O documentário de Michelle Obama me lembrou como é ter esperança

Por uma hora e meia, entre risadas, reflexões e um choro, eu pensei que talvez as coisas ainda podem dar certo.

A televisão eu já não ligo há séculos para ver notícias. No Twitter, leio pulando manchetes porque é impossível não se indignar mais. Por isso, os streamings aqui em casa estão bombando.

Tenho percebido que os filmes e as séries que mais estou assistindo possuem elencos mais diversos. O conceito de diversidade e representatividade tem falado muito mais comigo depois que passei a integrar o BuzzFeed Vozes, e, pouco a pouco, as pecinhas – bem pequenininhas – deste quebra-cabeça que é a sociedade, vão se juntando pra mim.

Eu já vi duas séries que entraram há pouco tempo no catálogo da Netflix – “Hollywood” e “Eu Nunca” (recomendo ambas, mas a gente fala delas depois) –, e no último fim de semana fui ver o documentário “Minha História”, que mostra os bastidores da turnê de lançamento do livro da ex-primeira dama dos Estados Unidos, Michelle Obama.

Para quem ainda não leu, o livro "Minha História" revisita momentos que Michelle viveu durante o período como primeira-dama, e convida os leitores a conhecê-la de forma genuína, fora dos holofotes políticos. Como é, de fato, a mulher por trás da ex-primeira dama.

Divulgação: Netflix

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Ver a Michelle Obama ali, linda, deslumbrante, vulnerável, conversando com a juventude e inspirando uma geração inteira de meninas negras, me trouxe de volta um sentimento que eu vinha esquecendo como é: aquele friozinho na barriga chamado esperança.

Michelle fala apaixonadamente de Barack Obama e da forma que ele a incentivou a estar sempre atenta ao novo. Ela relata as artimanhas da imprensa local para tentar manchar a sua imagem. Todas elas sem sucesso, porque Michelle sabia muito bem de onde vinha e o que queria concretizar naquele cargo.

Vemos o desenvolvimento da sua família dentro e fora da Casa Branca, além do que ela representou ao idealizar e concretizar um legado cultural que uma família negra pode deixar no progresso da nação. As raízes da Michelle parecem ser bem fortes, e o documentário mostra bem isso.

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Eu tive vários privilégios a vida toda. Estudei em instituições particulares e viajava todo ano com a minha família para cidades litorâneas. A gente ia bastante ao cinema e também comer fora, várias vezes ao mês.

Por fazer parte de uma família com uma situação financeira melhor, algumas coisas passaram despercebidas por mim. Como por exemplo, eu ser uma das poucas pessoas negras na maioria destes contextos citados acima. Eu sempre soube que o racismo existia, e o que ele era, mas não pensei que havia sofrido. Crescer e fazer parte de ambientes majoritariamente brancos tiram um pouco da sua percepção. Olhando para trás, eu podia contar nos dedos quantos amigos negros eu tinha, com quantas pessoas negras fiquei. Aos poucos, isso foi florescendo em mim.

O que eu podia fazer a respeito disso? Qual era o meu papel dentro disso tudo? Por que a gente não se vê nos outros mesmo quando somos mais da metade da população? Bom, se você também se deu ao trabalho de fazer essas mesmas perguntas a si mesmo, provavelmente descobriu que o buraco é muito mais embaixo.

Divulgação: Pete Souza/The White House

Retrato oficial da família Obama no Salão Oval, da Casa Branca, em 2011.

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O racismo vem em camadas quase que superficiais quando você tem alguns privilégios. É o jeito que falam e agem com você nos ambientes aos quais você pertence, que só você percebe e até acha que é coisa da própria cabeça (prazer, gaslighting).

Na sua cabeça, é ter que se provar a todo momento, mesmo que inconscientemente, e fazer três vezes mais que pessoas não-racializadas. É ter que fingir que não viu e ouviu certas coisas, porque no fim do dia você ainda precisa “cumprir com um padrão”, aquele mesmo do qual você teoricamente nem sequer faz parte, em primeiro lugar.

Michelle Obama chegou “lá” - onde quer que isso seja para você - e ainda assim teve e tem que lidar com isso. Nunca acaba, por mais que a gente tente. Ser três vezes melhor parece que nunca vai ser suficiente. Os Estados Unidos são tão ou mais racistas quanto o Brasil ainda é até hoje, apesar de muita gente achar que não. “Racista, eu?”. Nesse ponto, temos muito em comum com os EUA enquanto sociedade.

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Ver a história de Michelle Obama neste momento em que o Brasil está em colapso é uma fagulha no fim do túnel. Por uma hora e meia, entre risadas, reflexões e um choro, eu pensei que talvez as coisas ainda podem dar certo.

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