O dia em que a minha camiseta LGBT virou blasfêmia na TV aberta e gerou ódio nas redes sociais

Jesus Gay?

Não sei se vocês sabem, mas apresento um programa de TV. Ele se chama "Fofoca Aí", na TV Gazeta, e nele tenho como companheiros Leão Lobo, Tia (vivida por Guilherme Uzeda) e Arthur Pires.

Três de nós somos LGBTs, não é segredo para ninguém. Somos um caso raro na TV aberta brasileira.

E volta e meia incorporo detalhes ou peças que remetam à diversidade em meu figurino. Umas mais discretas, outras não.

Publicidade

Nessa manhã, arrumando meu guarda-roupa, achei uma camiseta antiga, comprada durante uma viagem, escrita em francês, que fazia muito tempo que não usava e achava que nem me cabia mais. Nela está a frase "Je suis gay", que significa "Eu sou gay".

Fefito
Fefito

Arquivo pessoal

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Teve quem preferiu ver polêmica onde não tem.

Publicidade

Descobri até que se afirmar gay é querer chamar atenção. Risos.

E mais explicações tiveram de ser dadas.

Publicidade

Publicidade

Preciso dizer que essa não é a primeira vez que essa camiseta causa polêmica. Mas, na época em que isso rolou, era um meme, de uma pessoa que pareceu extremamente equivocada apenas. Ri disso e segui a vida.

Reprodução/Internet

Isso foi parar em grupos de memes. E ingenuamente achei que seria um caso isolado.

Publicidade

E chegou a virar notícia.

Depois, eu problematizei. E explico: o comentário foi feito embaixo da seguinte manchete:

Sim, na época eu tinha recebido uma ameaça de morte. Recebi um e-mail de alguém afirmando que descarregaria um revólver 38 na minha cara por ser gay. Essa pessoa dizia saber todos os meus horários. Ela está presa hoje em dia por crimes diversos.

De repente, as pessoas pararam de se importar com o fato de haver uma ameaça de morte e rir de algo que ela gerou. Diz muito sobre os tempos atuais.

Nenhuma notícia publicada em jornal, site ou veiculada na TV sobre o assunto repercutiu tanto quanto esse meme.

Publicidade

Voltando ao dia de hoje. No ar, tive de traduzir palavra a palavra. Mas uma pulga ficou atrás da minha orelha. Uma não, várias.

Fefito
Fefito

Arquivo pessoal

1) Entendo que no Brasil a deseducação é um projeto político, mas quem é muito religioso provavelmente sabe como se escreve o nome de Jesus, certo?

2) E se a camiseta dissesse o que todo mundo pensa? Dissesse que Jesus é gay? Qual seria o problema? Em que momento a orientação dele é declarada na Bíblia? Gay não é xingamento. E nunca mais será.

Ninguém cancelou - e nem deveria - a Ariana Grande quando ela cantou que Deus é mulher. Da mesma maneira, não se deixou de ver o filme ou ler o livro "A Cabana" por causa disso.

Tive ainda de dar explicações para acalmar a turba das redes sociais em um segundo programa que fiz em seguida. De certa maneira, ao explicar o óbvio, parece que estou me desculpando por algo sobre o qual eu não tenho a mínima culpa. Reflexo do Brasil dos últimos anos. Talvez daqui a um tempo isso tudo pareça absurdo, mas, hoje, é a realidade.

Dentre as mensagens que recebi, muitas me criticavam dizendo que "me adoravam", mas que "não era pessoal". É bem pessoal. Ao criticar quem sou, ao falar da minha orientação, ao me criticar por exercer meu direito a me afirmar no mundo, acredite, você transforma isso em algo beeeem pessoal.

Publicidade

E vou seguir usando minha camiseta. Ela já está velhinha, mas agora me dá um orgulho danado ostentar ela.

Ah, e de novo: não, eu não devo desculpas a ninguém. ;)

Que a gente siga sendo feliz. Que deixem a gente seguir sendo felizes. Mais amor, por favor.

Publicidade

Veja também