Como novas obras de ficção estão mostrando a complexa realidade dos transtornos mentais

Por muito tempo, as obras literárias para adultos, com algumas exceções, tenderam a fazer referência a transtornos mentais de forma indireta. Isso parece estar mudando.

Calum Heath for BuzzFeed News

No recém-lançado romance de estreia de Melissa Broder, "The Pisces", a narradora Lucy acorda um dia dentro de seu carro, na beira da estrada, cercada por rosquinhas. Ela tinha adormecido ali após tomar muitos remédios contra insônia na noite anterior. Depois de dormir 15 horas seguidas, ela acorda faminta e louca para tomar café da manhã. Ela está confusa e não consegue pensar em ninguém para telefonar e pedir para vir buscá-la. O policial chamado ao local acaba lhe dando uma carona para casa. É o mesmo policial que foi investigá-la alguns dias antes, quando ela havia quebrado o nariz do ex-namorado em um ataque de ciúmes por causa da nova ficante dele.

Lucy, que mora em Los Angeles e está tentando ajudar uma amiga com tendência suicida, não demora muito para perceber que dirigir ainda estando sob o efeito de remédios contra insônia foi uma tentativa de suicídio. Ela então percebe, atônita, que a depressão é realmente uma doença. E continua, dizendo: "Eu também tive depressão minha vida inteira, só que mais como uma distimia — um mal-estar geral".

Essa frase assinala um dos principais pontos desse romance: o reconhecimento sincero do transtorno mental.

Tanto a nomenclatura dos transtornos mentais como a tentativa de descrever suas várias nuances ainda são temas muito difíceis de se encontrar na literatura moderna. Há algumas poucas autobiografias que lidam com a experiência dos transtornos mentais de forma surpreendente e bela, como a de Sara Benincasa, "Agorafabulous!", de 2012, "Defying the Verdict" de Charita Cole Brown, de 2018, e "The Collected Schizophrenias" de Esmé Weijun Wang, que será lançada em 2019, mas ainda é difícil encontrar romances atuais que abordem os transtornos mentais com o mesmo cuidado. As obras de ficção também têm um longo e exaustivo histórico de uso dos transtornos mentais como enredo ou simbologia, mas mais livros como o de Broder são muito bem-vindos.

De uma forma ou de outra, a "loucura" sempre esteve presente — textos médicos da China antiga tratam de transtornos mentais, assim como os de alguns filósofos gregos — mas a compreensão desses distúrbios, baseada em fundamentos científicos modernos, não é tão antiga.

É um conceito bastante moderno dividir os transtornos mentais em diferentes categorias e sintomas – como esquizofrenia, depressão ou ansiedade – ao contrário de palavras vagas e incapacitantes como "insanidade" ou "loucura". Passamos a ver o transtorno mental como um marcador de identidade e também como um fato biológico. Como, então, inserimos na literatura nossa compreensão moderna sobre esse assunto e como o integramos nas narrativas de ficção?

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As obras de ficção tem um longo e exaustivo histórico de uso de transtornos mentais como enredo ou como simbologia.

Em 1979, as professoras e críticas feministas Sandra Gilbert e Susan Gubar publicaram o livro "The Madwoman in the Attic" [A Louca no Sótão], uma releitura da figura retórica de Bertha Mason, a louca do título, mantida presa no sótão do Sr. Rochester na obra "Jane Eyre" de Charlotte Brontë.

Gilbert e Gubar se valem de uma percepção feminista para entender como a loucura é tratada nas obras de vários autores da era vitoriana. Para elas, a loucura é sempre uma simbologia de algo, como a sexualidade reprimida, por exemplo, e a falta de independência das mulheres escritoras. Isso não quer dizer que nesse período não houve obras literárias que abordassem diretamente a loucura: há suicídio em "Mrs. Dalloway", de Virginia Woolf, a depressão claramente retratada em "A Redoma de Vidro", de Sylvia Plath e a germofobia (medo patológico de sujeira) e as alucinações retratadas em "Um Estranho no Ninho", de Ken Kesey.

Até hoje os transtornos mentais são usados como enredo, seja nas reviravoltas de um thriller psicológico em que uma mulher é realmente uma psicopata o tempo todo (como em "Garota Exemplar" de Gillian Flynn), seja como um personagem cômico cujas palhaçadas loouuucas! são o ponto alto da história (como a mãe do narrador de "Sete Dias sem Fim" de Jonathan Tropper). Para ser justa, há uma linha tênue entre demonstrar o que realmente é um transtorno mental e fazer com que cada experiência dolorosa se encaixe em um diagnóstico patológico. É muito comum que as pessoas em geral, e em especial as que sofrem de algum transtorno mental, exagerem na maneira como expressam suas emoções, façam tempestade em copo d'água, ou inventem doenças para si mesmas. A própria natureza de muitos transtornos mentais é o conflito entre a consciência de que o distúrbio pode nos fornecer informações equivocadas e a incapacidade de ignorar sua lógica persuasiva, ainda que muitas vezes destruidora.

