É hora de refletir sobre o papel da crítica literária

Debates acalorados têm tomado jornais e redes sociais. Por uma crítica que não seja condescendente.

Nos últimos dias, intensas agitações em torno do papel e sentido da crítica literária têm ganhado as redes sociais e, visto que essa é uma das atividades a que mais dedico minhas energias, gostaria de voltar aqui novamente a essa discussão. Meus pitacos sobre as supostas críticas feministas recebidas pelo Chico Buarque vocês já conhecem, hoje será a vez de falar sobre a resenha a respeito do relançamento de "Homens pretos (não) choram" (Harper Collins), de Stefano Volp.

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Sou escritora, como Stefano, e sei o peso que palavras como essas podem assumir para nós, ainda mais quando veiculadas num dos maiores jornais do país. Não sei como eu reagiria caso recebesse uma leitura tão agressiva, mas é preciso dizer que, se estamos publicando livros, dando a cara a tapa, é preciso nos prepararmos para lidar com situações como essa. Numa hora dessas, portanto, o que eu poderia recomendar ao autor é respirar fundo, analisar com frieza a crítica e pensar na melhor maneira de respondê-la, de disputar a opinião pública.

Amara Moira
Amara Moira

Divulgação

A resposta pode se dar de maneira direta, com uma réplica publicada em algum blog ou jornal (quem sabe na própria Folha de São Paulo), ou indireta, limitando-se a posts nas redes sociais conclamando a indignação coletiva ante a agressividade da crítica. A primeira opção certamente é a minha preferida, ainda mais se o autor (ou alguém disposto a defender sua obra) apresentar, de fato, argumentos que escancarem falhas da resenha de Luiz Mauricio. A brutalidade pode ser um bom ponto de partida dessa resposta, mas seria importante conseguir ir além disso.

Ambos os caminhos podem ser úteis para a divulgação da obra, para fazê-la lida. Movimento que já começou, aliás, pois muitos comentários ao post de Stefano diziam que o destempero da resenha fez com que ficassem com ainda mais vontade de lê-lo. Se isso se concretizar, é de se pensar que o efeito da crítica foi mais positivo do que negativo, ainda que isso não suma com as dores da paulada.

De qualquer forma, se eu sou escritora, como Stefano, eu sou também crítica, como Luiz Mauricio, e achei bastante louvável o que este buscou fazer em sua resenha. Há tempos que o trabalho da crítica literária, sobretudo no contexto imediatista das redes sociais, vem se convertendo numa espécie de sub-ramificação do campo das relações públicas, impondo a nós a incumbência de estimular uma visão mais positiva do que crítica sobre as obras analisadas.

Nem é uma questão de estimular as vendas, pois sabemos que embates virulentos podem ter efeitos muito mais interessantes na vendagem. Trata-se pura e simplesmente de uma crítica voltada para o elogio retórico e a condescendência, uma crítica pautada pelo medo de melindrar autores(as) ou se indispor com o público/fã-clube, algo que nem de longe acontece na abordagem de Luiz Mauricio. E, como ele aponta, essa condescendência tem levado a uma conjuntura bastante delicada para quem escreva a partir da margem:

"A dinâmica da indústria cultural tem nos levado a dar demasiada atenção à presença de autores e de autoras negras no debate cultural na mesma medida em que vilipendia perspectivas analíticas que nos trariam uma exploração mais frutífera do teor estético de seus trabalhos. Foi desse modo que aprendemos a ler Carolina Maria de Jesus porque 'é uma autora necessária', e a fetichizar o romance "Homem Invisível", de Ralph Ellison, porque 'nossas aulas de moral e cívica falharam em nos contar sobre a terrível invisibilidade negra'."

Vejam bem: isso não quer dizer que Carolina não seja uma "autora necessária", nem que a obra de Ellison discuta mal a questão da "terrível invisibilidade negra". O que a resenha está nos dizendo é que tais obras (assim como outras tantas) estão se tornando reféns de colocações do tipo, reféns de frases feitas que levam, sim, essas obras a serem cada vez mais conhecidas, mas que, ao mesmo tempo, as imobilizam dentro de uma leitura reducionista. É como se "autora necessária" fosse aquilo que deve ser dito sobre Carolina, ainda que a pessoa que repita essa frase não tenha muita certeza sobre o porquê disso.

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Admiro, portanto, a coragem com que Luiz Mauricio abordou assunto tão espinhoso, pois eu não me sinto nem um pouco à vontade para dizer as coisas que penso a respeito de muitas das obras que chegam às minhas mãos. Muita coisa oportunista sendo publicada, muita coisa apressada, mal escrita, muita coisa que mereceria as duras palavras dessa crítica, e, mesmo assim, o medo de caras feias e portas fechadas faz com que eu guarde para mim o que gostaria de dizer, em nome da minha paz de espírito.

Tenho para mim, inclusive, que eu preferiria receber uma crítica violenta como essa do Luiz Mauricio a muita louvação superficial que se fez sobre meus escritos. Pode ser que eu chore, desabe na hora de ler, mas se tem algo que eu aprecio são desafios, textos que me tirem da minha zona de conforto, que me façam ir além. No entanto, quem diz o que quer precisa estar preparade para ouvir o que não quer e, se alguém vier com essa brutalidade para cima de mim, não espere que eu vá responder com flores.

E está tudo bem.

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