Um mini-buquê de pelos

"Vai deixando que eles cresçam livres e despreocupados, pelos que um dia acreditou-se forjariam um homem e que hoje emolduram seus lábios de mulher."

Ela acaricia o peito cheio de pelos, seu peito, divertida em só agora se dar conta de como ele está.

"Assim desde quando?", se pergunta, lembrando também o quão pouco ela tem se observado, o quão pouco ela tem olhado para o próprio corpo. O círculo de pêlos ao redor da auréola, o bico proeminente bem no meio, peito que não é tão grande mas é grande o bastante para encher seus olhos, sua mão. E o essencial, ela pensa, dela inteirinho. Há tempos tinha abandonado o bojo e os truques para simular volume e, desde então, ela preferia evitar até o uso do sutiã, para que ficasse claro que ali existia um peito e que ele era seu.

Agora, contudo, cabeludo. A auréola circundada, a pelugem rala irregular recobrindo também o côncavo entre os dois montes e daí abaixo pelo abdômen, só deixando liso o terreno no umbigo e nas laterais. Que horror imaginar-se assim no passado, horror que a levou a se entupir de hormônios anos a fio e a fazer uma boa dezena, pelo menos, de sessões de depilação a laser. E, no entanto, cá estão eles de volta, quando por um bom tempo ela os tinha imaginado extintos.

"Eu já tinha isso tudo de pelos lá atrazão, antes?" Não sabia responder. Talvez depois de parar com os hormônios, o pelo foi voltando ao terreno igual erva daninha, mais forte ainda do que quando não os tomava. A erva daninha arrancada ao jardim por seu pai. Como era mesmo o nome da ferramenta engraçada, torta, que ele usava pra cavucar a terra, "tem que tirar ela assim inteira, cuidado pra não quebrar a raiz". Não quebrar a raiz era também a preocupação quando punha-se diante do espelho, puxando um a um com pinça os pelos que insistiam em despontar por seu rosto, sobretudo no buço e queixo.

Agora, no entanto, trancada em casa e tão esquecida de olhar-se, brincava de esticar com os lábios os fiapos compridos que insistiam em crescer pelo buço, poucos, não mais que dez, e penteá-los com a língua, morder os que alcançavam os dentes. Deixava-os crescer um tanto por preguiça, outro tanto por curiosidade, vontade de saber quanto ainda não havia sido destruído. Daria pra chamar de barba?

O pai mais uma vez veio-lhe à lembrança, fazendo a barba no espelho e plantando uma mudinha suja de espuma em seu rosto, "pra virar homão igual o papai". Ela respondeu, se limpando, que não queria, "éca", e ele riu, "não quer ter barba que nem eu, filhão?" Ela tinha seis anos, sete, por aí, e só ali, na resposta que deu, descobriu que certas coisas pensadas, sentidas não podiam ser ditas, cada "repete!" que ele gritava virando um vergão em suas pernas, "quer ser menina, é?"

Será que o pai ia gostar de saber que a mudinha plantada naquele então ainda hoje teimava em querer crescer e que ela agora começava a gostar dessa mudinha? Tão logo acabe a quarentena, fará um mini-buquê com esses pelos pra depositar na sua sepultura, o perdão que nem foi pedido nem ela quer mais carregar.

Até lá vai deixando que eles cresçam livres, despreocupados, pelos que um dia acreditou-se forjariam um homem e que hoje emolduram seus lábios de mulher.

A autora Amara Moira:

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