstruir o próprio desejo, se abrindo para a possibilidade de se envolverem também com homens que não sejam a encarnação da masculinidade hegemônica, ou elas vão precisar fazer uma força-tarefa para dar um empurrãozinho na desconstrução desses homens. Uma coisa não precisa excluir a outra, aliás.

Mas essa conversa sobre desconstruir os próprios padrões é complexa. Quando penso nela, também me vêm à memória discussões que tive pouco antes da minha transição, quando eu estava me aproximando da comunidade trans e, sobretudo, da militância transfeminista e eu era ainda vistO (antes da transição, não se esqueçam) com desconfiança por parecer um "travequeiro".

A razão disso era eu falar abertamente da atração que sentia por travestis e isso, para muitas militantes, era sinal de que eu as estava objetificando: eu devia sentir atração por mulheres em geral, não especificamente por travestis, afinal, qual a diferença essencial entre umas e outras?

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Genital não define gênero e nem toda travesti tem pênis (muitas fizeram a cirurgia de redesignação sexual, por exemplo), duas premissas centrais do transfeminismo.

Reprodução/Internet

Tendo-as em mente, fica difícil construir uma diferenciação rígida entre mulheres cis e travestis. Mas uma coisa é acreditar nisso, outra é convencer nosso coração e tesão de que eles não devem fazer distinção entre as duas existências.

Qual o limite da desconstrução? Quanto é possível transformar o nosso desejo? É possível romper com o padrão cis no âmbito da nossa orientação sexual? É possível desejar especificamente travestis sem que esse desejo seja objetificante? Há desejo que não objetifica o outro de alguma maneira? Questões que esse debate me traz.

A minha impressão é que esse raciocínio funciona apenas para um mundo utópico, mundo em que as normatividades de gênero já tenham sido plenamente abolidas. Enquanto elas estiverem bem vivas em nossas cabeças, em nossa maneira de nos relacionarmos umes com es outres, esse tipo de raciocínio acaba por criar um abismo entre o jeito oficial, militante, de viver o desejo e o jeito pelo qual esse desejo efetivamente nos atravessa.

Gosto se discute sim, já falei sobre isso num dos meus poemas favoritos (ele consta no meu novo livrinho "Neca + 20 Poemetos Travessos", publicado pela editora O Sexo da Palavra esse ano, mas também num vídeo do meu instagram: 

Mas é importante que esse discutir dos nossos gostos, preferências e orientações não sirva só para criar mais angústias e culpas por não sermos suficientemente desconstruídes.

Resumo da ópera: não é vale-tudo, mas também vamos com calma.

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Imagem da thumb: créditos: Cintia Antunes

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