Segundo fragmento inédito em pajubá

A história hoje fala de golden shower, prática que um presidente andou divulgando no Twitter, mas que a narradora já conhecia de longa data.

Tavam com saudade de uma historieta picante em bom pajubá? Pois cá está ela. O ideal é ler como sequência da primeira, até pra ir se familiarizando com o vocabulário da protagonista (um dia ela conta o nome dela), mas se quiser começar por aqui é tranquilo também.

A história de hoje fala do tal golden shower, prática fetichista que um certo presidente da República andou divulgando em seu perfil oficial do Twitter, mas que trabalhadoras sexuais, todas, todinhas, já conheciam de longa data. É uma história de terror, ou uma comédia, não sei, talvez tudo isso junto e outras coisas ainda, porque a vida é caótica, ainda mais na boca dessa travesti. Preparades? Lá vai então, em texto e áudio:

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DESEQUILIBRADAS

Coisa engraçada, lembrei agora dum doido que adorava um champanhe, espumante, não o comum, de supermercado, esse não, mas o que sai quentinho direto aqui da minha neca, sabe? Tem quem chame de guaraná, chuva dourada, gôldem sháuer, o povo que curte um bizarro ama e tem crescido a procura, tá? Até presidente, ou era o filho, não sei, parece que já mostrou interesse. Ó lá o nosso Brasilzilzilzil, destaque entre os mais viciosos países desse mundão de Deus. Morria de nojo, al'inízio, e quem disse que eu conseguia fazer? Era eu ficar ali horas com a pistola apontada e nada, mas bastava o cabrito ir embora e eu tinha que desembestar pro banheiro. Travava, e não importa o quanto de água eu tomasse. Até o dia que acostumei, aí, nossa, aí eu que me divertia fazendo o mais rápido, pra ver se eles conseguiam mesmo engolir. Bexiga cheiona e eu lá, bela e formosa,  mandano vê. Dar conta nem todos davam, mas, xi!, ô se tinha os que conseguiam, dependia é muito do nível que já tinham descido na escala humana. Os lixos, esses são lixo mesmo, eles que pedem pra chamar assim, sabe o que eles às vezes diziam? "Diziam", quê!, dizem, e não é um só não, vários. Qüenda só, mona: "rainha, a honra maior da minha vida seria eu poder beber, diariamente, todo o seu néctar divino, jamais desperdiçar uma gota" (sim, tinha naquela lista ainda o néctar e deve ter alguma outra expressão que eu tô, certeza, esquecendo, isso fora as novas, que tá pra nascer um povo com imaginação tão sem limites). E é sempre assim, essa babosice empolada metida à besta. Cai quem quer, porque ali dentro do quarto é rainha pra lá, soberana pra cá, minha dona, deusa, vossa majestade, um faz-de-conta que non finishe mai, mas bota o pezinho pra fora e na hora a vida já, plá!, dá aquele belo sopapo pra tu largá mão de alicice. Só que cê entendeu o que eles querem? A coragem, senhor! Querem viver tipo uma privada, falam de ser a minha privada humana, sério, e eu só esfregando o dedão no indicador pra perguntar "quanto?". Porque, né?, que que ganho eu em ter um traste ali pelos cantos, 24h por dia empacando a minha vida. É dinheiro o niente. Fantasia é coisa de rico, cherri. Sou casa de caridade agora? Ou por acaso eu tenho cara de ôngue? O engraçado, o trágico, na verdade, é eu só esfregar o dedinho e, adivinha: "rainha, sabe como é, a crise". Isso quando, em pagamento, eles ainda não vêm com história de virar escravo sexual. Piada pior que essa, se tché, non la conosco. Escravo sexual, no mariconês, a língua das conas (acha que é só travesti que tem língua pra chamar de sua?), escravo sexual o que significa é eu ter que passar o dia comendo aqueles cus frouxos caquéticos, deixando ainda elas me chuparem com aquela boca tenebrosa delas, e tudo isso como se elas tivessem me fazendo um favor, não eu vivendo um calvário digno do próprio Cristo. Aqui, ó! Bom, mas falei, falei, falei e não contei daquele um lixo específico que adorava beber meu champanhe. Credita que ele encucou que saía hormônio no xixi, aí bebia e ficava lá depois, ai, ai, cagando de medo de crescer peitinho, afinar voz. E eu rindo litros, né?, por que quem disse que ele ia deixar de beber? Medo, medo até tinha, mas hoje o que eu me pergunto é se, por trás dessa paúra toda, não tinha uma vontadinha nascosta, um desejo de virar trans. Agora só faltava a gente se entupir de perlutan e continuar uma tábua e ele, apenas na chuva dourada, já começar a ver os limõezinhos brotando! A chacota, meu pai. Hormônio tem é no leitinho quente que as conas amam de paixão e, se fosse possível se hormonizar cosi, o que a gente mais veria é as bezerrinhas todas de farol aceso, elas desesperadas tendo que esconder o peitinho. Não tem, como chama, é sapatão?, homem trans?, isso, com aquelas faixas embaixo da blusa que cê fica igual sardinha antes de abrir a lata? Báinder, é? Ia virar moda pros pais de família também, e ainda eles indo com aquela carona de ué no endócrino, tentar descobrir a causa do desequilíbrio hormonal. "Será que o frango do supermercado, doutor? Ah não, não vou nunca mais comer frango. Ou, se for, só o caipira." Eles fazendo a pêssega, sem contar, poder contar que o que deixou eles assim é gala, litros e litros de gala. Taí uma história que daria um livro.

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PS: E, pra quem ainda não está sabendo, tem um trecho lindo do meu monólogo em pajubá no meu novo livrinho absurdo, "Neca + 20 Poemetos Travessos", em pré-venda por R$10,00 no site da editora O Sexo da Palavra. E esse valor é só até o final da pré-venda, dia 04/07.

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