Sam Wilson é o primeiro Capitão América preto do MCU

Por que demorou tanto para um preto assumir o posto de símbolo da América?

[CONTÉM SPOILERS DE FALCÃO E O SOLDADO INVERNAL]

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Como muitos fãs já imaginavam, Sam Wilson, o Falcão, assumiu o posto de Capitão América na série Falcão e o Soldado Invernal. Sendo assim,  ele é o primeiro preto a vestir o uniforme no MCU (Universo Cinematográfico Marvel), já que nos quadrinhos isso já aconteceu. Mas ao longo da série,  o roteirista e produtor Malcolm Spellman levantou diversas questões raciais, que mostram como e porque os EUA nunca tinham escolhido um preto como o maior "símbolo da América". 

Por isso aqui vão momentos importantes do seriado sobre questões raciais e sobre a jornada que leva Sam a se tornar o primeiro Capitão América preto.


John Walker como o Novo Capitão América

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Após Steve Rogers se aposentar, no filme Vingadores Ultimato, Sam fica com a guarda do icônico escudo  do Capitão América. A série se passa 6 meses após o filme e nela,  Sam decide que o melhor desfecho é o escudo ficar sob posse do governo americano.

No entanto, o governo acredita que o povo precisa de um novo herói, alguém para reviver a esperança dos cidadãos americanos de dias melhores. Por isso, nomeiam John Walker como o novo Capitão América. 

No discurso de posse o senador diz: "Enquanto amamos heróis que colocam suas vidas em risco para defender a Terra, também precisamos de um herói para defender o país. Precisamos de uma pessoa real que personifique os valores da América. [...] alguém que possa ser um símbolo para todos nós.”

Certamente que após todo esse discurso de representação americana o escolhido foi um branco, loiro de olhos claros, né?

Destaque também para o tratamento dos dois personagens em relação ao escudo. Sam é convencido e incentivado a deixá-lo com o governo, em memória aos feitos de Steve. Aqui o legado do Falcão não é levado em consideração.  Já John, recebe toda pompa e apresentação de herói da nação, sem nem sequer ter uma missão.


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Lemar Hoskins o Estrela Negra: o nome teve que ser trocado. 

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No segundo episódio da série, intitulado de  "Herói Americano",   conhecemos o Lemar Hoskins, melhor amigo e braço direito de John Walker (Vale lembrar que lá na década de 80, nos quadrinhos, John foi o Capitão América sombrio e logo depois ele se tornou o Agente Americano - sacou o trocadilho com o nome do ep?). O personagem chega a se apresentar como Estrela Negra em um diálogo com Sam e Bucky. Mas seu nome já foi um caso de grande mal estar para a Marvel. 

Nas HQs, antes de ter o seu nome de batalha e já firmado como parceiro de John Walker, ele foi chamado de "New Buck". Porém o termo "buckies" é considerado racista e pejorativo nos EUA. A escolha gerou várias críticas para a Marvel, que fez a troca do nome e deu nos quadrinhos mais personalidade para o herói. 


Isaiah Bradley: super soldado, preto e feito de cobaia pelo governo.

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Isaiah talvez seja o ponto alto e principal da discussão racial na série e nos quadrinhos. Ele conta no seriado que foi um dos primeiros humanos a receber o soro de Super Soldado, porém foi preso e virou cobaia nas mãos dos cientistas do governo. 

No quinto episódio da série, intitulado "Truth", Isaiah releva para Sam toda a sua história e como foi enganado ao receber o Super Soro, com o pretexto de imunização contra tétano. O nome do ep é uma referência a série de quadrinhos lançada pela Marvel em 2003, que conta a origem dos testes do soro, que após ser testado em 300 soldados afro-americanos, funcionou em Steve Rogers (que diferente dos soldados pretos, recebeu o soro conscientemente de sua ação). 

Isaiah foi o único sobrevivente desse massacre velado e fugiu forjando sua própria morte. 

Essa história tem inspiração em um fato real e tenebroso que aconteceu nos EUA contra a comunidade preta, que foi o estudo da sífilis não tratada de Tuskegee. Ele foi realizado entre 1932 e 1972, com cerca de 600 homens pretos no Alabama. os cientistas fizeram ensaios clínicos e médicos sem o consentimento dos pacientes. Ao final, apenas 74 homens sobreviveram ao experimento. 

Em um emocionante discurso, Isaiah fala para Sam que como o soro funcionou, ele foi cobaia por 30 anos e perdeu grande parte da sua vida e que a história dos negros continuará sendo apagada, assim como acontece há mais de 500 anos. ~ "Nunca vão deixar um homem negro ser o Capitão América", ele conclui. 


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Sam finalmente como Capitão América

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No episódio 6, último da série, finalmente vemos Sam com os traje de Capitão América (feito de Vibranium por Wakanda e com as asas tecnológicas do Falcão incluídas). 

Após muitas cenas de ação, redenção de John em relação ao escudo e atos heroicos e genuínos de Sam, o diálogo entre dois cidadãos americanos pretos chama a atenção. "É o Falcão Negro", diz um deles, que é rebatido pelo mais jovem, "Não, é o Capitão América". Muito foi dito sobre o passado da Marvel em criar, nos quadrinhos, personagens pretos com destaque de verdade e não em revistas secundárias. Atualmente o cenário está mudando com Pantera Negra, Iron Heart e com Sam de Capitão América. 


Sem super soro, sem cabelos loiros, nem olhos azuis!

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Em um emocionante discurso com senadores e autoridades internacionais, Sam começa confrontando os rótulos preconceituosos, que são usados contra o povo sem pátria. E chega a afirmar que as forças americanas também não são isentas de culpa nesse processo. "Nós finalmente temos uma luta em comum agora", diz Sam ao senador se referindo ao desamparo que as minorias sofrem diariamente.

Mesmo assim, ainda é questionado por não entender a dificuldade da situação para as autoridades ( os poucos, que tomam decisões por muitos). "Eu sou um homem preto usando listras e estrelas. O que eu não entendo?", conclui Sam. Ele ainda fala que muitos irão odiá-lo por ser um preto carregando as cores da América, mas que ainda assim resistirá "Sem super soro, sem cabelos loiros, nem olhos azuis"!


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Para fechar: diálogo final com Isaiah!

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Sam Wilson volta até a casa de Isaiah e, mesmo que ambos tenham visões diferentes da luta preta com a bandeira americana, eles continuam do mesmo lado da história.

Para Sam o escudo representa todo o legado deixado por Steve Rogers e as diversas atitudes sensatas que ele mesmo presenciou. Já para Isaiah existem apenas homens pretos e homens brancos, pois foi essa a sua experiência com o escudo. Acontece que dessa vez não é apenas sobre EUA e sim por conquistar o que é seu por direito. Sam finaliza: "Nós construímos esse país, sangramos por ele. Eu não vou deixar que me digam que não posso lutar por ele". 

Isaiah termina dizendo que Sam é inegavelmente especial, não chega a ser um Mandela, mas é especial. Citar Nelson Mandela nesse momento é importante,  pois ele dizia muito sobre não deixar a amargura ser maior que o perdão. Enquanto esse sentimento colocar os velhos guerreiros nas sombras, os novos não saberão lutar. Caras como Mandela colocam a amargura de lado, em prol da construção do novo. E é isso que esperamos do novo Capitão América.