Cracolândia: Aqui estão os planos dos pré-candidatos ao governo de São Paulo para resolver o problema

Concentração a céu aberto de usuários de drogas persiste há mais de 20 anos na capital paulista.

A cracolândia mudou de endereço e reacendeu o debate sobre o problema dos usuários de crack a céu aberto no centro de São Paulo. Buscar uma alternativa para esse situação que se estende há mais de 20 anos na capital paulista será um dos mais urgentes desafios do próximo governador do Estado. Por isso, a questão deve pautar o debate sobre saúde e segurança pública durante a campanha eleitoral deste ano. Pensando nisso, o BuzzFeed Brasil procurou os 10 pré-candidatos ao Palácio dos Bandeirantes para saber quais propostas eles apresentam para resolver o problema da cracolândia.

Rovena Rosa/ Agência Brasil

As respostas você lê abaixo:

Abraham Weintraub (PMB): não respondeu ao nosso contato.

Marcos Corrêa/PR

No entanto, perguntado sobre o assunto em sabatina no UOL, o ex-ministro da Educação afirmou que a questão da cracolândia precisa de uma abordagem "fraterna."

"Acho difícil acabar com todo consumo de crack em dois anos, mas acho viável se tomarmos ações que deram certo em outros países: ser fraterno, tentar resgatar a pessoa, acionar família do dependente ou achar alguém responsável por ele e, por último, coibir o tráfico. A gente não vai acabar com 100% do tráfico de drogas, a gente pode tornar mais difícil e punir de forma clara o crack para que ele seja cortado. Vão vender crack em outro Estado, em São Paulo, não. Com isso, 'cracudo' vai embora. Você tem de partir do pressuposto básico da teoria econômica ou da teoria de segurança pública de que o bandido, o mafioso, uma organização que fatura bilhões por ano toma decisões racionais. Quando você coíbe de forma mais incisiva um crime e vai atrapalhar os outros negócios desse crime, eles param."

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Altino Junior (PSTU):

Divulgação/PSTU

Na avaliação do candidato, ratar a chamada cracolândia como um problema de polícia só piora a situação.

"É o capitalismo que leva alguns a se refugiarem da realidade na dependência das drogas. 

Resolver esse problema exige frentes públicas de trabalho e uma reforma urbana, para garantir trabalho, moradia e dignidade a todos, garantindo que a quantidade de dependentes do crack pare de aumentar. Legalizar as drogas a nacionalmente seria importante, para garantir orientação, ao invés de marginalizar e criminalizar os usuários. 

As pessoas já em situação de dependência, precisam de apoio da saúde e da assistência social do Estado, que podem unir esforços aos movimentos sociais que trabalham com a população de rua para oferecer uma saída digna para esta população. Nossa proposta de conselhos populares ajudaria muito a organizar esses esforços."

Elvis Cézar (PDT):

Reprodução/Youtube

O ex-prefeito de Santana do Parnaíba define o problema como "complexo" e que há décadas não tem respostas eficazes por parte do Estado. "É uma questão urgente de segurança pública, mas também de saúde, de resgate de cidadania de pessoas, de qualificação delas para o mercado de trabalho e de atrativos a empresas que as contratarem." Ele define sua estratégia de ação, se eleito, em quatro pilares.

"Assistência Social – É preciso fortalecer as ações de atendimento imediato às pessoas em situação de rua garantindo a elas alimentação e abrigo – especialmente pela ampliação no atendimento em albergues, conveniados ou não, e em uma parceria efetiva com a Prefeitura. É inadmissível não só a cidade mais rica do país ter uma cracolândia há praticamente 30 anos, mas ter mais de 32 mil pessoas vivendo nas ruas.

Saúde – Propomos a criação de um Plano de Saúde para o morador e a pessoa em situação de rua, com ambulatórios móveis que farão o cadastramento, vacinação e acompanhamento desses cidadãos. Partindo daí, queremos fazer um chamamento público com clínicas de tratamento para dependentes químicos, no Estado de São Paulo, a fim de que vagas ociosas nessas unidades possam ser ofertadas ao Estado a preços menores. Com o avanço do tratamento, será feita a reinserção do paciente na sociedade por meio de um processo de qualificação profissional em áreas carentes de mão de obra, como tecnologia, atendimento, construção civil, vendas e manutenção.

Desenvolvimento econômico – Nosso governo vai criar um bônus para as empresas que contratarem pessoas em vulnerabilidade decorrente da situação de rua. Esse bônus será usado para o custeio dos encargos trabalhistas. Um exemplo: as empresas de logística e de transporte, que têm um alto custo a pagar em pedágios no Estado de São Paulo. Com isso, quem contratar esse público assistido terá descontos nos pedágios. Outro bônus que criaremos auxiliará as famílias dessas pessoas a fim de que possam recebê-las novamente em suas casas.

