Por que a Vanusa é uma voz controversa em 'Manhãs de Setembro'?

"Ali, ela é uma escrota. E faz todo sentido."

Poster de Manhãs de Setembro, com o rosto de Liniker refletido em um disco de vinil quebrado.
Poster de Manhãs de Setembro, com o rosto de Liniker refletido em um disco de vinil quebrado.

Divulgação

Quem dá play em 'Manhãs de Setembro', nova série da Amazon Prime, esperando uma carta de amor cega à Vanusa (cantora da música que batiza a produção) pode tomar um susto.

A série conta a história de Cassandra (interpretada por Liniker), uma mulher trans que ganha a vida como entregadora para aplicativos, mas é apaixonada mesmo por cantar as músicas de Vanusa em inferninhos de São Paulo. A história dela muda quando descobre que uma noitada bêbada na década anterior lhe rendeu um filho. 

Na trama, além da trilha, Vanusa é um personagem recorrente - mas que nunca aparece. A cantora, falecida em 2020, é retratada como uma voz dentro da cabeça da protagonista. Mas é uma Vanusa de rouquidão inédita, falando coisas que fariam qualquer artista cancelado corar. Ali, ela é uma escrota. Sem tirar nem pôr. E faz todo sentido.

Anja sem auréola.

Vanusa
Vanusa

Wikimedia Commons

'Manhãs' joga no lixo o conceito de que quando alguém morre, deve ser santificado. A ideia de que não podemos tocar a imagem imaculada dos que já se foram é destroçada cada vez que a tal voz de Vanusa entra em cena. Ainda bem, porque não foi sendo santa que Vanusa conquistou o Brasil. Mas, mais do que isso, esse choque foi uma arma para desconstruirmos a última imagem em vida que a cantora deixou. 

A gente teve o prazer de derrubar esse retrato da Vanusa ser a pessoa que errou o hino nacional. "É uma honra pra gente ir além disso", conta Luis Pinheiro, diretor da série. "'Manhãs' é uma homenagem à carreira dela, aproveitando a amplitude de músicas que ela cantou", completa. 


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A original.

Vanusa jovem
Vanusa jovem

Reprodução

Essa homenagem, aliás, apareceu bem antes do primeiro "Ação!". A cantora da jovem guarda sempre foi central para a história. Mesmo antes de se ter, de fato, a trama a ser contada. "O rascunho original não tinha vários dos elementos que acabaram entrando na sala de roteiro. Era, basicamente, sobre uma mulher entregadora - que namorava um garçom e descobria um filho. Ainda assim, já se chamava 'Manhãs de Setembro'", conta Pinheiro. 

Mas, claro, a inspiração não se limitava ao nome da série. "A Vanusa, como Cassandra, era uma mulher muito batalhadora. Cheguei a ler que ela até deixou um filho com a mãe, para cuidar da carreira. Então já nessa parte biográfica tem uma inspiração muito importante pra gente", conta Josefina Trottam, roteirista-chefe da produção. Mas é a parte ficcional que explica a escrotidão da cantora.

Fora de quadro.

Cassandra, personagem de Liniker, fumando na varanda de sua kitnet no centro de São Paulo
Cassandra, personagem de Liniker, fumando na varanda de sua kitnet no centro de São Paulo

Divulgação

A razão de Vanusa ser como como é, é paralela à razão de Cassandra ter a personalidade que tem. As respostas nunca são entregues explicitamente ao público; são deixadas como migalhas, em falas, takes ou silêncios. O espectador tem que lutar um pouquinho pra ver o cenário completo. O que, intencionalmente ou não, reflete um pouco o esforço que a protagonista precisa pra conseguir qualquer tipo de resposta na sua vida. 

"Cassandra recebe como única herança de sua mãe, que a abandonou, os discos da Vanusa. E a cantora passa a tomar um lugar materno", desvenda Josefina. "Isso acontece quando Cassandra era uma criança, então, ela começa a ter conversas imaginárias com a Vanusa dos discos. Essa voz passa a ser uma conselheira… até os dias de hoje", completa. 

É nesse cenário que temos a Vanusa.

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A ficção.

Cassandra, de noite, olhando para o nada
Cassandra, de noite, olhando para o nada

Divulgação

Com esse contexto, coube decidir o que - e como - a Vanusa da série iria falar. 

"Por todo esse cenário, essa voz mais casca grossa, por vezes escrota, que está flutuando dentro da cabeça da Cassandra, está alí pra expressar lados da própria Cassandra, não da Vanusa", explica Alice Marcone, roteirista da série. 

"A Cassandra é essa moça que aprendeu a se proteger dentro dessa selva que é São Paulo. Sendo uma mulher trans, sendo uma mulher preta", conta. "Por isso essa agressividade, essa dureza, mas também essa poesia, esse lirismo. A voz é o encontro da ídola com a personagem", completa. 

Em uma série sobre a vida, as vozes da nossa cabeça ganham o protagonismo. "Acho engraçado porque a Vanusa vai tendo viradas. Ela cresce. Em determinado momento, na verdade, ela vira a principal antagonista da série", afirma Pinheiro. 

Mais do que isso, Vanusa passa a ser um jeito do público entender não só o que a personagem da Liniker tem dentro de si, como também escancara o que ela não tem. "Eu via essa voz como uma proteção do amor próprio da Cassandra com ela mesma.", conta Malu Miranda, Head de Conteúdo Original para o Brasil do Amazon Studios. 

"É tem muito aquela coisa que chamam nos EUA de tough love. Que é um amor difícil, mas que vem de um lugar de respeito. Então quando ela tá sendo agressiva, é para proteger. Eu acho isso muito bonito. Muito poderoso". 

Literalmente, uma voz.

Elisa Lucinda
Elisa Lucinda

Wikimedia Commons

Tudo isso se reflete na prática quando temos, como voz, um timbre que foge completamente do que estamos acostumados a ouvir Vanusa cantar. A ideia era afastar mesmo a cantora original dessa criação psicológica da protagonista. 

Quem fez as gravações foi Elisa Lucinda. Gigante do audiovisual brasileiro que, assim como Cassandra, é uma mulher negra. 

"A gente sempre pensou que a voz da Vanusa, dentro da cabeça da Cassandra, não precisava ser aquela voz de passarinho. Poderia ser uma voz mais solta. A gente queria que desse pra perceber que quem falava já tinha vivido muita coisa.", conta Pinheiro.

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No escuro.

Cassandra cantando
Cassandra cantando

Divulgação

No fim, é uma liberdade criativa por parte da produção que pode atrair críticas ou elogios. 

"Nunca soubemos se era uma ideia que ia funcionar. Foi uma dúvida que persistiu desde o roteiro até a montagem. A gente só foi indo", conta Miranda. 

O tipo de ousadia que só daria pra fazer ao homenagear uma cantora como foi Vanusa.

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