Ruddy Pinho, ou a beleza e a loucura de ser livre

Uma figura que ajudou a reinventar os significados que a palavra "mulher" comporta.

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Ruddy Pinho posando alegre para uma foto.
Ruddy Pinho posando alegre para uma foto.

Anderson Barros / Via ego.globo.com

Ruddy Pinho em 2016 posando para uma sessão de fotos do site EGO.

Ela diz que são dez os livros que publicou, ainda que não se lembre de todos os títulos. Alguns meses atrás, já em plena pandemia, me confidenciou em primeira mão que um novo estaria a caminho: "Vou pra escola". Setenta e seis anos e lúcida, ativa, tocando a sua revolução pessoal no país campeão mundial de assassinatos de pessoas trans! Ah, eu falei que ela é uma mulher trans? Sim, Ruddy Pinho, mulher trans, e se hoje estou onde estou, inclusive escrevendo sobre ela para o dia de hoje, é porque ela e outras tantas pioneiras pavimentaram o caminho para que isso fosse possível.

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Mulheres trans sendo homenageadas no dia das mulheres, mulheres não-trans se inspirando em nós para construir o que são, o que podem ser. Quem diria! Quem imaginaria lá atrás? A própria possibilidade de, tendo nascido com pênis, poder se pensar mulher. Se dizer mulher foi algo que se gestou aos poucos, percurso que podemos acompanhar na própria obra de Ruddy, dado que cerca de metade dos seus livros ela publicou antes de oficializar sua transição de gênero (ainda que, olhando para boa parte deles, a gente já veja ali a Ruddy que anos depois lindamente desabrocharia).

Ruddy posando em seu salão.
Ruddy posando em seu salão.

Reprodução

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A cada dia vai se tornando mais natural que a pessoa, independente do genital com que nasça, possa se identificar (e ser também identificada, pois identificação é um processo de mão dupla) seja como mulher, seja como homem. Mas façam o exercício de imaginar as primeiras figuras que ousaram se pensar assim, se dizer assim. Lá atrazão, tendo nascido com pênis, como se acreditar mulher sem se achar irremediavelmente doida? Quão doida seria preciso ser para não só se acreditar mulher, como também dizê-lo em voz alta? E piorou se ela, com o corpo que tem, além de tudo ainda se achar bonita!

Beleza e loucura, aliás, constam no próprio título de sua última obra publicada ("Nem tão bela, nem tão louca", de 2007), onde se encontram intrigantes reflexões sobre essa nossa beleza que, apesar de nos dizerem arrebatadora, só pode ser reconhecida entre quatro paredes e sobre essa nossa loucura que, contra tudo e contra todos, nos leva a lutar para existir do jeito como nos entendemos. Que insanidade, não é?

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Foto antiga de Ruddy Pinho.
Foto antiga de Ruddy Pinho.

Reprodução / Via fernandomachado.blog.br

Mas essa não é nem a sua melhor obra e, sim, "Liberdade ainda que profana" (1998), onde ela fala sobre sua infância e adolescência transviadíssimas no interior e na capital de Minas Gerais (com ênfase para a indefinição de gênero que a acompanha desde o nascimento, com a parteira em dúvida se ela era menino ou menina). Depois, detalha a sua vinda para o Rio de Janeiro em 1965, onde sagrou-se cabeleireira de primeiras damas e celebridades (aquele penteado leoa que marcou a cantora Simone em 1982, lembram?) ao mesmo tempo em que enfrentava as perseguições LGBTIfóbicas da Ditadura Militar, até chegar ao momento, já em fins dos anos 1980, em que se assume mulher trans e realiza a cirurgia de redesignação sexual.

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No dia 04 do mês passado ela nos deixou, pouco depois dessa aquariana completar 76 anos. Ela alcançou essa idade! Uma mulher trans podendo envelhecer, podendo exercer variadas profissões, podendo publicar livros que brincam de recontar a história não só sua, mas do Brasil. Deixo aqui, então, a minha homenagem a essa figura que se fez mulher e que ajudou a reinventar os significados que a palavra "mulher" comporta.

Ruddy Pinho posando em seu salão.
Ruddy Pinho posando em seu salão.

Anderson Barros / Via ego.globo.com

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