É exatamente por isso que alguns livros novos, como "The Pisces" e "Everything Here Is Beautiful", de Mira T. Lee, lançado em janeiro, assim como o romance de 2017 "Tartarugas Até Lá Embaixo", de John Green, são dignos de comemoração. Esses livros conseguem mostrar a tensão entre a negação e a dúvida vivenciada por muitas pessoas com transtorno mental em relação à sua condição, assim como os pontos que as fazem se convencer da sua realidade e dos efeitos em sua vida.

De acordo com a organização National Alliance on Mental Illness, 1 em cada 5 adultos nos Estados Unidos lida com transtornos mentais a cada ano. A mesma estatística vale para os adolescentes. Isso abrange uma grande e heterogênea parcela da população dos Estados Unidos. E ainda que muitas pessoas com transtorno mental, se não a maioria delas, não se definam por ele, o distúrbio é inerente às suas vidas. Encontrar livros que investigam a realidade do transtorno mental, nomeando-o, enfrentando-o, mas sem torná-lo fator essencial da identidade e do caráter de uma pessoa, pode ajudar o leitor a perceber que suas experiências são válidas e reais.

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A literatura para jovens adultos tem sido, de certa forma, pioneira no âmbito da representação dos transtornos mentais, já que, de várias formas, o gênero foi construído em torno da ideia do livro "problema".

Um dos melhores exemplos recentes é o novo livro de John Green, "Tartarugas Até Lá Embaixo", que trata da ansiedade e do transtorno obsessivo-compulsivo, embora só a ansiedade tenha recebido esse diagnóstico explicitamente. A protagonista e narradora da história é Aza, uma garota de 16 anos cujo pai morreu há alguns anos. O enredo gira em torno da ansiedade dela, mas não se resume a isso. O que desencadeia a trama é o desaparecimento de um milionário que fugiu de casa numa batida policial. Aza já conhecia o filho do milionário, e eles voltam a se relacionar quando a melhor amiga dela fica obcecada em encontrar o homem desaparecido para receber uma recompensa.

A ansiedade de Aza é fundamental para a personagem, já que faz parte dela. Ela toma medicamentos, mas não regularmente. Ela vive reabrindo um machucado na mão como um mecanismo de enfrentamento, para garantir que a ferida não está infeccionada. A ferida é uma metáfora, tão antiga quanto os mitos gregos que envolvem feridas que nunca cicatrizam. Mas, para Aza, a ferida é real. Está ligada à sua obsessão com o próprio intestino, com as milhares de bactérias que vivem dentro de nós e ajudam no funcionamento do nosso corpo. Aza está sempre preocupada com essas bactérias, e em como ela pode ser real se só toma uma pequena parte das suas decisões. As bactérias também são uma metáfora útil para seus próprios pensamentos que vêm a sua mente sem ser chamados. Como uma pessoa com doença mental sabe se está tomando suas próprias decisões ou se é a doença que está no controle? Esse é o tipo de pergunta que uma pessoa com transtorno mental enfrenta diariamente, e John Green consegue mostrar isso por meio do monólogo interno de Aza, que às vezes se torna denso e muito familiar:

Você conta uma mentira, sem pensar, só tentando imaginar um jeito de descrevera a dor, como se encontrar as palavras certas para ela fosse o bastante para ela sair de dentro de você. Se você é capaz de tornar alguma coisa real, se você pode vê-la, cheirá-la e tocá-la, também pode matá-la. Sabe, é como o cérebro fervendo. É como um roedor roendo você por dentro. Uma faca no estômago. Uma espiral. Redemoinho. Buraco negro.

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A literatura para jovens adultos é pioneira no âmbito da representação de transtornos mentais.

A autoconsciência de Aza é um dos pontos fortes do livro. Ela está sempre questionando suas percepções. Sabe que suas obsessões não fazem nenhum sentido "real", mas também tem consciência de que só ela é capaz de controlá-las. Há muitos romances para jovens adultos que tratam de doenças mentais, como o livro de 2009 "Garotas de Vidro", de Laurie Halse Anderson, sobre garotas com transtornos alimentares, e "Little & Lion", de Brandy Colbert, publicado em 2017 e com uma personagem diagnosticada com transtorno bipolar.

