7 segredos de "AmarElo" que o Emicida quer MUITO te contar

Seu parça quer te contar uns detalhes muito importantes...

Há 2 anos

No final de outubro de 2019, o rapper Emicida lançou seu terceiro álbum de estúdio: "AmarElo”. Seu mais novo trabalhos vem calmo, sereno, contemplando o amor como segredo de tudo. Com onze faixas + uma música que leva o nome de "Silêncio”, o disco conta com participações de Zeca Pagodinho, Fernanda Montenegro, Drik Barbosa, Mc Tha e muito mais. O BuzzFeed Brasil colou na sede do Lab Fantasma, para Emicida contar como foi o processo de criação desse álbum. É um segredo maior que o outro, se liga:

As leis de Newton com umas tiazinha macumbeira

Reprodução / Wikimedia

Emicida trata a primeira faixa do disco como uma metáfora de como a raça humana se encontra na história.

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"Principia" tem esse nome por causa dos livros do Isaac Newton, "Principia Mathematica", que são os livros que contêm as três leis da física de Newton. E aí, eu entendo que isso pode ser uma metáfora a respeito de como a raça humana se encontra na historia. O livro do Newton fala que quando um corpo entra em contato com outro, ele altera o destino do corpo menor através do movimento. Por mais que esse corpo menor tenha seu destino alterado de maneira mais brusca, o corpo maior também tem seu destino alterado. Então, a partir do momento que a gente se encontra, tudo muda. Daí é a historia da humanidade, mais o velho Newton e com um monte de tiazinha macumbeira cantando o refrão, porque a gente precisava fazer que isso ficasse divertido.

"Fala meu nome aí, Emicida..."

O cantor Zeca Pagodinho faz parte da canção "Quem Tem Um Amigo (Tem Tudo)”, que celebra a amizade.

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Zeca pagodinho tava no estúdio gravando voz. Ele é o Zeca Pagodinho. Ze-ca Pa-go-dinho. ZECA PAGODINHO. ELE É O ZECA PAGODINHO! Não consigo nem achar um adjetivo para falar "o Zeca Pagodinho". Só isso já bastou. Daí ele chega pra mim, me chama de canto e fala pra mim assim: "Ô Emicida, fala meu nome na música aí pras pessoas saberem que sou eu". ¯\_(ツ)_/¯

Bom Zeca, vai ser difícil alguém não conhecer essa voz. E aproveito pra acrescentar que não vai demorar muito pra essa música tocar no almoço de domingo na casa da minha avó.

COMO ASSIM UMA ARMA?

Reprodução / PxHere

Em uma melodia que se aproxima de um samba, a faixa "9nha" tem a participação da Drik Barbosa no refrão.

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"Novinha". Todo mundo que ouve ela de uma forma pouco cuidadosa acha que é um relacionamento de dois adolescentes que estão se descobrindo, se amando, querendo ficar famoso, perdendo a virgindade juntos. Mas, na verdade, novinha trata de um moleque de 15, 16 anos, falando da relação dele com uma arma de fogo, de como a violência é sexualizada na nossa realidade... Vish, agora vai ter as pessoas que vão fazer [movimento de cabeça explodindo]. CÊ É LOUCO, CUZÃO. Vou te falar, saíram várias resenhas e vários manos jornalistas não pegaram. "Ah, porque ele fala de um amor junto com a Drik Barbosa, os dois falando de sexo sem pudor". E eu só aqui hehehehe.

Muita calma que a fita tá chegando...

Reprodução / PxHere

Isso aí acima é uma fita cassete, caso você não saiba.

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Wilson das Neves foi uma pessoa muito especial pra mim. Tenho minha visão de mundo antes e depois dele. Foi um grande professor. Fui muito abençoado de poder conhecê-lo e criar junto com ele, viajar junto, tivemos a honra de homenagea-lo enquanto ele ainda tava aqui. Só que ele tinha coisa muito louca: ele não usava WhatsApp, ele não usava nenhum desses compartilhadores de arquivo. O celular dele era antiguinho, então o que ele fazia: quando tinha ideia de uma musica, ele gravava uma fita cassete e mandava por Sedex. As pessoas querem saber de onde vem a calma de "AmarElo"? A calma vem porque eu tinha que esperar 30 dias pra chegar a fita do seu Wilson e foi uma terapia involuntária que eu fiz.

"Se Deusa é por nóis, quem será contra nóis?"

