A representação trans e travesti na mídia brasileira

O que mudou desde o surgimento da Roberta Close até a participação da Ariadna em "No Limite".

BuzzShe

Após perder a Prova da Imunidade no último episódio de "No Limite", Ariadna se tornou a terceira eliminada do reality e nos deu a oportunidade de refletir sobre a representação de mulheres trans e travestis na TV Brasileira.

Em um bate-papo com Ana Clara, a participante declarou que se sente incomodada por ser conhecida como a primeira mulher trans a ter participado do "BBB" e do "No Limite". 

A Apresentadora Ana Clara conversa com Ariadna, a eliminada da semana do 'No Limite' por vídeo conferência. Ana Clara está sentada de pernas cruzadas. Atrás dela há uma TV onde se lê 'No Limite'. Em sua frente, em uma outra TV, aparece a imagem de Ariadna.
A Apresentadora Ana Clara conversa com Ariadna, a eliminada da semana do 'No Limite' por vídeo conferência. Ana Clara está sentada de pernas cruzadas. Atrás dela há uma TV onde se lê 'No Limite'. Em sua frente, em uma outra TV, aparece a imagem de Ariadna.

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"Não gosto desse rótulo, mas ser a primeira mulher trans que participou do 'No Limite' inspira outras mulheres que sentem dificuldade de chegar em algum lugar. Não desistam. Isso é uma superação e uma vitória para mim e para tantas outras pessoas. Só tenho a agradecer", disse Ariadna

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O fato da Ariadna ter sido a única participante trans desses grandes realities nos faz refletir sobre o longo caminho que ainda precisamos percorrer para garantir a representatividade desta população. Por isso, decidi apresentar um breve resumo histórico sobre as retratações de pessoas transgênero na mídia.

Durante os primeiros 50 anos da televisão brasileira, vivenciamos um discurso muito engessado sobre sexualidade e gênero, o que acabou construindo uma imagem negativa sobre travestis e outras minorias sociais. Sempre vistas como caricatas, figuras violentas ou extremamente fetichizadas, as mulheres trans tiveram sua representação estereotipada ao longo de muitas décadas.

Duas fotos antigas. Na primeira, Roberta Close está de pé ao lado de Sílvio Santos. Na segunda, Uma pessoa com trajes de lantejoulas douradas segura dois adereços de plumas, e ao seu lado direito, Sílvio Santos entrevista Roberta Close
Duas fotos antigas. Na primeira, Roberta Close está de pé ao lado de Sílvio Santos. Na segunda, Uma pessoa com trajes de lantejoulas douradas segura dois adereços de plumas, e ao seu lado direito, Sílvio Santos entrevista Roberta Close

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Viviane Vergueiro, pesquisadora transfeminista e mestra em cultura e sociedade, afirmou em seus artigos como essas retratações trans foram bem pontuais na TV. Na maioria das vezes elas aconteceram em reportagens especiais, sem nenhum tipo de aprofundamento. A vida trans era resumida à prostituição ou a aparições em matérias policiais preconceituosas. Em programas de auditório, elas apareciam sempre de maneira erotizada ou satirizada.  

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Roberta Close é considerada uma das precursoras dessa história por revolucionar os conceitos de gênero na mídia desde a década de 1980. Conhecida como modelo, ela seguiu carreira como apresentadora, atriz e também cantora. Marcou presença nos principais programas da época, como o "Fantástico", "Domingão do Faustão" e "Domingo Legal" do Gugu, mas fez história por ser a primeira mulher trans a ser capa da revista Playboy no Brasil.

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A partir de 1990, as suas aparições na televisão sempre foram acompanhadas por um pensamento exotificado, fetichizador e patologizador A mídia abusou de termos como “mistério”, “detalhe” e "segredo" para se referir a Roberta. 

Mais tarde, inúmeros jornais televisivos passaram a apresentar travestis como protagonistas de matérias extremamente sensacionalistas, as quais rendiam grandes memes na internet durante os anos 2000 e reforçavam estereótipos sobre a população trans. Afinal, esses telejornais, além de informar a sociedade sempre foram importantes meios de estabelecer modos de pensar e agir no Brasil.

