Parem de compartilhar o vídeo de George Floyd

Será que os vídeos gráficos de George Floyd e Ahmaud Arbery devem rodar nas mídias sociais para que, só assim, o público se importe com suas mortes injustas?

BuzzFeed News; Getty Images

Eu sou uma criatura de rotina: começo minha manhã com uma xícara de chá, um bom livro e uma rápida navegada pelo Twitter. Eu tenho ansiedade, eu preciso de uma rotina. Com o surgimento da COVID-19, essa rotina impede que as paredes do meu condomínio se fechem sobre mim e que as roupas que eu visto me apertem como uma camisa de força. Mas minha rotina foi quebrada; não consigo mais acessar o Twitter. Uma rápida navegada pela minha linha do tempo poderia fazer meu coração desacelerar. Um simples login é agora um salto de fé de que uma onda de ansiedade não vai me derrubar. Uma vez refúgio da quarentena, minha linha do tempo se tornou um cemitério de corpos de negros mortos:

Sean Reed.

Breonna Taylor.

Ahmaud Arbery.

George Floyd, em Mineápolis, que disse "Não consigo respirar" quando um oficial prendeu o pescoço de Floyd no chão com o joelho. Há vídeos de algumas dessas mortes circulando na internet, como se a morte de negros fosse algo que deveria ser trocado e compartilhado. Como se eles não fossem entes queridos de alguém. Mas, graças aos protestos públicos provocados pelos vídeos, tanto os assassinos de Ahamud Arbery quanto o policial Derek Chauvin, que manteve o pescoço de Floyd preso no chão com o joelho enquanto Floyd sufocava, foram presos e acusados de assassinato. E Amy Cooper, a mulher branca que ligou para a polícia depois que um observador de pássaros negro chamado Christian Cooper pediu para ela amarrar seu cachorro, foi demitida de seu emprego após a divulgação de um vídeo no qual ela alegava que um "homem afro-americano" estava ameaçando sua vida.

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Uma vez refúgio da quarentena, minha linha do tempo se tornou um cemitério de corpos de negros mortos.

É bom, eu suponho, que a mídia social tenha possibilitado que esses incidentes atraiam um público amplo e despertem as exigências por justiça. Mas, por que o trauma dos negros precisa se tornar viral para as pessoas não negras se importarem? Por que nós, as pessoas que temos lidado com essa merda toda a nossa vida, temos que ver vídeos gráficos e indutores de TEPT apenas para que nossos problemas não sejam ignorados? É traumatizante ver um vídeo de alguém sendo assassinado reproduzido automaticamente quando você abre um aplicativo. Especialmente quando o assassinato é racialmente motivado, e especialmente quando está nas mãos do estado. Estamos sendo submetidos a imagens que, de acordo com estudos sobre trauma racial e trauma vicário da psicóloga clínica Monnica T. Williams, podem induzir depressão e ansiedade. E, quando combinadas com discriminação e microagressões diárias, podemos até ter sintomas semelhantes ao TEPT.

Antes das mídias sociais, a experiência cotidiana dos negros era invisível e indiferente à maioria dos americanos não negros. Não havia clipes de “Karens” nos chamando de "negões" em um restaurante ou frases de efeito de policiais nos ameaçando. Quando tive uma espingarda apontada para o meu rosto depois de me aproximar da casa errada, enquanto procurava uma festa — uma noite que tenho relembrado repetidamente desde o assassinato de Ahmaud —, tive que engolir essa merda e seguir em frente. Eu a enterrei no fundo do meu subconsciente, adicionando-a às microagressões e aos abusos psicológicos raciais com os quais tenho que lidar diariamente. Eu, como a maioria das pessoas negras, tive que carregar um trauma invisível. Mas agora, nosso trauma está em toda parte. Vou ser sincero: os alvoroços nas mídias sociais se tornaram necessários para cortar o silêncio ensurdecedor das pessoas brancas. Mas ilusões brancas sobre este país ser um paraíso pós-racial estão fazendo com que os negros revivam um trauma atrás do outro, um retuíte de cada vez. Essa clara divergência nas realidades é o motivo pelo qual as coisas ficaram tão ruins a ponto de o trauma dos negros agora precisar se tornar viral para ser visto.

Quando os americanos negros e brancos são questionados sobre suas relações raciais, por exemplo, essa discrepância é perceptível. Em uma pesquisa de 2016 do Pew Research Center, quando os participantes foram questionados se concordavam com a afirmação "americanos negros são tratados de forma menos justa pelos policiais do que os brancos", 50% dos americanos brancos disseram que concordavam, enquanto 84% dos americanos negros concordaram. Quando questionados se eles acreditavam que os americanos negros eram tratados de forma menos justa que os americanos brancos no tribunal, 43% dos brancos concordaram, enquanto 75% dos negros disseram que concordavam.

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Quando tive uma espingarda apontada para o meu rosto depois de me aproximar da casa errada, enquanto procurava uma festa — uma noite que tenho relembrado repetidamente desde o assassinato de Ahmaud —, tive que engolir essa merda e seguir em frente.

Pessoas negras e brancas podem ocupar os mesmos espaços agora, mas ainda vivemos em dois países diferentes. Alguns brancos veem a bandeira confederada como um símbolo do sul. Eu vejo a bandeira e penso em fotos antigas e granuladas de pessoas brancas sentadas em cobertores de piquenique comendo ao redor de um corpo negro enforcado enquanto essa bandeira ondulava ao vento atrás delas, sorrisos largos em seus rostos como se fosse outro passeio divertido em família. Nossos fatos históricos nunca terão tanto poder quanto sua mitologia cativante. Eu não precisei imaginar o que teria feito no lugar de Ahmaud. Eu já tive uma espingarda apontada para mim antes. Eu quero mentir e dizer algo conscientemente literário, tipo, como a lua brilhava no cano de aço ou como eu fui estoico ou corajoso, ou mesmo que minha vida passou diante dos meus olhos. Mas nada disso aconteceu. Eu não senti nada. Eu estava paralisado de choque. "É aqui a festa?", eu perguntei.

Os americanos negros não precisam ver esses vídeos para saber que essa merda continua. Nós sabemos que ela continua. Ouvimos as histórias de nossas tias e tios, irmãos e irmãs, nossos avós e pais que viveram as leis de Jim Crow. A discriminação nos EUA é tão americana quanto a torta de maçã, e todo americano negro em algum momento experimentou uma fatia. Não. Esses vídeos são para aqueles que não conheceram ou têm abusado psicologicamente dos negros por anos sobre a nossa realidade coletiva, fazendo com que questionemos nossas experiências e percepções.

Mas o que podemos fazer sobre isso? Nossa sanidade é merecedora do avanço do país? Nossas realidades e mitologia branca se alinharão algum dia? Eu não sei as respostas. Mas até lá, somos forçados a carregar o peso do trabalho emocional deste país.●

Este post foi traduzido do inglês.

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