Uma mulher trans foi atacada pelo chefe enquanto fazia live para denunciá-lo

O agressor Helio Job Neto é dono de uma loja focada no público LGBTQI+.

Atenção: este texto pode ter conteúdo sensível para algumas pessoas.

Jeniffer de Oliveira Pereira é uma mulher trans de 25 anos que trabalhava como vendedora da loja Fendior, na Rua Augusta, em São Paulo. No último domingo (18), ela resolveu fazer uma live em seu perfil do Instagram para denunciar o chefe, Helio Job Neto, que passou a agredi-la ao vivo.

Arquivo pessoal/Reprodução

Ao G1, Jeniffer contou que começou a trabalhar na empresa no dia 3 de junho a convite de Helio, proprietário da marca de roupas com foco no público LGBTQIA+. Durante a primeira quinzena, a convivência foi harmoniosa, mas, tanto ela quanto outros colegas de trabalho logo começaram a sofrer agressões verbais.

"Também passei a ser agredida verbalmente todos os dias, inclusive em frente a clientes e aos funcionários das lojas vizinhas, com piadinhas transfóbicas, que questionavam minha feminilidade, ignorando meu nome social, e com o uso de palavras ofensivas, como 'traveco'", relatou.

Publicidade

"No começo, ele [Helio] se mostrou bacana, mas com o tempo passou a fazer comentários do tipo: 'E aí, traveco? Hoje você está parecendo mais mulher, né?'", disse Jeniffer em entrevista para o Universa.

A gota d'água foi no próprio domingo, quando Helio teria feito críticas racistas pelo fato de Jeniffer chegar na empresa com os cabelos naturais, e não alisados. Constrangida, ela acabou fazendo um coque.

Publicidade

Mais tarde, Helio Job teria mandando a jovem calar a boca enquanto ela conversava com um amigo que foi até lá lhe entregar um almoço.

Reprodução

Jeniffer disse que não se calaria e que exigia respeito. Ao G1, ela relatou que Helio teria a chamado de folgada e dito que a loja era dele, portanto, ele que mandava. "Ele chegou a pegar minha mão na tentativa de torcer meu dedo. Foi então que decidi iniciar uma live na tentativa de me proteger com essa prova", explicou.

Durante a live, Jeniffer conta que Helio a mandou calar a boca e a chamou de traveco diversas vezes. Ao fundo, é possível ouvir a voz de outra pessoa repetindo "é mentira, é mentira". Em dado momento, Helio, de camiseta verde, se aproxima covardemente e começa a agredi-la, puxando seu braço.

Reprodução

Publicidade

Jeniffer foi a uma delegacia e contou que além de esperar uma hora e meia para ser atendida, o delegado pediu que ela assinasse um B.O. sobre o qual não tinha conhecimento e ainda foi vítima de transfobia.

"Fui informada de que o delegado não queria me ouvir, mas ainda assim o procurei no DP. Falei que sou uma mulher trans e que fui agredida, que tinha a prova em vídeo e ele disse: 'você, uma mulher?' Disse que não me ouviria e que eu deveria procurar um advogado se não estivesse satisfeita", contou ao G1.

O absurdo é ainda maior: no B.O. assinado pelo delegado Fábio Hayayuki Matsuo, tanto Jeniffer quanto Helio aparecem como autores e vítimas. O advogado da jovem, o ativista Bruno Otávio Costa Araújo, disse que irá exigir a investigação do caso. "Enxergo ao menos três crimes neste ambiente de trabalho que devem estar no BO – a transfobia, o racismo e a lesão corporal, registrada na gravação", informou ao G1.

Publicidade

Por aqui, torcemos para que mais um caso de transfobia e agressão não fique impune nesse país.

A vereadora Erika Hilton afirmou que levará o caso à Câmara e pedirá providências.

Veja também