Brenda Lee e o seu Palácio das Princesas

Essa travesti já recebeu um Doodle do Google e seu trabalho foi reconhecido pela OMS, mas pouca gente conhece a história dela.

BuzzShe

Um dos momentos mais tocantes de "Douleur d'amour" (1987), documentário de Pierre-Alain Meier e Matthias Kälin sobre a vida transvestigênere no Brasil da década de 1980, é quando Brenda Lee (1948-1996) fala, de forma muito afetuosa, suas impressões sobre várias das travestis que moravam no seu Palácio das Princesas.

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Nesse espaço, comprado pela própria Brenda, funcionava a princípio um pensionato para travestis, mas, com o agravamento da epidemia do hiv, Brenda acabou convertendo-o numa casa de acolhida para pessoas que vivem com o vírus da aids e não têm mais para onde ir.

A história da transformação do pensionato em Palácio das Princesas vem contada numa longa matéria publicada no segundo número da Revista Marie Claire (maio de 1991).

Imagem de Brenda Lee publicada na reportagem da Marie Claire em 1991.

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Lá se lê que, após dois homens encapuzados dispararem uma rajada de metralhadora sobre travestis que faziam ponto na Av. Indianópolis (SP), Brenda deu uma entrevista dizendo que travestis são uma comunidade e elas cuidariam "das que estavam feridas, pagando inclusive as despesas delas". Nisso, o repórter da TV Bandeirantes perguntou se ela "também abrigaria em casa um travesti com Aids" e ela, sem pestanejar, respondeu que sim.

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Brenda pouco sabia sobre hiv/aids nesse momento, mas a entrevista a colocou no radar da Secretaria da Saúde, que telefonou para ela no dia seguinte perguntando se ela concordaria em receber a Tatiana, uma paciente travesti do hospital Emílio Ribas que estava com aids e não tinha onde ficar ("a mãe não a aceita").

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"Em poucos meses, a casa ficou lotada de pacientes portadores do vírus HIV", continua a matéria, e as travestis que ali moravam começaram a se mudar, pois "não queriam encarar a doença tão de perto". Estamos falando de 1985/6 e de uma figura que abriu mão de um pensionato, sua principal fonte de renda, para transformá-lo numa casa de acolhida ao grupo mais estigmatizado e segregado do período, tudo isso no momento mais desesperador da epidemia do hiv/aids.

Importante mencionar ainda que, "durante quase dois anos, ela [Brenda] arcou sozinha com todas as despesas [do espaço], levou os pacientes ao médico e pagou inclusive seus enterros". Só a partir de 1988 firmou-se um acordo com a Secretaria da Saúde e o Palácio passou a receber um aporte financeiro.

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O dinheiro, no entanto, era insuficiente para as despesas, o restante vindo de doações de instituições e também de travestis amigas de Brenda, sobretudo as que acabavam de chegar da Europa e estavam numa situação econômica mais tranquila.

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A reportagem termina com o tocante depoimento de Rogério Scarpini, médico que supervisionava o tratamento no Palácio e que reconheceu ali o tanto que aprendia com Brenda: "Nós aprendemos a ouvi-la e respeitá-la. Às vezes nossa equipe chegou na casa e encontrou pacientes na cama de Brenda, porque não havia mais leitos e ela não tem coragem de recusar abrigo a ninguém".

Ilustração do Google em homenagem a Brenda Lee.

Seu trabalho já obteve o reconhecimento da própria Organização Mundial de Saúde (OMS) e, dois anos atrás, no Dia Nacional da Visibilidade Trans (29/01/2019), Brenda ainda recebeu um Doodle do Google, homenagem justíssima ao trabalho incansável dessa que é uma das figuras mais importantes da história transvestigênere desse país.

Brenda morreria alguns anos após essa entrevista à Marie Claire, vítima de um brutal assassinato cometido por um ex-funcionário do Palácio, que havia tentado lhe aplicar um golpe.

Aproveito a oportunidade para dizer que a história de Brenda foi recriada no musical "Brenda Lee e o Palácio das Princesas", uma produção espetacular do coletivo de teatro Núcleo Experimental, diariamente exibido entre 21h e 00h, até o dia 24/11, no canal do YouTube do grupo.

No espetáculo, figuras conhecidíssimas da cena cultural transvestigênere como minha querida amiga Veronica Valenttino (no papel de Brenda) dividem o palco com uma nova geração de brilhantes atrizes travestis.

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