Policiamento – Aqui, propomos o uso de policiamento específico para a região da cracolândia, com o uso de inteligência, a fim de combater o crime organizado. Paralelamente, nosso plano de contratação e reposição de policiais para as forças de segurança estaduais – com chamamento de concurso público, de acordo com a necessidade – também auxiliará no policiamento ostensivo em áreas próximas à cracolândia e na investigação do tráfico."

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Felício Ramuth (PSD): não respondeu ao nosso contato.

Claudio Vieira/PMSJC

No entanto, perguntado sobre o assunto em sabatina no UOL, o ex-prefeito de São José dos Campos defendeu a ação integrada de instituições na cracolândia.

"Inovar é um dos nossos eixos de gestão, compartilhar recursos é o nosso segundo eixo de gestão para o Estado de São Paulo. Existe uma grande infraestrutura física do Estado e dos municípios que podem ser mais bem aproveitadas, mas existe também infraestrutura de conhecimento, capacidade intelectual e de trabalho, que é feita no Estado e pouco aproveitada. Tem várias instituições já trabalhando na cracolândia, e o trabalho não é integrado. A gente tem de deixar a vaidade de lado. Às vezes tem pastor que quer aparecer demais, padre que quer aparecer demais. Não é esse o caminho. Temos que unir todas essas instituições, unir as forças de segurança e unir politicamente o governo municipal, estadual e federal."

Fernando Haddad (PT):

Reprodução/Instagram

O ex-prefeito paulistano respondeu ao nosso contato com o envio do link de uma entrevista concedida à rádio Jovem Pan de Sorocaba. Na entrevista, ele defendeu a volta do programa "De Braços Abertos", lançado por ele em 2014, enquanto era prefeito de São Paulo.

"Na cracolândia nós tínhamos um programa lançado pela Prefeitura composto de três elementos. Nós oferecíamos teto, tratamento e trabalho. Ninguém que está em situação de rua, com vício em crack, você vai salvar se não der um teto para a pessoa. É o que os americanos chamam de "housing first" (casa primeiro). Primeiro, você tem de dar um teto, por mais humilde que ele seja. Às vezes é o quarto de um hotel barato, de R$ 200 por mês, mas ele tem que ter um teto, um endereço. Segundo lugar, essa pessoa tem de se comprometer a se referenciar a um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), que a Prefeitura tem. E terceiro lugar, você tem de abrir uma porta para uma frente de trabalho. Que essa pessoa comece trabalhando duas horas por dia. Tá ok. Depois, ela vai passar para três, vai passar para quatro, e, assim ela vai saindo da situação que ela se encontra. Esse programa atendeu toda a população da cracolândia, e de cada três, dois reduziram o consumo, e a criminalidade na região da Luz caiu, segundo dados da própria Polícia Civil, no período do programa.

O problema não vai se resolver dispersando a população. Porque eles mudam de endereço. Mudam de local, mas não resolve o problema. É preciso usar a ciência para resolver o problema do usuário.

Do ponto de vista das organizações criminosas, se não tiver investimento em inteligência, em equipamento, saber onde está o dinheiro do tráfico, para onde está indo, onde é lavado, você não vai conseguir resolver."

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Gabriel Colombo (PCB):

Reprodução/Instagram

"A chamada cracolândia é a conjugação de diversos problemas sociais do capitalismo, como o desemprego, a especulação imobiliária que inviabiliza um programa de habitação popular no centro de São Paulo e promove o despejo violento de ocupações urbanas (como a que ocorreu na Rua Augusta no último dia 17), a criminalização das drogas e o racismo, por exemplo. Portanto, é um problema profundo, que não será resolvido de forma isolada, atuando somente na região onde as pessoas, majoritariamente em situação de pobreza e miséria, se juntam para consumir drogas. 

Esse problema social tem, além do mais, um aspecto de questão de saúde pública: são pessoas com dependência química e, em boa parte dos casos, em situação de rua. A resposta não deve ser a criminalização e uso de violência policial, como Rodrigo Garcia e Ricardo Nunes estão tratando a questão. As operações truculentas da polícia na cracolândia são, de longa data, a política do PSDB e, repare, o problema não só continua, como piora.

Vamos combater a raiz do problema: revitalizar o centro de São Paulo, com um amplo programa de desapropriações e reformas de imóveis para prover moradia; uma política de emprego em grande escala, a partir do investimento estatal nos setores estratégicos, na garantia de direitos fundamentais como alimentação e moradia, e na democratização dos serviços públicos. São os primeiros passos que consideramos fundamentais para lidar com o problema, sem ficar enxugando gelo, como acontece nas ações policiais. Além disso, propomos uma ação coordenada, em parceria com organizações da sociedade civil que trabalham o amparo às pessoas dependentes (como faz o Padre Júlio Lancelloti, por exemplo), a fim de incorporar múltiplas abordagens à questão, especialmente no que diz respeito à saúde mental, acolhimento e ressocialização."

Márcio França (PSB): não respondeu ao nosso contato.

