Se você for protestar durante a pandemia, tome cuidado com o risco do coronavírus

Suas chances de contrair a COVID-19 aumentam se estiver em um grupo, e o gás lacrimogênio pode agravar a doença.

A woman wearing a facemask holds a sign during a protest in Minneapolis on May 29 over the death of George Floyd, a black man who died after a white police officer pinned him on the ground in a neck chokehold until he became unresponsive.
A woman wearing a facemask holds a sign during a protest in Minneapolis on May 29 over the death of George Floyd, a black man who died after a white police officer pinned him on the ground in a neck chokehold until he became unresponsive.

Kerem Yucel / Getty Images

"Vidas negras importam."

Milhares de pessoas encheram as ruas de Minneapolis (EUA) esta semana para protestar contra a morte de George Floyd, um negro desarmado que morreu após um policial asfixiá-lo com os joelhos. À medida que esses protestos se estendiam pela quarta noite, especialistas em saúde pública alertaram que manifestações de massa, não importando o quão urgentes, eram o ambiente propício para a disseminação do coronavírus, e os participantes devem usar medidas extras de segurança.

"Protestos contra a violência racista, incluindo o assassinato de Breonna Taylor, Tony McDade e George Floyd, envolvem estar em grandes multidões", disse Brandon Brown, que leciona sobre saúde pública na Universidade da Califórnia, em Riverside (EUA), ao BuzzFeed News. "Durante essa pandemia, se você não puder usar medidas de prevenção adequadas, incluindo o distanciamento físico e o uso de máscaras, está se colocando em um risco maior de contrair a COVID-19."

Usar uma máscara e se manter a pelo menos 1,80 m de distância de outros manifestantes é fundamental, disse Brown.

O Dr. John Swartzberg, cujo trabalho na UC Berkeley se concentra em doenças infecciosas, disse ao BuzzFeed News que recomendou o uso de óculos, óculos de proteção ou outra forma de proteção dos olhos para tentar evitar que gotículas da doença entrem pelos olhos, o que algumas pesquisas sugerem que poderia ser possível.

"Não compreendemos a importância de um protetor facial ou dos óculos de segurança", disse Swartzberg, "mas achamos que é suficientemente importante que tenhamos profissionais de saúde usando um protetor facial".

Outra questão é que gritar lança mais gotículas da doença no ar, aumentando a chance de infecção. Swartzberg apontou para uma infame partida de futebol na Itália que se tornou o epicentro de um surto da COVID-19, enquanto fãs em grande proximidade torciam pelo seu time favorito e abraçavam uns aos outros após a vitória. "A gritaria irá expelir muito mais partículas com muito mais força", ele disse.

Depois, há o gás lacrimogênio, uma arma usada pelas forças policiais para controlar multidões em todo o mundo. De acordo com Sven Eric Jordt, professor adjunto em anestesiologia na Universidade Duke, o gás lacrimogênio pode prejudicar o sistema respiratório, o que o coronavírus também ataca.

"Essa é realmente uma arma química, certo? E é projetada para provocar dor", contou ao BuzzFeed News.

A coisa mais importante a fazer se tiver sido exposto ao gás lacrimogênio é sair de perto da fonte o mais rápido possível, disse Jordt. No início, a pessoa afetada sentirá dor na garganta e no rosto. Algumas pessoas sentem os olhos fecharem involuntariamente como reação a isso. Haverá muita produção de muco nos pulmões, por isso haverá muita tosse. Consequentemente, isso pode levar a sentimentos de ansiedade e asfixia, e é comum sentir falta de ar.

"Digamos que uma pessoa tenha um problema cardíaco ou asma, ela pode sofrer reações muito mais graves, como ataques de asma ou o risco de hospitalização", disse Jordt. "Problemas cardiovasculares têm sido descritos, o que provavelmente está relacionado a um ataque cardíaco. Esses são muito raros, mas têm sido descritos na literatura."

Um tuíte que viralizou, com mais de 250 mil retuítes, aconselha as pessoas a neutralizar o gás lacrimogênio com bicarbonato de sódio diluído em água. Jordt disse que o método poderia funcionar mas tem efeitos potencialmente perigosos, incluindo irritação de pele e de áreas sensíveis e algumas possíveis feridas. Um método melhor seria usar água e, se possível, trocar de roupas e tomar um banho.

"Se você sair da fonte e puder se lavar e trocar de roupas, os sintomas realmente diminuirão depois de pouco mais de uma hora ou de algumas horas", ele disse. "No entanto, se você teve alta exposição e risco de queimadura nos olhos e na pele, isso poderá levar dias ou semanas para cicatrizar. E muitas pessoas se tornam mais sensíveis com o tempo."

Ainda é incerto a maneira como o dano causado pelo gás lacrimogênio poderia afetar uma pessoa que tenha a COVID-19, mas Jordt apontou para estudos do Exército americano que mostraram que recrutas que foram expostos ao gás lacrimogênio eram mais suscetíveis à infecções respiratórias, como resfriados e gripes.

"Vemos essa militarização e cada vez mais o uso de gás lacrimogênio, muito mais cedo do que antes", disse. "Estou muito preocupado que isso seja uma escalada contínua e que não apenas em Hong Kong ou em outros países, mas agora nos EUA também. Por isso, defendo que se reavalie realmente o gás lacrimogênio depois de ver os efeitos toxicológicos que ele pode ter."

Brown afirma que os manifestantes devem ser informados dos efeitos na saúde pública, tanto da pandemia quanto da violência contra os grupos vulneráveis nos EUA.

"Estejam cientes das taxas de mortes desproporcionais de pessoas afro-americanas, indígena americanas e latino-americanas, tanto pela COVID-19 quanto pela violência policial", disse Brown.

Este post foi traduzido do inglês.

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