Precisamos falar sobre aquela cena do confessionário em "Fleabag"

A segunda temporada de "Fleabag" flerta lindamente — e sensualmente — com gênero, poder e desejo. (Aviso: contém spoilers sobre padre gostoso.)

BBC One

Na segunda (e aparentemente última) temporada da extraordinária série de Phoebe Waller-Bridge na BBC, "Fleabag", a personagem principal admite que está em busca de redenção.

Após uma primeira temporada com uma sequência de cagadas cômicas e terrivelmente sombrias, Fleabag finalmente se recompõe: ela parou de usar sexo com homens para preencher o vazio em seu coração, seu negócio é surpreendentemente bem-sucedido e ela está curando feridas antigas com a família. Mas, mesmo assim, ela conseguiu o que talvez seja sua maior cagada de todas ao se apaixonar pelo tipo de homem menos disponível do mundo: um padre católico.

O padre (um Andrew Scott terrivelmente charmoso), que foi ordenado recentemente, toma uísque em vez de chá após a missa e fala muitos palavrões, mas mesmo assim colocou sua fé em um Deus todo-poderoso. Ele não necessariamente é um padre muito bom, mas é um padre. Fleabag insiste que é uma ateia convicta e não tem interesse em suas promessas de salvação — "Não me torne uma otimista; isso vai arruinar minha vida" —, mas, no 4º episódio, ele consegue convencê-la a ir ao confessionário.

Ao quebrar a quarta parede, vimos Fleabag colocar sua vida em um contexto irônico; mas agora, pela primeira vez, a vemos se revelar de verdade, assim como seus piores medos, não para um público anônimo, mas para um ser humano. Através da tela do confessionário, chorando, ela conta tudo ao padre:

"Quero alguém que me diga o que vestir de manhã. Quero alguém que me diga o que vestir TODA manhã. Quero alguém que me diga o que comer. Do que gostar, do que odiar e do que ter raiva. O que ouvir, de qual banda gostar, para o que comprar ingressos. Com o que fazer ou não piada. Quero alguém que me diga no que acreditar, em quem votar, quem amar e como contar para a pessoa.


"Eu só quero alguém que me diga como viver a minha vida, Padre, porque até agora eu acho que fiz tudo errado — e eu sei por que as pessoas querem alguém como você em suas vidas, porque você apenas diz para elas como fazer. Você simplesmente diz para elas o que fazer e o que elas vão conseguir no fim das contas, e mesmo que eu não acredite nas suas bobagens, e eu sei cientificamente que nada do que eu faço faz diferença no fim das contas. Eu ainda estou com medo. Por que eu ainda estou com medo? Então me diga o que fazer. Apenas me diga o que fazer, Padre."

É um momento maravilhoso e visceral, tornado ainda mais revelador por sua raridade: nunca vimos Fleabag tão vulnerável — tão disposta a ceder espaço para que algum tipo de poder superior possa simplesmente dizer a ela exatamente quais passos ela deve seguir.

Mas a crueldade do momento quase imediatamente dá lugar a algo mais sobrenatural; espiritual e carregado. Após uma série de episódios em que ela se recusou a seguir qualquer conselho desse cara — ou de qualquer outra pessoa —, Fleabag faz o que o padre diz para ela fazer:

"Ajoelhe-se."

O sinistro coro da igreja que ouvimos durante toda a temporada de repente vira uma música quando o padre puxa a cortina do lado de Fleabag no confessionário. Ele olha para ela; ela olha para ele. Então ele se junta a ela de joelhos, pega o rosto dela com as mãos e a beija.

É uma cena extremamente pesada em uma trama já pesada. (Ela se apaixona por um padre? Sério, um padre?) Mas a série tem tanta consciência de como tudo isso é extraordinário que, para mim, o amasso no confessionário funciona extremamente bem em vários níveis: é um momento crucial para a personagem principal que foi magoada demais para se abrir com alguém. E também é excitante pra caralho.

O casal em "Fleabag" tira sarro das conotações de pai que surgem com a cobiça de um homem da igreja. Antes de eles darem uns amassos, quando Fleabag assusta o padre tarde da noite na capela, ela se refere a ele como "Pai" com um pouco de sarcasmo na voz, e ele entra na dela: "Ah, foda-se, me chamando de Pai como se isso não te excitasse só de falar." Ela levanta as sobrancelhas para ele, ele sorri para ela, e eles encerram o assunto.

Há um elemento queer nessa união hétero homem-mulher: além da coisa mais óbvia de Pai/Filho de Deus, há a proibição absoluta de tudo isso — a malícia, a perversidade. Você não deveria querer transar com o padre; nem se ele for jovem e gostoso. Nem se ele te entende de verdade, principalmente durante os momentos em que você tenta se esconder do mundo. Nem se parece que vocês claramente deveriam ficar juntos.

