Psiquiatras e psicólogos respondem às suas perguntas do isolamento social

Às vezes pode ser difícil mesmo.

Sabemos que o isolamento social em tempos de coronavírus pode ser difícil para muitas pessoas. Por isso, perguntamos à Comunidade BuzzFeed o que gostariam que psicólogos e psiquiatras respondessem em relação à saúde mental durante a quarentena, e os profissionais Juliana Mokayad (psiquiatra), Daniela Cardoso (psicóloga) e Alexandre Saadeh (psiquiatra) responderam à algumas delas.

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"Quais técnicas posso usar para tentar estabelecer uma rotina no meu isolamento, e isso seria importante para a minha saúde mental?" – Giovana

"Meditação e exercícios físicos, além do estabelecimento de uma rotina saudável. Isso está em todos os manuais de saúde mental para a quarentena. Não vai ser fácil, mas tira a sensação de que o tempo não passa. Com pequenas variações em cada dia da semana, vai evitar a sensação de que todos os dias são o mesmo dia... Evite comer demais e beber ou se drogar em excesso." – Alexandre Saadeh

"Como conviver com a família 24 horas sem surtar?" – Beatriz

"Podemos começar pensando que a convivência intensa não fala apenas sobre reconhecer comportamentos e dificuldades nos outros, mas nos fala muito mais sobre nossa capacidade de lidar com adversidades. É desafiador ter serenidade constante para saber entender e relevar o que nos desagrada. Nestas circunstâncias, poderíamos pensar em tentar exercitar nossa capacidade de sermos objetivos em reconhecer aquilo que nos desagrada e faz mal no comportamento do outro, e saber tentar pontuar. É importante contar com o fato de que, nem sempre, o outro vai concordar com aquilo que dizemos. Estabelecer um diálogo claro e objetivo é fundamental. Lembre-se que o outro não tem como saber aquilo que não nos agrada se não falarmos." – Juliana Mokayad

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"Estou me sentindo um lixo por estar extremamente improdutiva, meu TCC está parado, não consigo fazer quase nada das atividades pelo portal, e além disso, minha cabeça parece um balão. Ando muito deprimida em relação à isso, me sentindo inútil. O que posso fazer para mudar ou pelo menos não me culpar tanto?" – Gabriela

"É importante respeitar os próprios limites, entendendo que esse momento de isolamento físico trouxe uma série de mudanças, entre elas a execução de atividades por meios digitais, o que exige muito mais atenção, mas menos troca com as outras pessoas, que pode nos dar a sensação de solidão e abandono. É uma tensão emocional para o nosso psiquismo muito maior do que ele pode suportar. Então, não se cobre, se respeite, entenda quais são suas potencialidades de produção, mas também suas necessidades de pausa. Não se culpe por não conseguir fazer tudo. Se alegre por fazer o que é possível a você." – Daniela Cardoso

"Como diferenciar sintomas reais de somatização por medo de ter sido infectada?" – Melissa

"A somatização é um efeito psíquico, que se sustenta, em sua grande maioria das vezes, por uma fantasia relacionada a um determinado cenário. Achar que está infectado/a é algo que tem atingido muitas pessoas e é importante diferenciar um quadro orgânico de uma reação psíquica diante de uma situação de ameaça, como é a COVID-19. Geralmente, fantasias costumam se diluir com dados de realidade, como por exemplo, exames. O desafio que se coloca é o acesso a esse tipo de insumo que, como bem sabemos, ainda é restrito e não tem para todo mundo. No atual cenário é importante estar atenta/o aos sintomas, seguindo as orientações da OMS e recorrer ao auxílio médico quando diante de sintomas que requerem maior monitoramento, como febre alta e falta de ar. E se persistir o quadro mais agudo de somatização, procurar ajudar profissional qualificada." – Daniela Cardoso

