Travesti Radioativa (terceiro fragmento inédito)

A cabeludíssima história de hoje fala sobre uma nova heroína (ou vilã, vai saber).

Ouça aqui:

Daí que se não é nem pra gente se divertir co' as conas, elas ficando loucas depois, aquela dúvida babado, "ai, nossa, esse peitinho horroroso, quer dizer, lindo, faço o que agora?!", bem, se nem esse prazer a gente pode ter, aí gozar no pegê pra quê? Gozar é atraso de vida, só prejuízo pra gata. Na hora, cê pode tá lá na pira, dependendo o cabrito quem for, mas, flor, trabalho é trabalho, não dimenticarlo, conselho de quem tá no ramo há, ó, eras. Tê até que ajuda, mas sempre? Louca é que eu não sou a esse ponto. Eu infelizmente escolhi ser póvera, aquilo de testosterona era pra mim não, era de deus não. Relou, pensou o que não devia, pronto, tava lá a trolha quase arrebentando a calcinha da bicha. Comigo foi bem um mês assim, até ir acabando o efeito ou era eu acostumando giá, non lo só, porque lógi' que eu ia exprimentar o troço. Cê não, jura? Sei não, o soldi que eu fiz, vish, duvido que uma chancinha pelo menos cê não ia dá. Mas o azulzinho só e o boy junto, ainda eles abrindo bonitinho a carteira, a força da imaginação taí é exatamente pra isso. Moral da história: pagando bem, jeito a gente acha. Só que isso de atender casal não deu mais pra mim o dia que tava os três lá no motel, climão, o boy (mariconona da pior, só a esposa não via) tentando fazer o lance engrenar veio aproximando eu dela, a cabeça das duas, pra ver se a gente se beijava, eu já com a neca o mais que possível dura, e nada a ver eu tá gostando, te manca, viado!, era só o viagra fazendo efeito, quando a mapô não me começa a chorar!? Uó, mona, ela correu, se trancou no banheiro, começou a escovar o dente com força, tanta que dava pra escutar lá fora. Só porque me beijou, ela surtou depois. Isso que nem sonha as imundices que o maridinho dela faz, a boca, a língua dele andando pelo meu corpo, os pontos poucos onde elas ainda não passearam. Quer dizer, né, será que ainda resta algum? Rá! Eco la domanda que não quer calar. Sinceramente, non mi ricordo nessuno. E essa boca, língua gosta mesmo é de andar a pé e, detalhe, descalça, pra desbravar bem o gosto daquela fauna e flora que habita os cantinhos mais recônditos del mio corpo, se é que cê tá me entendendo. Mente podrerrérrima a dele, embucetava era com as coisas mais sujas. Pé, cu, até o subaco, sim, subaco, ele pedia pra eu ficar sem desodorante o máximo que eu conseguia e depois lambia, chupava, ele didê, eu me contorcendo de cócegas. E quanto pior o aroma, o sabor, mais é que ele me gostava. Aqueles dias que nem o próprio nariz tá aguentando, o chulé, o cecê, inhaca que cê até tonteia, pronto, nesses é que ele brigava pra sair comigo. Tem um tênis que eu deixo dentro de um saco fechado, lacrado, e tiro pra usar só nesses dias. Podre é elogio, só bucha pro fedô saí do meu pé depois, mas a gente aceita por quê, né? Porque é o dinheiro mais fácil. Não tem que usar neca, não tem que dar praquelas piabinha deles, só deixar eles com a linguona ali se deliciando no vão dos meus dedos, esfregando, esfregando até o meu pezinho ficar limpo outra vez. Limpo, dêr!, limpo uma pinóia, que aquela baba de Chernobil deles eu só torço é pra ela não me causar nenhuma mutação genética. Travesti radioativa, já pensou? Uma nova heroína pra barbarizar Hollywood: ela de escarpã vermelho finíssimo, saltão e tudo, e quando tira discretamente o sapato, misericórdia, é um vazamento de radiação quase, todo mundo vesgo, vomitando, sem conseguir respirar, pensando como que aquele fudum é possível. Não chega a ser mortal, mas, também, mortal pra quê? Ela não é vilã. E c'o abalo que isso já dá, trá!, o mundo fica aos pés dela. Travesti, meu bem! Tenho até a indicação perfeita pra esse papel, a dona do chulé mais mortífero que eu conheço. Quem? Quem disse que eu vou te contar? Deusa me livre, cê é uó demais pra guardar segredo, aposto que eu contava e ela ficava era sabendo na hora. Tô nem reclamando, você é assim, ponto, é só uma contastação, constasta, isso, cê me entendeu. Onde que eu tava antes disso, aliás? Ah, sim, a doida lá no banheiro, trancada.

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PS:

A foto de abertura é de Giulia Sforza, travesti amicíssima minha e uma das Dommes mais poderosas desse país. O chulé mortífero mencionado no monólogo não é exatamente dela, mas o acervo de calçados que ela possui é capaz de surpreender os paladares e olfatos mais exigentes.

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