"Minha família são os filhos e filhas que vocês rejeitaram"

Pessoas aprendendo a sentir orgulho de filhes LGBTQIA+ e nós descobrindo a importância de criar novos modelos de família.

BuzzShe

A frase que usei como título é de ninguém menos que Indianarae Siqueira ("e se não queira, também", como ela costuma brincar), um dos nomes mais importantes da militância transvestigênere desse país, e remete à história de tantas e tantas de nós que, expulsas de casa ou preferindo fugir para não ter mais que viver sob ameaça e violência, precisam reinventar sua noção de família.

Reprodução | CasaNem

Uma família sem laços consanguíneos, que tem como elemento comum o fato de serem todas travestis e de, por isso, terem sido rejeitadas por suas famílias de origem. Quer dizer, rejeitadas a princípio, porque não são raros os casos em que passam a tolerar essa travesti (ou mesmo a aceitá-la efusivamente) depois que ela começa a mandar dinheiro pra casa.

E eis um dos pontos mais dolorosos: a família que te jogou no olho da rua, muitas vezes quando você era ainda menor de idade, de repente vivendo às custas do seu dinheirinho suado, ganho na prostituição. E, quando se vive num mundo em que o afeto possível pra nós é tão minguado, tudo o que nos resta é aceitar que a vida é assim mesmo.

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Daí a importância de figuras como Indianarae, idealizadore da CasaNem, um dos projetos mais radicais de acolhida de pessoas LGBTQIA+ em situação de vulnerabilidade social.

Reprodução | Amara Moira e Majú Giorgi

Projetos como esse nos desafiam a inventar outros mundos, mundos novos, a partir dos cacos desse que nos legaram. Se não nos querem, fazemos nossas próprias famílias, famílias onde o afeto não esteja condicionado a seguirmos um padrão de comportamento cis-hétero, famílias capazes de admirar as nossas trajetórias e nos proteger dos tantos ataques que receberemos pela vida.

Mas uma notícia boa dos últimos anos é vermos, também, cada vez mais famílias de origem que não abrem mão de sues filhes LGBTQIA+, famílias de origem lutando pelo nosso direito de possuir família. Exemplo disso é o trabalho do Mães Pela Diversidade, coletivo que conheci lá no seu comecinho, em 2014, quando Majú Giorgi, sua idealizadora, vinha para a rua com cartazes falando do orgulho de ter filhes LGBTQIA+ e precisava pagar mulheres aleatórias que passavam por ali para ter quem carregasse os cartazes com ela.

Naquele momento, era ainda difícil encontrar mães que sentissem esse orgulho e o tornassem público, como mensagem para a sociedade. Fica, então, a minha homenagem ao Mães Pela Diversidade e à CasaNem.

Importante

ps 1: é possível conhecer mais da história da CasaNem e apoiá-la através desse site.

ps 2: a antologia recém-lançada "(Des)encontros em contos", da editora O Sexo da Palavra, reúne obras poderosas de temática LGBTQIA+ e terá parte dos lucros revertidos para a CasaNem. São 35 autôries incríveis e o prefácio da obra é meu. Mais informações podem ser encontradas no site.

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