Por que uma pandemia não impediu as pessoas de protestar em Minneapolis

A pandemia de coronavírus está em andamento, mas a "raiva contínua" decorrente da morte de George Floyd, a mais recente em uma série de assassinatos policiais, levou as pessoas a protestar mesmo assim.

Courtesy Brayleigh Keliin

Joe Carter, 20 anos, e sua namorada Brayleigh Keliin, 19 anos, têm organizado protestos perto de Minneapolis nos dias após a morte de George Floyd.

Joe Carter tinha apenas 14 anos quando Michael Brown foi assassinado por um policial em Ferguson, Missouri, em 2014, e os protestos subsequentes deram origem ao movimento moderno Black Lives Matter (Vidas Negras Importam). Ele tinha 15 anos quando Jamar Clark foi assassinado por um policial em sua cidade natal, Minneapolis, e 16 quando Philando Castile foi assassinado por um policial no subúrbio de St. Paul, em Falcon Heights.

Todas as vezes, Carter, que é negro, sentiu um soco no estômago e, depois, ao assistir aos protestos nas redes sociais, um certo otimismo da "energia que dava para sentir" — uma tentativa de combater a violência policial.

Mas, segundo ele, independentemente do quanto as pessoas falaram sobre reforma, "nada foi feito". Ninguém nunca foi acusado pela morte de Clark; o policial no caso de Castile foi acusado, mas depois absolvido.

No país inteiro, a história parecia igual. Dezenas de departamentos treinaram seus policiais com técnicas de redução de conflitos e os equiparam com câmeras corporais para prestar contas publicamente. Em cidades do país inteiro, eleitores escolheram promotores que prometeram responsabilizar os policiais. Pelo menos catorze policiais envolvidos em assassinatos notórios — em Albuquerque, Novo México; North Charleston, Carolina do Sul; Cincinnati; Baltimore; St. Louis; Tulsa, Oklahoma; Milwaukee; e Falcon Heights, Minnesota — foram acusados criminalmente. E depois eles foram absolvidos, ou se safaram após um júri inconclusivo, ou os promotores retiraram as acusações e o caso foi encerrado sem que ninguém fosse preso, mesmo em ocasiões em que a brutalidade havia sido registrada em vídeo para o mundo inteiro ver.

"Quantas vezes isso tem que acontecer?", disse Carter. "Quantas vidas precisam ser transformadas em hashtags?"

E assim, nos dias após George Floyd ter sido assassinado pelo policial de Minneapolis Derek Chauvin, Carter, agora com 20 anos e ajudante em uma casa de repouso, e sua amiga Brayleigh Keliin, uma cuidadora de adultos com deficiência, de 19 anos, foram às ruas pela primeira vez em suas vidas — apesar do cenário perigoso de uma pandemia mortal.

Na terça-feira à tarde, um dia depois do assassinato de Floyd, Keliin dirigiu duas horas e meia de sua casa, em Superior, Wisconsin, até Minneapolis. No dia seguinte, Carter se juntou a ela em um protesto em Duluth. Na quinta-feira, os dois estavam organizando seus próprios protestos.

Eles usavam máscaras de pano para se protegerem da infecção pelo coronavírus e incentivavam as outras pessoas a fazer o mesmo. Eles tentavam manter pelo menos alguns metros de distância dos outros manifestantes. Eles sabiam que isso poderia não ser suficiente. Eles estavam dispostos a correr o risco mesmo assim.

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Adam Bettcher / Reuters

Manifestantes se reúnem para assistir a um prédio em chamas perto da terceira delegacia de polícia de Minneapolis em 27 de maio.

Eles valorizaram a forte reação à morte de Floyd. A chefe do Departamento de Polícia de Minneapolis, Medaria Arradondo, demitiu os quatro policiais envolvidos na prisão; o prefeito Jacob Frey pediu acusações criminais; e a maior união policial do país, a Ordem Fraterna Nacional de Polícia, divulgou um comunicado sobre a “morte trágica” que “chocou e horrorizou nossa nação” e “diminuiu a confiança e o respeito que nossas comunidades têm pelos homens e mulheres da polícia.”

Na sexta-feira, o promotor do Condado de Hennepin, Mike Freeman, acusou Chauvin por homicídio de terceiro grau.

Mas nada disso parecia suficiente. Não para Carter, nem para milhares de outras pessoas em Minneapolis e dezenas de milhares em todo o país.

"As pessoas estão cansadas de falsas promessas", disse Alexander Bourne, consultor de negócios de 30 anos de St. Paul, que caminhou da Lake Street até a terceira delegacia de polícia de Minneapolis na quinta-feira. "O que você está vendo agora é raiva contínua."

Bourne disse que participou dos protestos contra a violência policial após a morte de Castile, há quatro anos. Ele observou que, desta vez, vieram mais pessoas — apesar da pandemia. "Acho que as emoções estão mais fortes", disse ele.

