O restaurante deles foi incendiado nos protestos de Minneapolis. Eles só querem justiça para George Floyd.

"Podemos reconstruir um prédio. Mas não podemos devolver esse homem à sua família."

Courtesy of Michelle Hensley

As cinzas do restaurante Gandhi Mahal são vistas atrás da polícia em South Minneapolis, na manhã de sexta-feira.

A primeira coisa que Hafsa Islam sentiu na manhã de sexta-feira, quando acordou em um bairro cheio de fumaça ácrida, foi raiva.

O restaurante Gandhi Mahal, em South Minneapolis, que era o trabalho da vida de sua família, havia sido incendiado nos protestos da manhã de sexta-feira, dias depois que George Floyd, um homem negro, morreu após um policial branco o estrangular com o joelho.

Então, Hafsa ouviu seu pai, Ruhel Islam, ao telefone. "Deixe os prédios queimarem", dizia ele. "A justiça precisa ser feita. Coloquem esses policiais na cadeia."

Ouvir as palavras de seu pai ao telefone acalmou Hafsa, que disse que sempre apoiou o movimento Black Lives Matter.

"Isso me ajudou a perceber o motivo de estarmos lá", disse ela. "Chegou a um ponto em que essa é a única maneira de conseguir justiça e mudar o sistema."

Hafsa, de 18 anos, postou o que seu pai havia dito na página do Gandhi Mahal no Facebook, na esperança de ajudar outras pessoas a entender que havia coisas mais importantes do que os prédios nos protestos, disse ela. Ela recebeu um enorme apoio da comunidade e promessas de ajuda na reconstrução do restaurante.

Ruhel, um imigrante de Bangladesh, explicou da seguinte maneira: "A vida é mais valiosa do que qualquer outra coisa", disse ele, horas após o restaurante ter sido incendiado. “Podemos reconstruir um prédio. Mas não podemos devolver esse homem à sua família."

Após a morte de Floyd, Hafsa passou os últimos dias no Gandhi Mahal, que fica a poucos quarteirões da Terceira Delegacia de Polícia de Minneapolis, no coração do bairro que foi o epicentro dos protestos.

Ela viu médicos carregando pessoas feridas nos protestos. Ela viu manifestantes não violentos atingidos por gás lacrimogêneo e balas de borracha. E, segundo ela, chegou a ver George Floyd quando ele foi preso a alguns quarteirões de distância.

Ela estava em seu carro, atendendo a pedidos do restaurante de sua família no DoorDash. Ela inclusive gravou um vídeo de 5 segundos no Snapchat — um vídeo desfocado que mostra a polícia com um homem na esquina onde Floyd foi preso.

"A primeira coisa que notei foi sua expressão facial", disse Hafsa. "Isso trouxe aquela imagem à minha mente. Lembrei de como ele estava chorando e sofrendo."

Ela pensou naquela expressão, segundo ela, enquanto observava os protestos se desenrolarem em sua cidade. "Acho que as pessoas que dizem que as pessoas deveriam parar de protestar estão erradas", disse ela.

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Courtesy of Michelle Hensley

A fachada da livraria Moon Palace, fechada com tábuas e marcada com "Não Incendiar".

Conforme os protestos e a violência que surgiram após a morte de Floyd reduziram grande parte do bairro de South Minneapolis, onde Floyd foi preso, a escombros, muitos usaram a situação dos pequenos empresários como um golpe contra os manifestantes.

Para Ruhel, que cresceu em um "estado policial" em Bangladesh, as forças que derrubaram seu amado restaurante eram muito claras. Ele culpa os líderes da cidade e as autoridades locais que não prenderam os policiais envolvidos na morte de Floyd, antes que o policial que se ajoelhou no pescoço de Floyd fosse acusado de assassinato na tarde de sexta-feira. Os outros três policiais não foram acusados.

"Eles poderiam ter impedido isso", disse Ruhel. "Eles precisam colocar a polícia na cadeia. Isso deveria ter sido resolvido há dois, três dias."

Outros pequenos empresários de Minneapolis se esforçaram para apoiar os protestos, mesmo com seus prédios em risco à medida que as tensões continuam crescendo. Os proprietários do Moon Palace, uma livraria local, condenaram "a indiferença, a violência e mais intimidação da polícia" em resposta à morte de Floyd.

"Agradecemos todo o apoio que nos foi oferecido nos últimos dois dias, mas pedimos a você: não se arrisque para proteger nossa loja", escreveram eles no Facebook. "As coisas que podem ser perdidas em nosso prédio são apenas coisas, mas sua vida não tem preço, assim como a vida de George Floyd não tinha preço."

As grandes janelas do Moon Palace foram fechadas com tábuas e marcadas com "Não Incendiar", depois que surgiram relatos de que os proprietários haviam se recusado a permitir que a polícia realizasse operações em seu estacionamento.

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Courtesy Hafsa Islam

Hafsa Islam e Ruhel Islam em seu jardim.

Mas, para Ruhel ou Hafsa, nada disso atenuou a dor da perda do Gandhi Mahal. Ruhel tentou proteger seu prédio, segundo ele: Ficou lá até 1 da manhã, quando finalmente não teve escolha a não ser voltar para casa.

"Meu coração está despedaçado", disse ele sobre os danos causados ao seu restaurante. "Queremos justiça para nosso irmão, mas não queremos ser destruídos. Vejo a raiva dos jovens. No fim das contas, acreditamos na paz."

Na sexta-feira, Ruhel tentou avaliar os danos causados ao restaurante. Mas, segundo ele, a polícia estava bloqueando as ruas, e ele não conseguiu passar. Ao seu redor, ainda saia fumaça dos escombros.

Em vez disso, Ruhel e Hafsa foram ao jardim que começaram nas proximidades, chamado de Interfaith Garden [Jardim Inter-religioso, em tradução livre], onde Ruhel trabalha há muito tempo com outros grupos da comunidade para cultivar temperos e vegetais frescos servidos no Gandhi Mahal.

Ruhel cuidou do coentro, do feijão e do feno-grego, um tempero medicinal. Ao redor deles, a fumaça ainda era tão pesada que suas gargantas queimavam.

"Vou plantar no jardim e rezar por todos", disse Ruhel.

Ele disse para Hafsa não se preocupar com a perda do restaurante, que era a principal fonte de renda deles.

"Vamos dar um jeito, não se preocupe, vamos trabalhar juntos", disse ele para ela. "Estamos cultivando muita comida, vegetais e não estou preocupado. Vou começar a plantar, cultivar e cultivar para sobreviver."

Este post foi traduzido do inglês.

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