Divulgação / Globo Filmes

Fernanda Montenegro como Nossa Senhora de Aparecida no filme "O Alto Da Compadecida".

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Essa foi uma coisa mágica que aconteceu. Poder ter a participação da Fernanda foi tipo assim: "Acabou, tenho mais o que fazer. Vou procurar um trampo". Agora, eu acho ser humilde é uma característica das pessoas que são realmente gigantes. Primeiro que ela topou sem saber o que era. Isso já me senti muito lisonjeado, porque é muito bonito você poder falar com um artista desse quilate e ela dizer pra você: "Demorou, Emicida. É nois". Eu fiquei: "Eeeeeeita". Daí, quando chega lá no estúdio, converso com ela contextualizando "Ismalia" no disco, dizendo pra ela que acho que hoje "Ismalia" é mais urgente do que no século XIX porque ele fala muito sobre a experiência de vida, principalmente das pessoas de pele escura. E ela já tinha gravado. Depois dessa conversa, ela fala: "Eu acho que a gente tem que gravar de novo". Daí ela entra no estúdio, com uma humildade gigante. "A interpretação pede um outro estado de espirito" e vai lá pra fazer. Seu camarada Emicida fica assim ó [cara de choro], olhando a Nossa Senhora do "O Auto da Compadecida" dentro do estúdio. Parceiro, quem vai bater de frente? A mãe de Deus tá com nóis!

Cala a boca, disgraaAAAAAAAaaaaça

Reprodução / Pixabay

A faixa que fala sobre sobrevivência e como vencer os dilemas da vida conta com a participação de Mc Tha, cria da Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo traz muita leveza pra canção.

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"Ordem Natural das Coisas". Eu escrevi esse refrão e ela foi produzida pelo Damien Seth, lá do Rio de Janeiro. Na verdade, ele é da França e mora no RJ. Quando mandei a guia, eu gravei no WhatsApp um audio cantando só o refrão, pra ele sacar mais ou menos qual era a ideia. Lá em casa, eu moro num lugar que é muito arborizado, então tem muitos pássaros, todas as horas do dia tem pássaro cantando. A noite dá uma diminuída e passa só uns morcegos. Quando eu gravei a guia e mandei pra ele, eu moro lá então já nem percebo tanto os pássaros, eu não ouço eles direito. Aí mandei pro Damien, ele produziu a música e manteve os pássaros, mas eu nem tinha pensado. Daí falei: "Pô, Damien, que bonita essa ideia que você teve de colocar os pássaros". Daí ele respondeu: "Não, mano. É que eu vi que você montou aí no áudio o conceito com várias aves e tal". E eu tentando fazer os pássaros calar a boca. Gritava "Cala a boca, disgrAAAAAAça!". Mas ficou lindo.

Fazer silêncio para entrar em amarelo e como lavar as mãos antes de comer!

Foto: Lohana Schalken

Para fazer funcionar, criou-se uma textura e colocou em uma faixa para virar uma experiência de meditação pra gente não sendo apenas um exercício da física, se você deu play no Deezer (A faixa mesmo você só encontra da Deezer) e não entendeu nada, tá aqui a explicação.

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"A coisa mais incrível da "Silêncio" é o fato dela trazer a física, que está muito presente no disco. A primeira parte vem junto com a faixa extra do disco que representa o solo terrestre criar um guia de ondas no campo de ressonância Schaumann. Essa ressonância, depois de alguns exercícios, chega em "La”, que é uma nota que te dá essa sensação de bem estar e a maior parte das músicas arranjadas na história da humanidade eram em "La". E a gente acha que a gente criou isso que o Tom Zé chama de "cadeia”, que é a escala cromática que é aquilo de subir meio tom, meio tom, meio tom. Mas, na verdade, quem criou essa parada foi a natureza, a gente só adaptou e adequou para uma linguagem que a gente toca. Dentro dessa matemática imprevisível que é a música, como também imaginar que "AmarElo" é a coisa mais grandiosa que a gente pode oferecer para as pessoas. Se você é um alpinista, você escala uma montanha e quando você chega no topo a primeira coisa que você faz é olhar pra sua própria conquista e reverenciar aquilo de forma silenciosa. Observar como o mundo é gigante e a gente pequeno. O silêncio é sua forma de dizer isso. A gente tá oferecendo algo que nutre muito a alma das pessoas como um banquete e fazer "Silêncio" para entrar em "AmarElo" é como lavar as mãos antes de comer!

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