Entoando cânticos através de sua máscara médica branca, Bourne permaneceu nos degraus da delegacia com os dois braços levantados e um telefone em uma das mãos gravando a cena. Ele se lembra de ter sido atingido, naquele momento, pela sensação de que ele e o resto da multidão de milhares de pessoas estavam "pacificamente pedindo revolução". Segundo ele, parecia que, após semanas trancados em casa, absorvendo uma notícia horrível atrás da outra, eles finalmente estavam fazendo alguma coisa.

Cerca de uma hora depois de chegar à delegacia, no entanto, ele ouviu a primeira janela se estilhaçar bem atrás dele.

"Aquele foi o momento de inflexão para a polícia", lembrou ele.

A linha de policiais armados se fechou com escudos. Bourne recuou. Sua máscara não ajudou muito a proteger contra as nuvens brancas de gás lacrimogêneo lançado pela polícia. De volta ao seu apartamento em St. Paul, do outro lado do rio, ele ficou surpreso ao ver imagens da delegacia de onde havia acabado de sair, agora envolvida em chamas.

Bourne disse que não se incomodou com os danos causados à delegacia: "Os contribuintes pagaram pelo prédio", disse ele, "e os contribuintes pagarão para repará-lo". Ele estava mais preocupado com os proprietários de pequenas empresas que "já estavam sofrendo e agora estão literalmente vendo seus negócios chegarem ao fim".

Mas, segundo ele, as frustrações as quais as pessoas estavam dando voz vinham se acumulavam há anos e agora estavam claramente eclodindo.

"As pessoas estão sofrendo", disse Bourne. "Pessoalmente, sinto que quem está indignado no momento merece estar indignado, e quem não está precisa se perguntar por quê."

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Courtesy Alexander Bourne

Alexander Bourne

Notavelmente, após a morte de Floyd, muitas pessoas poderosas se esforçaram para expressar indignação — e, ao contrário da repercussão da maioria dos assassinatos cometidos por policiais, poucos apareceram para defender o que o policial Derek Chauvin, de Minneapolis, fez.

Vozes muito distantes da área policial se manifestaram — presidentes de universidades, proprietários de equipes esportivas, Michael Jordan, empresas de calçados, como Nike e Adidas, e o Balé da Cidade de Nova York, que postou em seu Instagram no sábado: “O Balé da Cidade de Nova York Está Com Você”, acompanhado de um trocadilho de balé que pode ter passado despercebido por algumas pessoas: “#BalletRelevesForBlackLives.”

Até o presidente Donald Trump, que quase sempre apoiou as forças de segurança, chamou o incidente de "muito triste e trágico" em sua declaração inicial, embora não tenha mencionado Floyd pelo nome e depois tenha chamado os manifestantes de "bandidos" e tuitado: "Quando os saques começam, os tiros começam".

Entre as declarações mais fortes contra as ações de Chauvin, vieram os chefes de polícia. "Condenável", disse David Brown, de Chicago. "Imperdoável", disse Paul Pazen, de Denver. "Profundamente perturbador", disse Dermot Shea, de Nova York.

"Em todo o país, as comunidades de pessoas negras estão cansadas de reviver atrocidades como essa repetidamente", disse a comissária de polícia da Filadélfia, Danielle M. Outlaw.

Jim Glennon, um ex-policial que lidera um programa de treinamento que realiza seminários para 20.000 agentes da lei por ano, disse ter ficado surpreso com a quantidade de policiais que o procuraram para expressar horror e indignação depois que o vídeo do Floyd foi divulgado.

Ele disse que acredita que isso tem menos a ver com mudanças de atitude do que com a dureza do vídeo. "A maioria dos casos de força é muito mais complicada do que as pessoas acham", disse ele. Esse não. “O cara está algemado por nove minutos…. O que ele pode dizer que justifique aquilo?"

Para muita gente em Minneapolis, foi a gota d'água. Após os protestos de Ferguson em 2014, Minneapolis foi uma das primeiras cidades a participar da Iniciativa Nacional para a Construção da Comunidade e da Justiça, um programa federal que incentiva os departamentos de polícia a priorizar as relações com a comunidade em detrimento de prisões de baixo nível.

Mas, nos anos que se seguiram, policiais acusados de força excessiva raramente foram punidos, e parecia haver um tiroteio policial questionável atrás do outro. Oito pessoas foram mortas pela polícia em Minneapolis nos seis anos após Ferguson, mais do que nos seis anos anteriores — todas, exceto uma, eram negras, latinas ou asiáticas.

Em 2017, a cidade nomeou sua primeira chefe de polícia negra, Medaria Arradondo, na época, uma veterana de 28 anos que, juntamente com outros quatro oficiais negros de alto escalão, processou o departamento por discriminação racial sistêmica e ambiente de trabalho hostil — um caso que terminou com um acordo de US$ 740.000.

