Pessoas trans existem há milhares de anos e outras coisas que você deveria saber sobre transexualidade

Uma breve história dos primeiros indivíduos transgênero, da terapia de reposição hormonal, da cirurgia de readequação de gênero e dos direitos de pessoas trans.

An image of hands holding up flags for Trans Rights
An image of hands holding up flags for Trans Rights

Vladimir Vladimirov / Getty Images

No ano de 2021, a impressão é de que a comunidade LGBTI+ é enorme. Todo ano (com exceção de 2020), pessoas de todas as maiores cidades do mundo se reúnem para celebrar o Mês do Orgulho. Apesar disso, eu já conversei com muita gente que não se lembra de ouvir falar sobre pessoas transgênero antes dos anos 2000. Nessa época, diversos países ao redor do mundo começaram a aprovar leis contra a discriminação de pessoas trans, visando a proteção delas, e a comunidade trans começou a ficar mais forte. Porém, ao observar a história transgênero, encontramos uma linda e complexa narrativa sobre identidade e transição. Hoje, eu serei o seu guia nesta apresentação sobre a história trans!

Até 12.000 anos atrás, na Idade da Pedra Polida e na Idade do Bronze, foram descobertos desenhos e esculturas que indicam a existência e a representação de pessoas trans em civilizações antigas. Em algumas culturas indígenas, existem pessoas dois-espíritos. Na Índia, elas se chamam Hijra. Pessoas trans sempre existiram em culturas ao redor do mundo. Vamos falar sobre 10 exemplos modernos que abriram caminhos e contribuíram para a ciência com as suas transições.

A black and white image of Lili Elbe
A black and white image of Lili Elbe

Ullstein Bild Dtl. / Getty Images / Via artsandculturalstudies.ku.dk

1. Lili Elbe (1882–1931)

Lili Elbe é uma das mulheres trans mais famosas dos últimos séculos. Ela foi uma das primeiras a fazer a cirurgia de redesignação de gênero. Lili começou a vestir roupas femininas depois que sua esposa Gerda pediu para ela posar para um quadro vestindo peças femininas. Lili percebeu rapidamente que se sentia muito confortável e passou a vestir-se assim o tempo inteiro. Ela fez diversas cirurgias entre 1930 e 1931, e acabou morrendo por causa de complicações em uma tentativa de transplante de útero. Ela foi a segunda mulher trans a realizar uma vaginoplastia. Em 2015, Eddie Redmayne interpretou Lili na adaptação cinematográfica "A Garota Dinamarquesa", que conta a história da sua vida.

2. Dora Richter (1891–1933)

Dora começou a demonstrar desejos e características femininos quando era jovem e tentou remover o próprio pênis aos 6 anos de idade. Depois desse incidente, permitiram que ela vivesse como mulher. Ao longo da vida, ela foi presa várias vezes por se travestir. Eventualmente, foi indicada a Magnus Hirschfeld, um médico judeu alemão que fazia cirurgias de readequação de gênero. Dora foi a primeira mulher trans a fazer cirurgia de readequação de gênero e vaginoplastia. Em 1933, os nazistas atacaram o Institut für Sexualwissenschaft ("Instituto de Sexologia"), instituto fundado por Hirschfeld, que também empregava pessoas trans. Dora faleceu nesse ataque.

3. Lucy Hicks Anderson (1886–1954)

Lucy Hicks foi uma das primeiras mulheres pretas trans conhecidas. Ela nasceu no estado de Kentucky (EUA) e quis se apresentar como menina desde bem jovem. Surpreendentemente, um médico recomendou que ela fosse criada como menina para compensar a sua disforia de gênero. Ela lutou para que pudesse ter igualdade no seu próprio casamento, pois foi acusada de mentir sob juramento por não ter informado que havia nascido com o sexo biológico masculino. Ela disse: "Eu desafio qualquer médico do mundo a provar que eu não sou uma mulher". 

4. Coccinelle (1931–2006)

Coccinelle foi uma atriz e artista performática francesa e uma das primeiras mulheres trans a receber terapia de reposição hormonal e fazer cirurgia de readequação de gênero. Com cirurgia e o casamento dela, a França passou a permitir o casamento de pessoas trans e a alteração da certidão de nascimento após a operação. Coccinelle, mais tarde, fundou diversas organizações relacionadas à causa.