Reprodução/Instagram

No entanto, perguntado sobre o assunto em sabatina no UOL, o ex-governador de São Paulo afirmou que pretende acabar com a cracolândia em dois anos. Para isso, ele disse que pretende investir, inclusive, em internação compulsória para tratamento. Ainda segundo ele, operações policiais na cracolândia não são necessárias.

"Dois anos para não existir mais a cracolândia. Evidentemente que ela não tem nada a ver com polícia, é um caso de tratamento médico, as pessoas são doentes. Cracolândia é um nome genérico de 1.500 pessoas, que vivem em um ambiente em que nem todas elas são dependentes, tem gente que é bandido, tem criança, tem mulheres, tem meninos, tem tudo ali. Então, precisa ter uma atuação médica, de saúde pública, com tratamento adequado, e, se for necessário, com tratamento obrigatório. Não pode ser apenas uma opção. As pessoas mal sabem o que estão fazendo lá, e aquilo virou uma venda de crack. É o desrespeito absoluto ao Estado."

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Rodrigo Garcia (PSDB): não respondeu ao nosso contato.

Reprodução/Governo de São Paulo

No entanto, perguntado sobre o assunto em sabatina no UOL, o governador paulista definiu o problema da cracolândia como "crônico". Ele defendeu ainda que é preciso criar novas alternativas de vida aos dependentes para que eles deixem as drogas.

"A cracolândia é um problema crônico, de anos, em São Paulo, independentemente dos prefeitos que tiveram em São Paulo, dos governadores, é uma luta contínua. Um problema de saúde e de segurança pública.

Eu estava no governo do [Geraldo] Alckmin, era secretário de Assistência Social, quando fizemos um trabalho com o Judiciário e tentamos a internação involuntária como uma solução, quando observamos que não é com medida de força que vamos resolver esse problema. Tem várias estratégias de reinserção social e assistencial para dar nova perspectiva de vida. E tratar traficante como traficante. É uma perseverança e uma luta permanente.

Não vou desistir [da cracolândia]. O que couber ao governo, estou fazendo. Não só com mais vagas de tratamento aos dependentes químicos, como ação policial forte.

Não é uma tarefa simples. Já vi gente prometendo que vai acabar com a cracolândia em dois ou três anos, mas é uma luta permanente. Se você não criar alternativas de nova vida ao dependente, ele não vai sair das drogas. Você faz tratamento, mas na saída não tem ninguém da família aguardando, então ele volta para ruas e para a dependência."

Tarcísio de Freitas (Republicanos):

Ricardo Botelho/MInfra

O ex-ministro da Infraestrutura disse que, se eleito, tratará a questão da cracolândia como prioridade. Ele prometeu abordar o assunto em seu plano de governo, que ainda está sendo desenvolvido.

"Solucionar a situação da cracolândia é uma prioridade do nosso plano de governo, que está sendo estruturado. Dada a relevância e complexidade do problema, novas ideias estão sendo estudadas, uma vez que entendemos que as antigas soluções não tiveram resultado efetivo. Essas ideias serão divulgadas em breve."

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Vinicius Poit (Novo):

Reprodução/Instagram

O deputado federal defendeu a construção de uma frente de trabalho ampla para lidar com o problema, que, nas palavras dele, "não se resolve da noite para o dia."

"A cracolândia é um problema majoritariamente de saúde, uma vez que estamos falando de pessoas com problemas de dependência química. Em alguns casos, essas pessoas já não têm mais condições de decidirem pelos seus atos, ou seja, já não mais se governam. Em casos mais leves, é primordial garantir o bom uso da estrutura e da programática dos CAPS espalhados ao redor do Estado.

Para que esse processo flua da forma correta, uma boa triagem deve ser feita. Devem ser realizadas ações de grande escala coordenadas entre a área de segurança e a área de saúde, para que seja possível realizar o diagnóstico médico adequado, permitindo que os pacientes em necessidade de internação involuntária sejam devidamente encaminhados.

Em segundo lugar, é necessário um programa de segurança pública que reforce o combate efetivo ao tráfico. Operações policias no território da cracolândia não podem ser descartadas, mas precisam ser realizadas com o devido cuidado. A inteligência policial deve ser reforçada para garantir mais eficiência, havendo também uma ação conjunta das polícias civil e militar, de modo que a investigação, as intervenções policiais e o patrulhamento estejam coordenados.

Por último, mas não menos importante, é indispensável que os governantes coloquem seus egos e vaidades de lado. Já foram desenhados outros programas que prometiam resolver o problema da cracolândia, mas os embates políticos se sobressaíram. Foi esse o caso da disputa entre o ex-governador Alckmin e o ex-prefeito Doria, que acabaram deixando a busca por protagonismo tomar conta da questão e, com isso, desvirtuaram os programas Recomeço e Redenção. A correção de soluções ruins e a continuidade de bons projetos deve ser garantida."

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