Impressão minha ou a série da Marie Kondo na Netflix é meio sombria?

"Ordem na Casa com Marie Kondo", da Netflix, promete a "vida ideal" pela arrumação. Mas a bagunça é a causa dos nossos problemas ou só um sintoma deles?

Denise Crew / Netflix

A genialidade de Marie Kondo é a genialidade do eufemismo. Digo isso como uma pessoa que, assim como Kondo, é muito boa em jogar coisas fora, mas que, diferentemente dela, nunca correu o risco de se tornar uma celebridade internacional por causa disso.

Jogar coisas fora é a base do famoso processo de organização de Kondo. De acordo com o método KonMari, podemos nos livrar do excesso ao analisar quais objetos realmente precisamos, usamos e amamos.

Kondo, japonesa de 34 anos que gosta de vestir branco quando está no trabalho (“faz parte da minha marca”, explicou ao New Yorker), transformou sua abordagem em um reality show de oito partes na Netflix. Em "Ordem na Casa com Marie Kondo", ela (acompanhada de uma tradutora) visita várias famílias de classe média na região de Los Angeles (EUA) para salvá-las de sua própria bagunça.

Kondo usa o termo "arrumar" para o que faz. Qualquer um poderia sugerir a outras pessoas para se livrar de metade das coisas que têm (experimente! Elas vão adorar!). Já “arrumar” soa muito mais suave e menos ameaçador – algo que se aplica em grande parte ao sistema pseudo-espiritual que Kondo defende e que ensina ao lado de práticas como roupas dobradas em pé nas gavetas e uso de caixinhas. Kondo apresenta tarefas que, de outra forma, poderiam parecer emocionalmente dolorosas ou simplesmente muito cansativas como uma espécie de ritual carinhoso. ("Não se force a arrumar”, diz Kondo a uma das clientes com quem ela trabalhou na série da Netflix. "É uma experiência em si.") Você não está se livrando das coisas; está se separando delas após agradecê-las pelo seu serviço.

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Kondo não é apresentada apenas como uma arrumadora de lares, mas também como uma arrumadora de vidas

Com certeza os trechos mais monótonos da série são as partes em que Kondo não está em cena e os personagens de cada episódio estão fazendo o trabalho de abraçar camisetas para ver se elas trazem alegria.

Dito isso, a série claramente coloca Kondo como um ser de outro mundo, saindo de uma minivan em direção ao início de cada episódio como a enviada de um universo minimalista. Entende-se que esse universo não só é mais limpo, como também é mais feliz, e é por isso que Kondo não é apresentada apenas como uma arrumadora de lares, mas também como uma arrumadora de vidas.

"Ordem na Casa" é o exemplo mais recente do que Kathryn VanArendonk, da Vulture, chamou de séries de "especialistas alegres" da Netflix, ao lado do reboot de "Queer Eye" e da série de comida "Sal, Gordura, Acidez e Calor". No entanto, "Ordem na Casa" também se baseia em uma premissa que não acho que a série seja capaz de provar: a ideia de que, se você se organizar o suficiente — esvaziar aquela gaveta de lixo e limpar aquela garagem —, problemas pessoais muito maiores e mais persistentes podem ser resolvidos durante o processo.

Cada episódio de "Ordem na Casa" mostra Kondo entrando em uma situação doméstica repleta de tensões emocionais, variando das menores (pais com a casa vazia após a mudança dos filhos limpando objetos de várias gerações) até as maiores (uma viúva cujo marido morreu há nove meses que ainda não conseguiu mexer nos pertences dele). Alguns dos casais — tirando a viúva, Margie, são todos casais, alguns com filhos — parecem ter suas vidas resolvidas, o que significa, pelas regras dos reality shows, que seus episódios são chatos (me desculpem, lésbicas recém-casadas aparentemente felizes no 8º episódio!).

Os episódios interessantes são os que oferecem vislumbres de problemas maiores, como as pontas dos icebergs surgindo no mar à noite. Os produtores da série parecem bem conscientes disso, já que optam por começar com a visita de Kondo à família Friend, liderada por Rachel e Kevin, que parecem ter passado a fase do casamento em que realmente gostavam um do outro.

Os Friends poderiam ser um vídeo instrutivo sobre o esgotamento dos millennials. O casal está exausto com as longas horas de trabalho de Kevin e a ansiedade paralisante de Rachel sobre como ela deve manter uma casa aparentemente arrumada enquanto cuida dos dois filhos e trabalha meio período.

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Netflix

Kevin e Rachel Friend com sua filha no 1º episódio.

Ainda assim, depois que todo o método KonMari é aplicado, Rachel chora agradecida e fala sobre como não vai mais se permitir "ser preguiçosa", o que me pareceu ser uma interpretação tão ruim das razões subjacentes de sua angústia (não estou exausta, só não tenho me esforçado o suficiente!) que desliguei a TV depois de assistir ao episódio pela primeira vez.

Katrina, a esposa no terceiro capítulo, cuja família se mudou de uma casa em Michigan para um apartamento de dois quartos em Los Angeles, também sente que está falhando com sua família, já que não está fazendo (sozinha) todas as tarefas domésticas do jeito que acha que deveria fazer — "Sinto que sou a culpada, porque sou a mãe", diz.

Ron, o marido aposentado no segundo episódio, em certo momento fala sobre ser “um tipo de cara machão e antiquado, e que isso não é algo que faria normalmente”. Fica no ar o que seria "isso" — cuidar de suas próprias coisas? Limpeza, em geral? Já a esposa dele, Wendy, tem um momento igualmente antiquado quando brinca sobre ir às compras após as brigas para “atingir Ron onde dói, em sua carteira”.

