Um pioneiro relato de 1914 revela como a era a sexualidade LGBT há mais de 100 anos

Nesta época já se via o orgulho de não caber nas normas de gênero e sexualidade.

BuzzShe

Às vezes, a gente tem a impressão de que o orgulho de ser LGBTQIA+ é coisa recente no Brasil, mas um dos registros mais antigos desse nosso orgulho já completou cem anos, embora até hoje quase ninguém o conheça: o conto "O Menino do Gouveia" (1914), de Capadócio Maluco.

Reprodução | 'O Menino do Gouveia' (capa).

A obra era vendida como fascículo à parte de "O Rio Nu", periódico ilustrado que circulou entre 1898 e 1916 no Rio de Janeiro e que, em suas páginas, alternava entre o humor e a pornografia (boa parte do periódico pode ser acessada online no site da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, mas "O Menino do Gouveia", infelizmente, só está disponível para consulta física, nos "inferninhos" da dita Biblioteca).

Vejam como essa preciosidade começa:

"Estendido junto a mim na cama suspirativa do chateau, depois de ter sido enrabado duas vezes, tendo na mão macia e profissional a minha respeitável porra ['pênis'], em que fazia umas carícias aperitivas, o menino do Gouveia, isto é, o Bembém, contou-me pitorescamente a sua história com todos os não-me-bulas de sua voz suave de puto matriculado ['homossexual passivo experiente'].

— Eu lhe conto. Eu tomo dentro por vocação; nasci para isso como outros nascem para músicos, militares, poetas ou até políticos. Parece que quando me estavam fazendo, minha mãe, no momento da estocada final, peidou-se, de modo que teve todos os gostos no cu e herdei também o fato de sentir todos os meus prazeres na bunda."

O rapaz associa, com orgulho, a sua orientação sexual a uma vocação, comparando-a com profissões célebres, e ainda sugere que a origem de tal desejo pode ser que se encontre num inesperado prazer sentido pela mãe no momento da concepção de Bembém. É muito surpreendente pensar que, em 1914, declarações desse tipo já fizessem sentido, ainda mais se levarmos em conta que o periódico "O Rio Nu" era marcadamente voltado para o público cis hétero.

Muites estudioses já tentaram elucidar como uma publicação desse teor poderia ter saído ali, mas o mistério permanece.

O que é fato é que a publicação era anunciada sem maiores pudores pelo periódico, como se pode ver na imagem abaixo.

Reprodução | Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

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Ou mesmo na lista de publicações à venda:

Reprodução | Lista de publicação de 'O Rio Nu'

No relato de Bembém, nos é contado que o jovem, após pedir ao tio que fizesse com ele o mesmo que tinha feito com a tia e ser rechaçado ("[meu tio] não sabia o mundo de gozos que há numa bunda masculina quando ainda tem a prega mestra"), foge de casa "em busca de um caralho que [lhe] fodesse".

O lugar ao qual se dirige são os mictórios públicos, aonde vai com o intuito de "espiar picas" e exibir suas "qualidades e encantos enrabativos". No entanto, "parece que naquele dia os amadores de cus tinham desaparecido".

Percebam a referência a, especificamente, "amadores de cu" (ou "fanchonos", sinônimo utilizado logo antes), como se Bembém estivesse sinalizando que "putos" (os ditos passivos), isso ele havia, sim, encontrado. Ou seja, o ano era 1914 e a prática do "banheirão" parece que já estava mais do que consolidada, sem contar que, naquela altura, o Rio de Janeiro já dava motivo para reclamações sobre a "falta de enrabadores", pode?

Frustrado, o rapaz senta-se num banco do Largo do Rocio (atual Praça Tiradentes), onde pouco depois é abordado por um "velhote" "que se comoveu com [sua] desgraça", o tal Gouveia do título. "Gouveia" era gíria da época para "homossexual ativo", inúmeros trocadilhos sendo feito a esse respeito nas páginas do próprio periódico, como se pode nesse concurso de poesia lançado em 1906:

Reprodução | Concurso de poesia ('Gouveia')

É com este senhor que Bembém perderá a virgindade, tudo o que aconteceu nesse encontro sendo minuciosamente relatado, desde "o longuíssimo beijo" até as duas ejaculações do Gouveia, uma durante o sexo oral e a outra na tão ansiada penetração. Bembém não goza porém, sua "pica" se mantendo flácida ao longo de todo o encontro, mas ele se apressa em explicar que isso não quer dizer que ele não estava sentindo prazer: "tenho [tesão], tenho muito até, mas na bunda, nas pregas do cu".

Uma das partes mais intrigantes é o momento em que o jovem reflete sobre o prazer que sentiu ao ter o bico dos peitos sugado: "a natureza, para provar que eu vim ao mundo para tomar na bunda, pôs-me nos seios a qualidade feminina, isto é, às carícias do Gouveia eles responderam ficando eretos, empinadinhos, tal qual como se eu fosse mulher".

A explicação é reveladora de o quanto, numa sociedade tão heterocisnormativa como a nossa, o comportamento sexual se transforma em elemento central para a definição dos gêneros.

Um relato surpreendente e que, a despeito de todos os seus encantos (mesmo literariamente é um primor), só em 2017, 103 anos depois da publicação original, voltou a estar acessível ao grande público: num livreto lindo, e super baratinho, da editora "O Sexo da Palavra".

Que obras como essa nos convençam da necessidade de fuçarmos cada vez mais fundo nos inferninhos de nossas bibliotecas e arquivos, pois é óbvio que ainda há muito por ser contado sobre o papel das dissidências de gênero e sexualidade na construção disso que se convencionou chamar de Brasil!

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