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"O medo é um sentimento protetor. Nos padrões fisiológicos normais, o medo serve para que nos preparemos para situações desconhecidas. É um ótimo momento para o medo. No entanto, não falo sobre o medo que paralisa. Falo sobre esse medo protetor, que nos faz ficarmos alertas e devidamente vigilantes, para resguardar nossa saúde e dos demais. Costumo brincar nos atendimentos, que esse é um bom momento para “liberarmos nosso lado obsessivo”, e lançar mão de uma boa dose de rituais e protocolos de limpeza. É necessário. No entanto, é preciso notar que, se esse medo assume características limitantes, começa a afetar o funcionamento do indivíduo, afetar padrão de sono, apetite, ou faz surgir sintomas físicos, como taquicardia, falta de ar em momentos aparentemente sem estímulos para reações de ansiedade, é necessário procurar auxílio médico. Talvez estejamos nos deparando com um transtorno de ansiedade." – Juliana Mokayad

"Como lidar com crianças pequenas (10 anos) e trabalho exaustivo sem surtar e acabar gritando sem necessidade?" – Bárbara

"As crianças se espelham muito nos comportamentos das figuras parentais (pais, cuidadores, professores), elas estão em busca de referenciais. Então, antes de pensar que a criança esteja solicitante demais, vale a pena pensar que talvez precisemos ficar mais atentos ainda a nós mesmos, no sentido de conseguir priorizar as tarefas para atender às demandas dentro do possível. Por exemplo, talvez não seja produtivo tentar iniciar direto o trabalho, sem inicialmente falar com seu filho e ouvir o que ele está disposto a trazer naquele dia. Isso deve trazer mais calma para o ambiente, e consequentemente para todos que nele vivem." – Juliana Mokayad

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"Como lidar com idosos durante este período? Minha avó de 76 anos está entre a negação da pandemia e um medo gigantesco, a ponto de chorar sempre. Já levamos ao psiquiatra, mas nós (filhos e netos) não estamos sabendo lidar." – Jéssica

"É importante acolher com afeto as demandas dos familiares, entendendo que esse momento é tenso para todos/as nós. Essa oscilação entre negar a realidade e se exasperar, embora seja angustiante, é completamente compreensível e talvez seja o jeito que sua avó esteja encontrando para lidar com todas as adaptações necessárias e urgentes que tivemos que fazer para enfrentar a pandemia. Nós não tínhamos repertório emocional e nem comportamental para enfrentar essa realidade, então é natural que saíamos do eixo. Então, estejam ao lado dela, acolham essa angústia dentro das possibilidades de vocês, familiares, e tratem com afeto e calma esse momento, porque ele vai passar. Não se cobrem tanto. Se cuidem." – Daniela cardoso

"Como não me sentir culpada por estar super feliz por não precisar sair de casa?" – Tuii

"Por que alguém precisaria sentir culpa por ser diferente da maioria? Culpa é um conceito que vem da polarização de ter que existir 'um certo e um errado' inclusive para os aspectos mais subjetivos de cada um. Quando falamos de estrutura psíquica, não há um padrão sobre o que é certo e o que não é. Existe o funcionamento de cada um. É totalmente possível que tenham aqueles que sejam mais reservados, que se sintam bem em estar em casa, que não carecem de convivência social frequente, intensa. E tudo bem! Pode estar sendo um momento libertador para muitas pessoas, e nada de sentimento de culpa por isso! Porém, preciso reforçar, que é necessário perceber que essa satisfação traduza uma escolha pessoal que leve a uma sensação de felicidade." – Juliana Mokayad

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"As pessoas irão pensar coisas sobre você com ou sem a sua autorização. Nesse momento, todo cuidado vai parecer pouco, caso algo te aconteça. Se preservar é o melhor que você pode fazer por você e pelas pessoas que você ama. Não se preocupe com o julgamento alheio e nem em agradar ou atender às expectativas das outras pessoas. Se priorize. Ouça a voz do seu coração e siga a sua intuição." – Daniela Cardoso

"Como lidar com a raiva de fazer tudo certo e me ferrar por causa de gente egoísta, e não ter liberdade de escolher sair ou não?" – Barbara

"Quanto mais você se fixar nos outros, maior a sua angústia. Deixe de criticar as pessoas a sua volta e concentre-se em fazer o que acredita e confia. Cumpra sua rotina, seus cuidados pessoais e afetivos com quem ama. Preocupe-se em estar bem. Ficar querendo saber como tudo será depois que a pandemia acabar só faz as pessoas ficarem ansiosas. NINGUÉM SABE como será. Faça o seu certo e se preocupe menos com os 'errados' dos outros. Faça sua parte." – Alexandre Saadeh

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