“Muito mais do que entreter e informar o telespectador, a TV produz valores e saberes; regula condutas e modos de ser; fabrica identidades e representações; constitui certas relações de poder”, afirma o pesquisador e mestre em comunicação Irineu Ramos. 

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Como exemplo dessas matérias, você certamente deve se lembrar da Vanessão dos vinte reais, da Débora que adorou ter sido estuprada, da travesti que falou em italiano enquanto era presa na delegacia e tantas outras cenas "engraçadas" de mulheres trans detidas pela polícia. 

Com o passar dos anos, o movimento LGBTQIA+ foi ganhando mais popularidade na mídia e sobretudo na internet. Diante disso, houve uma ampliação da visibilidade trans a partir de 2008, mas seguindo sempre as perspectivas desumanizadoras. Um exemplo disso eram os quadros do programa "Pânico na TV".

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Exibido semanalmente aos domingos e com grande audiência do público jovem, as estrelas do programa se juntavam às chamadas Panicats para ridicularizar os homens héteros que se relacionam com mulheres trans. Inclusive, nesta mesma época o escândalo do envolvimento de Ronaldo com travestis ganhou a mídia e anos mais tarde o "Pânico na TV" criou um quadro onde diversos homens tinham que diferenciar uma mulher trans de uma muher cis.

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Desde então muita coisa mudou, outras nem tanto. Porém, é importante ressaltar a importância da participação da Ariadna Arantes no "Big Brother Brasil" em 2011. Ela foi a primeira eliminada da edição, mas chamou muita atenção após sair da casa, se tornou até capa da revista Playboy e despertou “curiosidade” em muitos brasileiros.

Cena do programa Big Brother Brasil, quando Ariadna foi eliminada. ela está de vestido rosa, em pé, cabelos soltos e é entrevistada por Pedro Bial, que usa camisa e calças cinza
Cena do programa Big Brother Brasil, quando Ariadna foi eliminada. ela está de vestido rosa, em pé, cabelos soltos e é entrevistada por Pedro Bial, que usa camisa e calças cinza

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Além deste grande marco, a Rede Globo foi responsável também por apresentar os primeiros personagens trans das telenovelas brasileiras. Em 2015, a personagem Xana Summer, representada pelo ator Ailton Graça, ganhou espaço em "Império". Mais tarde, "A Força do Querer" nos apresentou o personagem Ivana/Ivan e a personagem Elis Miranda, interpretados respectivamente por Carol Duarte e Silvero Pereira. O problema é que todas essas representações e personagens são TRANS FAKE, afinal, nenhum profissional trans tinha sido escalado para atuar nas telenovelas da Rede Globo.

Apenas em 2018 percebemos mudanças mais efetivas com a participação da Nany People em "O Sétimo Guardião", além da atuação da atriz Gabriela Loran em "Malhação". Já em 2019 surge a personagem Britney na novela "A Dona do Pedaço", interpretada pela atriz Glamour Garcia. Tivemos também a personagem Michelly de "Bom Sucesso", representada pela atriz Gabriele Joie, e a estreia de Linn da Quebrada como Natasha na série "Segunda Chamada". 

Rede Globo

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As noções de representação e representatividade se tornaram mais complexas ao longo de décadas e muitos profissionais trans contribuíram para esse processo. Vivemos, hoje, um regime da visibilidade onde “ser visto” é também uma forma de pressionar a sociedade a garantir mais direitos à população LGBTQIA+. É um dever da TV brasileira pautar e dar espaços à comunidade trans, afinal também fazemos parte do meio de produção em torno da indústria do entretenimento. 

Ainda existem muitos paradigmas a serem quebrados pela mídia no Brasil, mas estamos caminhando progressivamente para mudança deste contexto. Entender parte dessa história que compartilhei é um bom começo. É sempre importante lembrar que esse é só um breve resumo, mas me diga aí: o que faltou nessa análise sobre a representação de mulheres trans e travestis na mídia?

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