5. Christine Jorgensen (1926–1989)

Christine Jorgensen foi uma veterana da Segunda Guerra Mundial que começou a fazer a transição após o serviço militar. Ela fez diversas cirurgias e, quando voltou aos Estados Unidos, ficou famosa instantaneamente. Ela foi atriz e trabalhou com entretenimento em casas noturnas, além de ser cantora. Ela falava sobre ser transgênero e escreveu uma autobiografia em 1967. Foi considerada a primeira celebridade transgênero dos Estados Unidos.

6. Jack Bee Garland (1869–1936)

Jack Bee Garland, também conhecido como Beebe Beam, entrou no Exército Norte-Americano em 1899. Enquanto acompanhava o exército no Teatro da Costa do Pacífico da Guerra Hispano-Americana, o capitão do navio descobriu que ele havia nascido com o sexo biológico feminino e não permitiu que ele embarcasse novamente. Os seus companheiros soldados o esconderam a bordo até a embarcação sair do Havaí. Ele ficou um tempo nas Filipinas, trabalhando como enfermeiro e intérprete antes de voltar aos Estados Unidos e se tornar autor. Ele passou o restante da vida fazendo trabalho organizacional para caridades.  

7. Dr. Alan Hart (1890–1962)

O Dr. Alan Hart nasceu e cresceu no estado de Oregon (EUA). Quando adulto, ele procurou auxílio médico para ajudá-lo na transição para viver como homem. O médico Joshua Gilbert realizou uma histerectomia total para prevenir a gravidez e interromper a sua menstruação, já que a testosterona sintética ainda não estava disponível na época. Depois da cirurgia, Alan Hart casou, publicou diversos livros e teve dois consultórios médicos. Ele é conhecido pelo seu trabalho como epidemiologista, cuja pesquisa ajudou no diagnóstico e no tratamento da tuberculose, reduzindo a mortalidade da doença significativamente. Depois da Segunda Guerra Mundial, ele começou a fazer terapia de reposição hormonal, o que fez a sua voz ficar mais grossa e a barba crescer.

8. Reed Erickson (1917–1992)

Reed Erickson herdou a empresa da família em 1962, aos 50 anos, e a liderou de forma bem sucedida ao longo de toda a década. Ele começou a fazer a transição aos cuidados do médico Harry Benjamin no ano seguinte. Dois anos depois, ele fundou a Erickson Educational Foundation ("Fundação Educacional Erickson"). A fundação, mais tarde, inaugurou inúmeras outras organizações, incluindo a Harry Benjamin International Gender Dysphoria Association ("Associação de Disforia de Gênero Harry Benjamin"), agora conhecida como World Professional Association for Transgender Health ("Associação Mundial Profissional para a Saúde Transgênero").

9. Dr. Michael Dillon (1915–1962)

Médico britânico, Michael Dillon é considerado o primeiro homem trans a fazer faloplastia e receber terapia de reposição hormonal com testosterona. Ele também foi o primeiro homem que se tem registro a fazer uma mastectomia bilateral. Em 1946, publicou um livro intitulado "Self: A Study in Ethics and Endocrinology" (sem tradução para o português, "Dillon: Um estudo sobre Ética e Endocrinologia"), em que levanta uma discussão sobre ser um homem trans e a ideia sobre ser algo inato e só poder ser tratado com uma transição médica.

10. Lou Sullivan (1951–1991)

Lou Sullivan, possivelmente o homem trans mais influente do século 20, não apenas ajudou a formar uma comunidade trans masculina, mas também facilitou a transição de homens trans. Antes, homens trans homossexuais não podiam realizar cirurgias de readequação de gênero. Ele lutou e tornou isso possível para que outros homens gays pudessem realizar a operação como parte da transição. Ele começou a tomar testosterona em 1979 e fez a cirurgia de readequação de gênero em 1986. Ele também fundou a FTM International ("FTM Internacional"), uma organização dedicada a dar apoio a indivíduos que fizeram ou vão fazer a transição de mulher a homem. Lou Sullivan foi diagnosticado com AIDS ainda no ano de 1986. Ele morreu em 1991, em consequência da doença.

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Toda transição é diferente, mas muitas pessoas trans optam por fazer a transição médica para tratar a disforia de gênero. A seguir, apresento um pouco da história por trás das cirurgias de readequação de gênero e da terapia de reposição hormonal.