No entanto, não são apenas questões domésticas relativas a gênero que Kondo enfrenta (e com as quais, às vezes, gentilmente se envolve). Quando um dos parceiros do casal gay no quinto episódio fala sobre sentir que não deixou os pais orgulhosos, ele confessa, de um modo casualmente brutal, que às vezes se pergunta se justificou os gastos de seus pais, como se sua vida fosse um investimento do qual ele não sabia se estava dando retorno.

"Ordem na Casa" coloca os conselhos domésticos incansavelmente alegres de Kondo contra o que às vezes parece um cenário americano de pânico capitalista tardio, esmagando as expectativas internalizadas. É difícil acreditar que a organização de uma casa seja capaz de lidar com as ansiedades e velhas feridas que alguns dos clientes, através de sorrisos educados e lágrimas agradecidas, revelam na tela. Ainda assim, todos os episódios terminam com a conclusão cuidadosamente editada de que isso pode acontecer e que eles não saberão até tentar.

"Qualquer espectador sensato sabe que aquilo é bom demais para ser verdade", escreve Rachel Syme — mas não está claro se as pessoas na série também sabem disso. Um armário organizado pode lidar com a sensação de desconexão cultural que a esposa americana paquistanesa do sexto episódio de repente se pergunta se tem de seu marido branco? Provavelmente não, mas o episódio corta para alguns dias depois, quando ela aparece com o método KonMari concluído, e tudo parece estar bem. Se todos vão ficar bem ou não, é uma questão que permanece sem resposta enquanto rolam os créditos.

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Denise Crew/Netflix

Marie Kondo com seus clientes Matt e Frank no 5º episódio, "Arrumação nota 10".

Sou alguém que lentamente se transformou em uma pessoa organizada depois de adulta, cujas mãos às vezes se contorcem com um desejo inesperado de se livrar de itens desnecessários sempre que estou em uma casa cheia demais. Ou seja, eu adoraria encontrar uma reafirmação dos meus hábitos em "Ordem na Casa", um elogio à virtude de ter a quantidade certa de coisas na casa (e ter tudo isso bem organizado).

Como uma série sobre melhorias domésticas, "Ordem na Casa" é perfeitamente assistível e ocasionalmente inspiradora, principalmente nas sequências em que Kondo oferece dicas diretamente para a câmera (mesmo que eu tenha uma discordância profunda com sua abordagem em relação a como dobrar lençóis com elástico). Muitas pessoas encontraram na série motivação para se livrar de coisas que não usam mais ou redobrar sua própria roupa.

No entanto, como uma série de conselhos para a vida (principalmente se comparada à irmã mais calorosa da Netflix, "Queer Eye"), "Ordem na Casa" é incongruente de uma forma que demora um pouco para entender. Muitos dos casos apresentados são exemplos da inquietação silenciosa, mas persistente, sobre o que significa fazer, ter e compartilhar uma casa nos dias de hoje, assim como se sentir seguro nela.

No centro da série está uma promessa melancólica de que, se você conseguir arrumar as coisas na sua casa, nem que seja uma única vez, muitas tensões mais profundas e aparentemente intratáveis certamente desaparecerão da sua vida. Um lembrete de que manter as coisas bem organizadas vale tanto, em termos de manter o controle, quanto como ter a atitude de nunca jogar as coisas fora.

 "Ordem na Casa" é incongruente de uma forma que demora um pouco para entender

Sempre senti isso instintivamente, sendo uma pessoa que acalma a si mesma reorganizando estantes de livros ou vasculhando o guarda-roupa para ter certeza de que tudo o que está pendurado ali será usado. No entanto, nunca entendi a satisfação que tinha com esses hábitos até que, há alguns anos, assisti à minha mãe — exausta e acabada pelos ciclos de quimioterapia para o câncer para o qual agora ela está em remissão — sair do sofá depois de uma tarde particularmente ruim. Ela se ajoelhou no chão da cozinha e começou a ordenar e reorganizar seu armário de Tupperware — colocando aquela pequena parte de sua vida em ordem, porque ela podia.

A aura de retidão moral que ao longo do tempo se ligou à minimização e ao minimalismo sempre me pareceu injusta. Não que haja algo de ruim no evangelho de Kondo de manter apenas o que você ama e precisa, mas nem tudo é sobre se abster das coisas. Quando um dos episódios de "Ordem na Casa" começa com pais dizendo para seus filhos que não irão levá-los à loja de brinquedos porque todos eles vão aprender sobre “serem felizes com o quanto [eles] já têm”, essa é a projeção deles — Kondo, que (é claro) vende seus próprios produtos, não vai tão longe a ponto de desaconselhar os impulsos consumistas. Em vez disso, se mantém no território mais tranquilo de ter o tipo certo de coisas no lugar certo, o que não é a mesma coisa que viver com pouco, embora pareça próximo o suficiente para absorver um pouco da ideia.

Ter o tipo certo de coisas significa poder comprar mais coisas ou coisas mais novas quando você precisar (ou quiser), desde que você ganhe espaço. Tem a ver com reduzir, em vez de não ter. Tem a ver com ter tudo o que você precisa para buscar o que Kondo se refere várias vezes como "sua vida ideal". E é esse termo que realmente destaca os limites da arrumação, porque não abre espaço para a ideia de que uma bagunça pode ser um sintoma de problemas maiores afetando a vida de alguém, em vez de apenas a causa deles. Ter uma casa organizada pode ser uma coisa maravilhosa, mas a organização raramente é a única coisa que impede alguém de atingir todo o potencial de sua vida. ●

A tradução deste post (original em inglês) foi editada por Luísa Pessoa.