Como este desfile de moda nos fez pensar sobre o lugar dos negros no mundo

A gente só sonha com aquilo que já viu.

Publicado por Aline Ramos e Gabriel Sukita

Há 3 anos

Algo que eu, Aline, aprendi com as crianças de um projeto na periferia de Bauru é que a gente só sonha com aquilo que já viu. Aquelas crianças tinham os sonhos limitados a sua realidade de pobreza e violência, mas ao me verem, puderam sonhar em serem jornalistas um dia.

Diferente dessas crianças, eu, Gabriel, nunca tive uma referência negra em quem pudesse me espelhar, e essa situação que nunca existiu poderia ter feito muita diferença na minha história.

E foi no desfile de lançamento da nova coleção de verão para 2019 da marca Dabliu Costa que pudemos relembrar como a representatividade ainda é importante em nossas vidas.

Eu, Aline Ramos, sou redatora do que a gente chama de conteúdo original de entretenimento e provavelmente você já leu alguma coisa que eu escrevi sobre racismo e representatividade. Ou então você já fez algum teste meu e descobriu qual pastel de feira você é.

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Eu, Gabriel Sukita, sou um dos redatores dos conteúdos patrocinados do Buzz, ou seja, sou uma das pessoas que ajudam a trazer várias graninhas para empresa. Assim vocês podem continuar, tranquilamente, descobrindo qual pastel de feira vocês são.


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Nós dois nunca tínhamos ido a um desfile e devemos confessar que o que nos motivou a ir foi o show do rapper Luccas Carlos, do MC Koringa que teria após o desfile. E, claro, nós também gostamos de coisas que são de graça, kkkkkkk. Mas quando chegamos lá percebemos que a noite seria mais do que uma mera festa.

Quem fez o convite foi uma amiga, a Maiwsi Ayana, que é uma fashionista que tem sua própria marca, a byMaia. Quem nos recepcionou foi a Regina Ferreira, modelo, produtora de moda e eventos. As duas, mulheres negras, queriam que nós, dois jovens negros, pudéssemos ter a melhor experiência possível naquela noite, mesmo sendo uns dos poucos negros do rolê.

Verdade seja dita, para nos impressionar não precisa de muito, MAS...

Sentar ao lado do Ferrugem na primeira fileira do desfile, uau! Sentar de frente pro Léo Santana, uau! Ganhar uma sacola com brindes no maior estilo recebidinhos da semana das blogueiras, U A U! Nos impressionamos fácil porque o que nos une, além da raça, é a falta de contato que temos com esse mundo VIP, branco e cheio privilégios.

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O desfile começou e fomos impactado pelo primeiro modelo negro. E mais, outro, quatro, cinco, seis. Quando o desfile já estava no meio que começaram a surgir modelos brancos. E isso nos impressionou muito. Nós nunca tínhamos ido a um desfile, mas sabíamos que aquilo que estava acontecendo não é o padrão dentro da indústria da moda.

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"SUKITA, EU ESTOU IMPACTADA. NÓS VAMOS TER QUE ESCREVER SOBRE ISSO! MEUS OLHOS ESTÃO CHEIOS DE LÁGRIMAS."


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Estávamos emocionados por ver modelos que eram parecidos com a gente, vestindo roupas que adoraríamos comprar. Parece bobeira, mas mesmo com 30 anos nas costas esse tipo de coisa ainda tem um impacto muito grande. Nós dois sempre flertamos com a moda e buscamos o nosso estilo, mas nunca sentimos que esse era um espaço para nós. Nesse desfile ficou mais do que claro que negros podem estar nas passarelas, serem protagonistas e inspirarem o estilo de outras pessoas, como os brancos sempre fizeram.

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Dessa vez os negros estavam sob o holofote e não era um holofote de viatura policial.

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Divulgação / Dabliu Costa

O que é comum se você é negro e mora num bairro periférico. Como é o caso do modelo Leonan Ernesto, que era balconista de uma lanchonete até ano passado. Ele é morador do Complexo do Lins, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro que está frequentemente nos noticiários por conta da violência que domina o bairro.