An image of a bottle of testosterone
An image of a bottle of testosterone

Simon Hausberger / Getty Images

1. Vaginoplastia

Alguns dos trabalhos mais históricos na área da transição de gênero foram realizados pelo médico Magnus Hirschfeld, um médico alemão que acreditava que a identidade de gênero não estava relacionada ao sexo biológico. Enquanto muitos tratamentos para indivíduos trans, nos séculos XIX e XX, envolviam terapia de choque e outros procedimentos desumanos, o Magnus Hirschfeld acreditava que a única opção sensata seria apoiar a transição social e médica dessas pessoas. Ele acreditava que pessoas trans deveriam viver de acordo com a sua natureza, que vai além do sexo biológico, levando em conta a sua identidade de gênero. O médico realizou algumas das primeiras vaginoplastias em mulheres trans, como Dora Richter e Lili Elbe. Ele fundou o Instituto de Sexologia, que não apenas contribuiu para o avanço da compreensão sobre a identidade trans, mas também empregava essas pessoas. Infelizmente, o instituto foi destruído pelos nazistas em 1933, e o médico foi exilado. Essa destruição apagou anos de pesquisa da nossa história transgênero. Em 1956, o médico Georges Burou desenvolveu a sua própria técnica de construção de vaginas em mulheres trans e realizou mais de 800 cirurgias durante a sua vida.

2. Faloplastia

A primeira faloplastia realizada em um homem trans de que se tem registro foi realizada pelo médico Harold Gillies. Ele costumava realizar esse tipo de operação em soldados feridos na Primeira Guerra Mundial, mas aceitou fazer diversos procedimentos em Michael Dillon entre 1946 e 1949 para ajudá-lo a chegar na identidade que desejava. Gilles, mais tarde, realizou mais uma cirurgia em uma mulher trans utilizando a sua técnica, que acabou se tornando o padrão cirúrgico por 40 anos. Essas seriam as duas únicas readequações de gênero da sua carreira.

3. Remoção de mamas

Nos anos 1970, homens trans normalmente não podiam fazer cirurgias para remover as mamas. Um cirurgião norte-americano chamado Michael Brownstein começou a realizar essas operações, mesmo com a reprovação de seus colegas. A comunidade trans foi beneficiada com a experiência do médico por 35 anos. Ele se aposentou no final de 2012. Atualmente, muitos cirurgiões plásticos fazem a remoção de mamas (também chamada de mastectomia) em tratamentos de disforia de gênero.

4. Terapia de Reposição Hormonal (TRH)

A testosterona e o estrogênio sintéticos não se tornaram disponíveis para uso até 1930. Com esse tratamento, os indivíduos trans conseguiam desenvolver uma manifestação física de gênero mais completa. A TRH para mulheres trans promove o desenvolvimento dos seios, a maciez da pele, a redistribuição de gordura corporal e a redução dos pelos corporais. Para homens trans, a TRH pode causar queda de cabelo, tornar a voz mais grave e aumentar os pelos corporais e faciais. Embora nem todos optem pela terapia de reposição hormonal, é uma boa opção para desenvolver características sexuais secundárias que ajudam a tornar uma pessoa trans mais feminina ou mais masculina.

A luta pelos direitos de pessoas trans nunca foi fácil e está longe de acabar, mas atualmente existe cada vez mais apoio à comunidade e a indivíduos trans. É importante fornecer o direito à saúde, reduzir a estigmatização, proporcionar caminhos legais para transição, como marcadores de gênero e mudança de nome, e reduzir a discriminação. Vamos explorar essas questões individualmente.

An image of a march for transgender rights
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Nurphoto / Getty Images

1. Normas de atenção

O Dr. Harry Benjamin, um endocrinologista dos Estados Unidos, estudou questões relacionadas à transexualidade e ajudou a abrir o caminho para que pessoas trans tivessem assistência médica em todo o país. Juntamente com Hirschfeld, Harry Benjamin também acreditava que o tratamento para disforia de gênero deveria ser médico, não psicoterápico. Em 1979, ele fundou a Harry Benjamin International Gender Dysphoria Association ("Associação Internacional de Disforia de Gênero Harry Benjamin"), agora amplamente conhecido como World Professional Association for Transgender Health ("Associação Mundial Profissional para a Saúde Transgênero"). A associação provém médicos e terapeutas que seguem normas de atenção no tratamento de pacientes transgênero, incluindo terapia hormonal, cirurgias e outros tratamentos.