Descobri que, até bem pouco tempo atrás, muitas obras literárias para adultos tendiam a fazer referência a transtornos mentais de forma indireta. É claro que também há muitos livros que os abordam diretamente, tanto alguns dos muitos clássicos de Virginia Woolf como exemplos mais recentes e bem-humorados, como o de Amy Bender publicado em 2010, "A Peculiar Tristeza Guardada Num Bolo de Limão".

No entanto, recentemente, notei uma mudança nos romances para adultos, uma propensão para mencionar doenças mentais e examiná-las com atenção, permitindo mostrar as motivações e os sentimentos das personagens para além de seus diagnósticos. Em 2016, por exemplo, a editora independente Unnamed Press publicou "The Border of Paradise", de Esmé Weijun Wang, que recebeu elogios pela sua descrição do transtorno mental. Wang não fornece um diagnóstico específico para a doença do protagonista David. Isso se deve em parte pelo fato de que o romance é ambientado nos primórdios do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, que ainda dava diagnósticos como "neurose". No entanto, David claramente tem um transtorno mental. A família dele também sabe disso e se refere ao problema como "a doença". O próprio David explica: "As opções que eu tinha eram psicanálise, eletrochoque ou remédios com mais efeitos colaterais do que benéficos para o tratamento. Ninguém ensina você a lidar com isso. O que os médicos nunca me disseram é que uma parte dos loucos também tem um estilo de vida maluco. Eles não dão muitas opções, e é por isso que muitos de nós, loucos, ficamos em um beco sem saída." Wang mostra o mundo por meio do ponto de vista de David à medida que ele tenta lidar com as coisas que lhe fazem mal desde que era jovem. Ele vive mais em meio a fantasias do que propriamente a realidade da sua vida e seu suicídio, logo no início do livro, atinge todos à sua volta de forma implacável.

Mais recentemente, há o romance de estreia de Mira T. Lee, "Everything Here Is Beautiful", publicado em janeiro. A autora faz uma análise magnífica de como é viver com um transtorno mental grave e difícil de definir, como as pessoas lidam com ele e o compreendem mal. Lucia Bok, filha e irmã de imigrantes chineses, a primeira da família nascida nos Estados Unidos, tem transtorno esquizoafetivo. No início do romance, Miranda, irmã mais velha de Lucia, precisa educar o novo marido de Lucia, Yonah, sobre a doença da esposa. Yonah não concorda com o hospital, acredita que Lucia só precisa descansar, quando na verdade ela se encontra em uma espiral paranoica, acreditando estar sendo vigiada e observada pelas serpentes que povoam suas alucinações. Miranda fica indignada com a incapacidade de Yonah de enxergar a doença de sua irmã: “Eu peguei uma pasta cheia de folhetos, anotações e artigos clínicos, que cheguei a guardar por três anos. Perguntas e respostas de quatro cuidadores sobre os sintomas e sinais do transtorno bipolar. 25 dicas para lidar com a esquizofrenia. 'Ela tem uma doença mental', eu disse para ele. Empunhei a pasta como uma arma e como prova. 'O hospital está aqui para ajudá-la. Ela precisa de ajuda. Você não entende?'" Yonah acaba vencendo essa luta, mas Miranda está sempre preocupada com Lucia, porque viu a irmã chegar ao fundo do poço.

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Até bem pouco tempo atrás, muitos obras literárias para adultos tendiam a fazer referência a transtornos mentais de forma indireta.

Por outro lado, também vemos o mundo sob a perspectiva de Lucia, e ela é muito mais do que sua doença mental, mesmo que inegavelmente o transtorno faça parte de sua vida. Ela é inteligente, cheia de vida, entusiasmada, sonhadora e absolutamente capaz de cumprir com suas responsabilidades de adulta. É formada e tem muita experiência como jornalista. Ela e Manny, um imigrante equatoriano ilegal nos Estados Unidos, tem um bebê juntos e, após um período inicial muito difícil, Lucia retorna para seu filho e se muda com Manny para o Equador para viver perto da família dele. Ela passa por momentos bons e ruins. Nas fases boas, ela acha que o mundo é um lugar lindo e maravilhoso; nas ruins, acredita que tanto o mundo como ela são veneno puro. Por outro lado, também guarda muitos ressentimentos da comunidade médica, o que é compreensível. Em sua primeira internação hospitalar aos 26 anos de idade, ela narra: "Eu era uma paciente dócil, a perfeita bonequinha asiática, e acabei sendo rotulada com uma doença mental severa e permanente. Mais tarde, me disseram que eu tinha 20% de chance de ter um emprego em tempo integral, 25% de viver sem depender de ninguém, 40% de tentar o suicídio e 10% de ter sucesso".