Leonan, que em qualquer lugar poderia ser tratado como marginal apenas por ser negro e de origem periférica, agora é um ícone da moda, e acima de tudo, humano. Com certeza isso é transformador, mas precisamos ir um pouco além. Porque nós, que também estávamos na primeira fileira do desfile, também poderíamos ser vistos como uma ameaça assim que pisássemos na rua.

E foi o que aconteceu comigo (Aline), assim que decidi ir embora sem bateria no celular. De VIP passei a ser suspeita para os taxistas que não pararam pra mim na rua. Três pararam, mas alegaram que a maquininha do cartão estava quebrada. Você pode chamar isso de azar, mas pra quem já passou por isso mais de uma vez sabe que isso tem um nome: racismo.

Ou seja, o que determina a forma que vamos ser vistos é o local e o contexto em que estamos inseridos. Às vezes não importa se você é modelo ou redator do BuzzFeed, na rua, você é visto como uma ameaça apenas pela sua cor. E isso precisa mudar.

Já estive na mesma situação com meu namorado branco ao lado e pegar um táxi não pareceu uma tarefa impossível. Minha vontade era sentar na calçada e chorar, mas decidi que o racismo não iria estragar tudo o que eu tinha vivido naquela noite. Por isso me levantei e caminhei. Não era uma passarela, mas tomar essa atitude me tornou mais forte.

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Dabliu Costa, Dabliu Costa, Dabliu Costa


Essa forma em que negros podem ser tratados de modos diferentes em lugares diferentes mostra que, mesmo que a gente avance e alcance lugares nunca imaginados, precisamos de mais pessoas mudando a realidade que está ao seu redor. E foi isso que o William Costa, dono e estilista da Dabliu Costa, que cresceu na periferia de São Paulo, e o seu co-criador Phelipe Lemos, um homem negro, fizeram. Eles mudaram dentro da realidade deles como um desfile de moda pode ser feito. Colocaram em evidência modelos negros, contrataram produtoras e assessoras negras e deram oportunidade para pessoas que geralmente são esquecidas pela moda. Desta forma, fizeram esse círculo de privilégio da moda, que às vezes parece impossível de quebrar, girar de outra forma.

Por isso precisamos de mais pessoas com essa mentalidade de mudança nos espaços de poder e decisão, porque assim estaremos mais próximos de transformar o mundo em um lugar em que todas as diferenças são respeitadas – e encorajadas. Às vezes você não precisa de muito poder para fazer a diferença, pequenas atitudes podem ser feitas para que isso aconteça. Há muitos negros desejando uma oportunidade em diversas áreas, e se você é uma pessoa que pode dar uma oportunidade, faça isso.

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Naquela noite, também pudemos conversar com o Luccas Carlos e confessamos que odiamos tietar, mas que precisávamos dizer para ele a frase "pretos no topo", muito utilizada pelos rappers negros. Afinal, foi lindo vê-lo no palco, brilhando como os modelos naquela noite. Nós nos apresentamos como os dois únicos funcionários negros do BuzzFeed e ele nos disse algo que nunca vamos esquecer e esperamos que vocês também não esqueçam: "Podemos ser poucos, mas aprendi que, mesmo assim, podemos fazer muito."

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Logo em seguida, a Kelen, uma amiga que também trava a batalha de ser a única funcionária negra em seu setor, confessou: "Quando você (Aline) entrou no BuzzFeed eu comemorei tanto, comemorei como se fosse eu, porque eu sabia que você ia fazer a diferença."

E é por isso que estamos escrevendo agora.

O Luccas e a Kelen nos lembraram porque estamos aqui e qual é o nosso compromisso. Somos dois, mas podemos escrever um texto como esse para lembrar nossos colegas de trabalho e leitores que falar de sonhos, novos mundos e representatividade pode mudar a vida de pessoas como nós.

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Nós concordamos que ter apenas dois funcionários negros na empresa está longe de ser o ideal.

Mas sabemos que fazemos parte de um processo de transformação. Transformação que nos fez chegar até aqui, que nos fará continuar cobrando por mais funcionários negros, que fará com que mais posts como esse sejam publicados, que mais pessoas saibam que não estão sozinhas.

Não vamos parar de falar sobre representatividade até que as pessoas sintam que estão caminhando, não por corredores da morte, mas por passarelas da vida.

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