Homens trans e o direito de se dizer homem

Como a mídia encarou o primeiro texto autobiográfico publicado por uma pessoa trans no Brasil?

Reprodução | Folha de S. Paulo, 09 de setembro de 1982

Minha última coluna andou causando rebuliço, vocês viram?

Ela chegou ao conhecimento do vereador e ex-senador Eduardo Suplicy, que, depois de lê-la, ligou para a vereadora Erika Hilton, para discutirem a possibilidade de uma reedição de "A Queda Para o Alto" (1982), de Anderson Herzer, dessa vez sem aqueles paratextos horríveis deslegitimando a identidade do autor.

Parece que vamos comemorar os 40 anos do primeiro relato autobiográfico publicado por pessoa trans no Brasil com uma edição novinha em folha. Ótimo sinal!

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Aproveitando as discussões que o livro está suscitando, na coluna de hoje vou refletir sobre a maneira como ele foi recebido à época do lançamento, pois o material paratextual que o acompanha não é o único lugar em que a incompreensão se faz presente.

Reprodução | O Globo, 10 de outubro de 1982

A obra chamou bastante atenção da imprensa, várias matérias em jornais e revistas se propondo a analisá-la. Manchetes como a do jornal "O Globo" de 10 de outubro de 1982, "Sandra Mara, 'A Queda Para o Alto': Em livro póstumo, o depoimento de amor e desespero da jovem travesti, ex-interna da Febem", dão a tônica do que esperar: nome de registro como regra, o tratamento sempre no feminino e, para além disso tudo, ainda uma boa dose de sensacionalismo.

Ponto fora da curva, nesse sentido, é a matéria que Ronaldo Antonelli dedicou a Herzer em 9 de setembro de 1982 (Ilustrada, "Folha de S. Paulo"). Nela, apesar de escancarar o nome de registro de Herzer já no título ("Sandra Mara, a menina que se tornou Bigode") e tratá-lo no feminino até a metade do texto, a postura do jornalista se transforma drasticamente quando ele diz que "Sandra se torn[ou] definitivamente o Bigode".

Dali em diante, todas as referências ao autor se darão no masculino e pelo nome de Anderson ou seu famoso apelido. Inexplicavelmente, no entanto, o jornalista voltará a tratá-lo apenas no feminino na próxima matéria que dedicar ao autor, "Sandra Mara, morte, livro e polêmica" (17 de outubro de 1982, Ilustrada, Folha de S. Paulo).

Outro texto que revela certa sensibilidade é o de João Cândido Galvão, publicado na revista "Veja" de 20 de outubro de 1982.

Reprodução | Revista Veja, 20 de outubro de 1982.

Nele, o jornalista apresenta um tocante depoimento da última namorada de Herzer ("Para mim Sandra Mara não existe. [...] Existiu uma pessoa altamente sensível e inteligente que eu conheci como Anderson e por quem me apaixonei") e outro da irmã, no qual ela afirma vê-lo expressamente como homem: "Quando o encontrei depois de anos, vestido de terno e gravata, não tive do que duvidar. Era Anderson. Sempre aceitei isso, não por piedade, mas por acreditar".

O texto ainda termina aproximando as figuras de Herzer e Diadorim, numa clara demonstração de o quanto ficção e realidade podem iluminar-se mutuamente (p.145): "Em um país onde um dos maiores heróis de ficção é Diadorim, o cangaceiro-mulher de 'Grande Sertão: Veredas', uma surpresa para os leitores de Guimarães Rosa: a realidade é mais violenta. A sociedade mata os não-enquadrados que ousam tentar viver suas vidas. No dia 9 de agosto de 1982, Diadorim morreu mais uma vez, lutando pelo seu amor."

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A maior parte das matérias não se mostrou, no entanto, tão aberta ao diálogo com a narrativa de Anderson, mesmo as de setores que imaginaríamos mais progressistas. Exemplo? Marta Suplicy, uma das principais referências em sexualidade e feminismo na década de 1980.

Reprodução | Folha de S. Paulo, 21 de novembro de 1982.

No texto que dedicou a "A Queda para o Alto", a autora, na tentativa de esclarecer a transição de Herzer, propõe uma série de perguntas que escancaram o quanto narrativas trans e mesmo não-hétero eram incompreensíveis aos olhos da hegemonia ("Folha de S. Paulo", 21 de novembro de 1982).