Um ano após a posse de Arradondo como chefe, Timothy Blevins, um morador de 28 anos, fugiu de policiais que respondiam a uma ligação sobre alguém disparando tiros. Um policial branco, Justin Schmidt, atirou e matou Blevins, que era negro. Imagens de câmeras corporais mostraram que Blevins parecia estar segurando uma arma, embora não a tenha apontado para os policiais que o perseguiam. Enquanto corria, ele implorou: "Por favor, não atire em mim. Me deixe em paz." Os manifestantes encheram as ruas novamente. Após uma investigação de um mês, Schmidt e seu parceiro, Ryan Kelly, foram inocentados e mantiveram seus empregos.

"São anos e anos da mesma coisa acontecendo", disse David Bicking, vice-presidente do Comunidades Unidas Contra a Brutalidade Policial, um grupo de defesa de Minneapolis. "Ouvimos belos discursos, mas o sistema em vigor foi projetado para não disciplinar os policiais."

Das 2.600 reclamações registradas desde a criação do conselho de revisão civil de Minneapolis em 2012, apenas 12 levaram à ações disciplinares, segundo dados compilados pelo Comunidades Unidas Contra a Brutalidade Policial. Em seus 19 anos de carreira, Derek Chauvin teve 17 reclamações contra ele. Apenas uma resultou em qualquer ação disciplinar. Em um caso que terminou sem reprimenda, um grupo de adolescentes o acusou de apontar uma arma para eles enquanto brincavam com armas Nerf.

Bicking, que tem 69 anos e é branco, juntou-se ao que, segundo ele, pareciam ser milhares de pessoas nos arredores do Tribunal do Condado de Hennepin na quinta-feira. Ele se lembrou de uma cena calma, cheia de cânticos, placas coloridas e acenos respeitosos. Um dia antes, sua namorada, que tem 73 anos e é branca, estava entre as pessoas no arredores da Target, onde algumas pessoas quebraram janelas e roubaram itens. Mas mesmo em meio ao vidro quebrado, a energia da multidão era positiva, ela lembrou a ele. "Não havia animosidade de ninguém", disse ele. "Não eram conflitos raciais. Eram pessoas que não acham que haverá uma mudança real a não ser que haja pressão para isso."

No fim de semana, Carter e Keliin estavam organizando seus próprios protestos perto de casa, logo acima da ponte de Superior, em Duluth, Minnesota. No sábado, eles lideraram uma marcha do Memorial Clayton Jackson McGhee até a prefeitura, que recebeu o nome de três homens negros linchados na cidade há exatamente 100 anos.

A dupla segurava uma placa com os nomes de negros assassinados pela polícia em todo o país. Os policiais de Duluth, usando uniformes regulares, não equipamentos de motim, apenas observavam. À essa altura, alguns já até conheciam os manifestantes. Keliin disse que falou com um sargento várias vezes em diferentes manifestações. Em determinado momento, ele inclusive leu em voz alta a lista de nomes de pessoas assassinadas pela polícia em sua placa, ganhando aplausos da multidão.

No sábado à noite, quando o protesto na prefeitura terminou e os manifestantes começaram a se dispersar, o clima parecia relativamente leve. Carter e Keliin foram para casa. Mas, na manhã de domingo, eles disseram que ficaram sabendo que a polícia de Duluth havia jogado bombas de gás lacrimogêneo nas pessoas que quebraram o toque de recolher, e que haviam prendido três de seus colegas manifestantes, incluindo um garoto de 14 anos.

Poucas horas depois, em Minneapolis, na manhã de domingo, após a Guarda Nacional ter sido chamada naquela cidade e em Los Angeles e Chicago, Bourne, o consultor de negócios, deixou de lado os protestos e se juntou a um grupo de voluntários que fornecia suprimentos doados a moradores de St. Paul atingidos pela crise econômica causada pela pandemia.

Pilhas de papel higiênico, caixas de fraldas, mesas com pilhas de sabão e sacolas de papel cheias de macarrão, cereais e produtos agrícolas cobriam um campo perto da Highway 94. Centenas de pessoas com máscaras de pano ou bandanas sobre o rosto formavam uma fila que serpenteava por mais de 100 metros ao longo da calçada.

O céu estava limpo, a temperatura ideal em 21 ºC e as crianças passeavam em carrinhos de bebê ou brincavam perto de seus pais. Mas, do outro lado da rua, uma loja de conveniência de alvenaria estava carbonizada, sua fachada tinha pichações exigindo justiça em tinta spray branca. Do outro lado da rodovia havia uma loja da Target fechada após ter sido saqueada e vandalizada. Outras lojas haviam sido fechadas com tábuas para proteção. De repente, ficou mais difícil encontrar mantimentos na área —mas as pessoas ainda precisavam comer.

"Todas essas coisas estão acontecendo", disse Bourne. "Estou esgotado. Exausto. Traumatizado." ●

Este post foi traduzido do inglês.

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