Uma grande e deliciosa aventura anticonformista

"Beijei a primeira menina da vida. Tinha gosto de Bubbaloo de amora."

Em 1998, eu tinha 16 anos e a Internet era uma coisa bastante rudimentar. Eu falava com amigos pelo ICQ – uma espécie de tataravô do Whatsapp –, visitava sites toscos atrás de imagens para imprimir e colar na minha agenda e entrava em salas de chat com pessoas desconhecidas. Foram esses chats que acabaram me apresentando o mundo gay de Porto Alegre, que, naquela época, estava intimamente conectado à cultura da música eletrônica. O ponto central desse universo era uma boate com três subsolos chamada Fim de Século. Beijei a primeira menina da vida no primeiro subsolo. Tinha gosto de Bubbaloo de amora.

Nada disso era um segredo para meus amigos heteros do colégio. Muito pelo contrário: eu me sentia uma heroína em uma grande aventura, e queria levá-los para aquele mundo colorido e empolgante recém descoberto. Vários deles, meninos e meninas, acabaram descendo comigo os muitos degraus do Fim de Século. Eram, sobretudo, o S da sigla que tínhamos na época, GLS (gays, lésbicas e simpatizantes), mas isso não impediu que uma amiga perfeitamente hetero se apaixonasse por outra menina. Foi bonito de ver, ainda que breve. Em certo sentido, levamos o Fim de Século para dentro da escola naquele ano e também em 1999, com nossas roupas do universo clubber e os beijos secretos no banheiro.

Arthur tinha se descoberto gay, mas eu era a única da escola a saber disso, o que revelava a diferença brutal entre se declarar uma menina que gostava de meninas ou um menino que gostava de meninos.

Foi também em 98 que eu e Arthur ouvimos falar da Escala Kinsey. A Escala Kinsey, criada em 1948, partia do pressuposto de que havia no mundo homossexuais e heterossexuais, mas também um grande número de pessoas que navegava nas nuances desses extremos. Arthur via a si mesmo como um “6”, o que significava 100% homo. Uma pessoa “0” era exclusivamente hetero. Eu me classificava como um “5”.

Alfred Kinsey, que havia estudado o comportamento e os desejos sexuais de milhares de pessoas, considerava a sexualidade algo fluido e que podia mudar com o tempo. Sempre acreditei nesse conceito. Me envolvi com muitas meninas. Em 2007, conheci um cara. Passamos oito anos juntos, e meu lugar na escala obviamente mudou nesse período (Eu tinha passado a ser um “4”? Talvez um “3”?). Hoje sou casada com uma mulher e me considero bissexual, essa categoria muitas vezes esquecida ou até mesmo desprezada dentro do próprio movimento LGBTQI+. Para mim, tudo ainda parece uma aventura. Uma grande e deliciosa aventura anticonformista.

A autora Carol Bensimon:

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Junho é o Mês do Orgulho LGBTI+ e para celebrar nós convidamos quatro escritora/es para repartir relatos inspiradores de aceitação própria. Leia também os relatos de Amara Moira, Chico Felitti e Tais Bravo. Veja também todos os posts do BuzzFeed Brasil sobre o tema aqui.


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