Lee consegue observar a difícil e dolorosa realidade que acompanha essa doença, mas não finge descrever uma experiência típica ou monolítica. É a história de uma mulher, as histórias da sua família e de seus entes queridos, que vai muito além da sua doença mental. É sobre mudança, medo e família. O que é ser um cuidador e o que é ser uma pessoa que requer cuidados.

Outra escritora que faz grandes avanços na forma como a literatura lida com doenças mentais é Melissa Broder, a voz por trás da conta @sosadtoday do Twitter. Em "The Pisces", Broder analisa a depressão de uma forma incrivelmente honesta que, creio eu, soa muito familiar para todos que já sofreram com ela. Lucy, a narradora, passou recentemente por uma separação amorosa e, embora sofra de depressão há muito tempo, desta vez encara a doença de outra maneira. “Eu sempre pensei que a depressão não tivesse forma. Mas dessa vez foi diferente, como se fosse uma lama grossa e pegajosa. Tinha sua própria forma. Não podia ser contida. Foi um terror. Não sei exatamente o que me aterrorizava, mas estava em cima de mim." O verão de Lucy na casa da irmã em Venice Beach é repleto de sexo anônimo e terapia de grupo para pessoas com vícios sexuais e amorosos. Há também uma relação amorosa com uma criatura mítica. Mas, acima de tudo, o livro consegue captar a lógica da mente de uma pessoa com depressão. O livro também mostra o crescente entendimento de Lucy sobre sua própria doença, à medida que ela passa a reconhecê-la em outras pessoas ao seu redor. Quando Claire, sua nova amiga, tenta o suicídio, Lucy narra:

Suicídio é uma daquelas coisas que, pensando em retrospecto e tendo sido uma pessoa com pensamentos suicidas, sinto que posso falar sem fazer julgamentos. Mas, ao mesmo tempo, eu não via nenhum motivo racional para dizer para ela que continuasse a viver. No entanto, que tipo de pessoa é essa que não tenta fazer com que uma amiga desista da ideia de se matar?

É surpreendente ler um relato com tamanha franqueza, testemunhar a conversa de uma pessoa consigo mesma nas páginas de um livro. Essa é a grande importância da representação: saber que a sua experiência não é só sua e pode ser incrivelmente libertadora e válida.

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Esses novos romances são extremamente relevantes porque ainda são raros.

Esses novos romances são extremamente relevantes porque ainda são raros. Isso talvez ocorra porque, em comparação com as publicações de não ficção que tratam de doenças mentais, as narrativas ficcionais são poucas e distantes entre si. Elas conseguem captar a realidade dos transtornos mentais e, ao mesmo tempo, contam histórias emocionantes, comoventes e muitas vezes belas. Proporcionam um meio onde os leitores de ficção podem reconhecer aspectos de si mesmos e se sentirem vistos.

Dois romances recentes para jovens adultos, "The Place Between Breaths", de An Na, publicado em março, sobre uma garota que luta contra os primeiros sintomas da esquizofrenia, e outro lançamento de março, "The Awesome Color of After", de Emily XR Pan, sobre um suicídio parental, também lidam com problemas de saúde mental. Além disso, outras obras prometem lidar com a questão: "My Year of Rest and Relaxation", de Ottessa Moshfegh, chega em julho e trata do aspecto farmacológico de lidar com a doença mental. O livro de estreia de Adib Khorram, "Darius the Great Is Not Okay" será lançado em agosto e aborda a depressão clínica e como conexões significativas podem ajudar a superar dificuldades. E também há o próximo livro de Ayana Mathis, "A Violent Woman", ainda sem previsão de publicação, que conta a história de uma mãe com um passado sombrio e uma filha com doença mental que é recrutada para um grupo político radical.

Como todos os marcadores de identidade, o transtorno mental possui nuances e muitas vezes tem significados diferentes para cada pessoa. Por isso, é ótimo perceber que a literatura também está começando a proporcionar uma variedade de experiências relacionadas às doenças mentais. ●

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Ilana Masad é uma escritora americana de origem israelense cujas obras de ficção, não-ficção e crítica já estiveram presentes nas revistas e jornais "The New Yorker", "The New York Times", "Washington Post", "Guardian", "Catapult", "Joyland Magazine", "LA Times" e em muitas outras publicações. É fundadora e apresentadora do podcast The Other Stories, que apresenta escritores de ficção novos, emergentes e consagrados.

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A tradução deste post (original em inglês) foi editada por Luísa Pessoa.

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