Diz ela: "O que aconteceu com Sandra na Febem para mudar sua orientação sexual? Caso nunca tivesse ido parar na Febem teria mudado de sexo? Foram as circunstâncias que a levaram a se pensar como rapaz? Foi a morte trágica de seu primeiro namorado, quando já estava na Febem, que a levou a assumir a identidade dele a ponto de se tatuar com o nome 'Bigode', seu apelido? [...] Qual terá sido o papel da necessidade de ser 'macho' para sobreviver e ter lugar de destaque numa dessas Unidades da Febem? Qual o desespero que a levou a tomar hormônios para impedir seu desenvolvimento feminino e propiciar o aparecimento de pelos masculinos?".

Marta Suplicy parece acreditar que a violência está na gênese das existências trans e não-hétero e que, sem traumas, sem desespero e sem pressão do meio (a tal da necessidade de sobrevivência), a pessoa iria desenvolver-se naturalmente hétero cis.

O próprio trecho de "A Queda Para o Alto" citado por Marta contradiz essas suposições, pois, nele, nos é dito que Herzer desde criança "tinha um grande desejo de ter nascido menino", mas que só após ver "o ato amoroso de duas meninas" se deu conta de que "para se ter uma mulher, para se vestir como um homem, não seria necessário ser um".

Nenhuma tragédia portanto, simples descoberta de novas possibilidades de existência. Marta republicaria o texto dois anos depois, sem alterações, em seu livro "A Condição da Mulher" (1984).

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A "Carta Por Sandra Mara", distribuída pelo Grupo de Ação Lésbico-Feminista (GALF) no lançamento de "A Queda Para o Alto" e depois republicada no primeiro número do boletim "Chana Com Chana" (dezembro de 1982), é outro exemplo claro de incompreensão.

Reprodução | Boletim Chana Com Chana, março de 1983.

Aos olhos das integrantes do GALF, "Sandra Mara amava as mulheres numa sociedade ultra-misógina onde apenas o masculino é positivo e tudo é feito para satisfazer as necessidades e anseios dos homens. Talvez por isso, supondo ser incompatível a força e o feminino, o valor e o feminino, tenha se transformado em 'Bigode'. Mas não cabe a nós criticá-la, pois Sandra Mara, o 'Bigode', tinha sua essência no feminino, não o feminino dos estereótipos, mas aquele que transcende e não se conforma, preferindo até mesmo o suicídio".

A única explicação que lhes ocorria (porque é preciso haver uma explicação) é Herzer reivindicar uma identidade masculina como forma de fugir ao machismo da sociedade. Na coluna de duas semanas atrás, falei sobre a luta para que mulheres trans e travestis pudessem ser consideradas lésbicas ou bissexuais e, neste, falo sobre a luta para que os termos "lésbica" e "mulher" deixassem de ser impostos a homens trans.

No segundo número do "Chana Com Chana" (março de 1983), Rosely Roth, um dos nomes mais importantes na história tanto do GALF quanto do boletim, voltará a discutir o livro, sua conclusão seguindo a mesma linha da Carta: "Parece que Sandra (só Sandra?), educada e acostumada com apenas dois modelos, o da mulher, chamado de feminino, caracterizado como passivo, fraco, submisso, sentimental etc. e o do homem, chamado de masculino, caracterizado como forte, ativo, dinâmico, frio, etc. optou pelo menos 'ruim' deles".

Uma simples questão de escolha, decisão fria tomada após pesar os prós e os contras de cada forma de existência. Percebam também o juízo de valor que tanto Roth quanto a Carta fazem dessa "escolha" de Herzer, juízo que lhes permite, inclusive, ignorar solenemente a maneira como o autor pensava a si mesmo. Roth chega a dizer que "Sandra refere-se a si mesma no masculino durante todo o livro", no entanto isso não lhe parece suficiente para que também ela o trate dessa maneira.

Em determinado ponto da Carta, fala-se especificamente sobre "o preconceito que empurra pessoas de cima das pontes como derrubou a jovem mulher Sandra Mara Herzer de um viaduto para a avenida 23 de Maio, no dia 9 de agosto deste ano [1982]", e é impressionante não terem percebido, à época, o quanto discursos como esse podem servir justo como esse empurrãozinho citado.

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