Fleabag tem um flerte mais explicitamente queer no início da temporada com Belinda, uma bela empresária de 58 anos. Descobrimos que Fleabag se inclina para o lado queer quando Belinda (Kristin Scott Thomas) pergunta se Fleabag é lésbica e ela diz "não estritamente", e que está buscando orientação de pessoas que passaram por mais problemas do que ela.

Com a mãe morta e um pai praticamente inútil, a orientação que Fleabag recebe de Belinda é do tipo que ela não conseguiria com as figuras parentais reais de sua vida. Acima de tudo, Belinda diz para ela parar com a misantropia. Quando Fleabag brinca que a maioria das pessoas é uma merda, Belinda a adverte: "As pessoas são tudo o que temos. Então pegue a noite pelos mamilos e vá flertar com alguém." Fleabag segue seu conselho com um beijo, mas Belinda rejeita seus avanços; ela diz que é porque Fleabag não faz o tipo dela, mas talvez Belinda saiba que uma figura de mãe mais velha e poderosa pode não ser o que Fleabag está procurando.

Mas e uma figura de Pai?

O doce e desajeitado Andrew Scott como padre não é um pai no sentido sexual tradicional; ele tem a idade de Fleabag e parece, em muitos aspectos, tão perdido quanto ela. Mas, no confessionário, a diferença de poder momentânea entre os dois torna-se incrivelmente explícita: Fleabag renuncia a toda sua autonomia em troca da euforia da submissão. Ela obedece. Ela se ajoelha. Quando o padre puxou a cortina e a encontrou de joelhos, eu literalmente perdi o fôlego.

Renunciar completamente ao seu poder, mesmo que por um momento — colocando-se por inteiro, de corpo e alma nas mãos de outra pessoa — pode ser muito inebriante em um mundo onde somos paradoxalmente frustrados por infinitas escolhas (como diz Fleabag: o que vestir, o que comprar, no que acreditar), e isso fez um alerta assustador de que nossas escolhas individuais não importam de verdade no final. O planeta está queimando; todos nós iremos morrer. Por que não, de vez em quando, desapegar e deixar Deus? Ou: desapegar e deixar o santo servo de Deus te comandar um pouquinho sexualmente?

O que torna essa cena muito mais do que insinuações baratas, no entanto, é que o padre complica uma dinâmica mais direta de dominação/submissão ao ficar de joelhos e se juntar a Fleabag no chão. Depois, quando Fleabag o convence a ir para a cama com ela apesar de seu compromisso de amar apenas "uma coisa", ela é a parceira no controle. Como todos os relacionamentos reais de carne e osso, o deles é aquele em que poder e controle não são exercidos e concedidos em igual medida; o padre e Fleabag lutam com os desejos um do outro, mas são iguais em seu amor condenado, em sua necessidade desesperada por algo que tenha significado — por algo mais.

O padre apunhala o coração enigmático de Fleabag quando a acusa de não querer que digam a ela exatamente o que fazer, no fim das contas. "Se você quisesse que te dissessem o que fazer, usaria uma dessas", diz ele, arrancando as vestes e relembrando algo parecido com o que o novo terapeuta de Fleabag disse a ela alguns episódios atrás. "As mulheres não podem" — ela começa. "Ah, foda-se!", grita ele. "Eu sei!"

É uma das muitas piadas brilhantes da série sobre gênero, poder e desejo. O padre é designado como alguém mais próximo de Deus em virtude de sua masculinidade; ele tem o privilégio de acreditar na eternidade. Mas Fleabag — a quem ele ama, mas não pode escolher ao invés da eternidade — tem o privilégio de sua liberdade.

O relacionamento deles, e a série em geral, trata dos paradoxos inerentes à condição humana quando se trata de sexo, amor e vida em si. Todos nós queremos ser cuidados; queremos que nos digam que somos bons meninos e meninas; para ter certeza de que, se seguirmos as regras — ouvir, obedecer, confiar, nos render —, tudo ficará bem. Queremos rendição. Queremos a fé cega.

Mas, com a mesma frequência, queremos estar no controle. Queremos ter poder sobre nossas decisões; queremos autonomia e independência; queremos livre-arbítrio; queremos ser os mestres de nossos próprios universos. Queremos liberdade.

Mas o que torna a vida tão preciosa e terrível ao mesmo tempo é o fato de que não podemos ter tudo. "Fleabag" é alegre e comovente pela maneira como extrai essas verdades. Sabemos, no final, que Fleabag vai ficar bem — não ótima, provavelmente, mas bem. Isso é tudo o que todos nós podemos esperar. ●

Publicidade

BBC One

Publicidade

Este post foi traduzido do inglês.