2. Estigmatização

Em 1980, o Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-3) da Associação Americana de Psiquiatria incluiu um diagnóstico controverso chamado "transtorno de identidade de gênero", que depois foi atualizado para "disforia de gênero", em 2013, no DSM-5. O termo estigmatizava a identidade de gênero e perpetuava a ideia de que ser trans seria o resultado de uma doença mental. No entanto, atualmente, compreende-se que ser trans não é uma doença propriamente dita, mas os problemas causados pela disforia de gênero, sim. Em 2019, a Organização Mundial da Saúde determinou que a transexualidade não é um transtorno mental. Isso foi feito para evitar a estigmatização que essa classificação causava, além de trazer um maior discernimento em relação à identidade transgênero. 

3. Implicações legais

Nos últimos anos, ocorreu uma virada no que diz respeito aos direitos das pessoas trans e o seu acesso à saúde. Em 2012, a Argentina aprovou uma lei que permite que qualquer pessoa acima de 18 anos escolha a sua identidade de gênero, faça as alterações legais em documentos, realize a cirurgia de readequação de gênero e faça terapia hormonal. Outros países do mundo começaram a aprovar leis similares para abrir portas e facilitar que as pessoas trans procurem e recebam tratamento adequado.

4. Discriminação

Apesar dos avanços significativos, as pessoas trans ainda relatam que enfrentam discriminação no trabalho, incluindo assédio, dificuldade na contratação e agressões físicas e sexuais. Crianças trans sofrem bullying na escola, e muitas delas se sentem inseguras, não são chamadas pelo nome e pronome corretos, e até evitam usar os banheiros por temer pela própria segurança ou são obrigadas a usar um banheiro ou vestiário que não se alinha com o gênero com o qual se identificam. Com tantas mudanças no mundo, a nossa compreensão do que é ser transgênero deve mudar e se expandir e, com isso, veremos mais consciência e proteção social, médica e legal, o que ajudará as pessoas trans a viverem uma vida autêntica e plena.

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Então, você acabou de ler este artigo sobre a história por trás da identidade trans. Nós falamos sobre a história de indivíduos trans, transição e direitos. E agora? Se você for uma pessoa transgênero e estiver lendo isso, quero que se lembre de que você tem valor e merece cuidado. Se for cisgênero, eu tenho uma missão: torne-se aliado/a hoje e todos os dias da sua vida. Vamos falar brevemente sobre como fazer isso!

An image of a hand holding up a sign that says, "United for trans equality"
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Guy Smallman / Getty Images

1. Saiba que existem muitas maneiras de expressar uma identidade de gênero. As pessoas podem ou não fazer transição, trocar o nome e os pronomes, fazer alterações nos documentos e ter maneirismos, sem contar as possíveis expressões físicas através do cabelo, das roupas, etc. Não existe uma maneira certa ou errada de ser trans, então certifique-se de que o seu comportamento não seja discriminatório.

2. Acostume-se a apresentar-se pelo nome e pelo pronome que usa. Isso faz com que pessoas trans se sintam mais confortáveis e seguras ao fazer o mesmo, além de normalizar essa forma de se apresentar. Falando nisso, nunca tente adivinhar os pronomes de alguém. Se cometer algum erro, desculpe-se com sinceridade (e rapidamente). Em outras palavras, não faça um grande caso.

3. Demonstre educação e não faça perguntas pessoais para pessoas trans, por exemplo, a respeito de cirurgias ou sobre práticas sexuais ou seus genitais. Uma boa regra a seguir é: se você não perguntaria a uma pessoa cis, não pergunte a uma pessoa trans. Se estiver com curiosidade e já conhecer a pessoa, pode perguntar algo como: "Você se importa se eu perguntar coisas a respeito da sua transição?". Sempre mantenha respeito caso a resposta seja negativa.

4. Uma das coisas mais importantes de ser um/a aliado/a é manter a confidencialidade. Isso significa que, se você souber que uma pessoa é trans, não faça fofocas ou compartilhe a informação com qualquer um. Como super-heróis e super-heroínas, a identidade trans pode ser um segredo, e espalhar essa informação pode colocar uma pessoa trans em uma situação de risco.

Você pode recorrer ao Centro de Valorização da Vida, ligando gratuitamente a qualquer dia ou hora para o 188, à Rede de Atenção Psicossocial e aos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) da rede pública. Não deixe de buscar ajuda!

Este post foi traduzido do inglês.

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