Novos tempos: É cada vez mais difícil dizer o genital que a pessoa tem (ou teve) só de olhar para ela

Reflexões iniciais sobre "Ela Nem Parece Travesti".

BuzzShe

O ano é 2006, eu no auge dos meus 21 anos, longe ainda de imaginar que um dia transicionaria, mas eu namorava uma travesti e estava apresentando ela pra minha família.

Amara Moira
Amara Moira

Cintia Antunes/Divulgação

Somente o núcleo familiar mais próximo sabia que ela era travesti: estavam desesperados, mas a passabilidade cis ("capacidade da pessoa trans de ser lida socialmente como se ela fosse cis", ou seja, como se ela tivesse nascido com o genital que a cisgeneridade espera para o seu gênero) dela era excepcional, aí confiavam que o resto da família não se daria conta.

Estavam certos. Foram meses de convivência pacífica, sem nunca ter surgido qualquer insinuação de que ela não fosse mulher "do jeito certo" (isto é, tendo nascido com vagina), o que foi acalmando o núcleo familiar mais próximo. Oito anos depois (logo após a minha transição), quando eu revelei a todes que não havia sido a primeira travesti na família, até houve quem dissesse que "tinha percebido algo estranho nela", que "desconfiava", mas era pura conversa pra boi dormir. Sem contar as reclamações por eu não ter contado lá atrás. Família preconceituosa como a minha, jamais teriam se permitido tratá-la bem, se soubessem quem ela era.

Até o núcleo mais próximo, só aceitaram porque eu consegui me impor, porque ou a aceitavam ou teriam que romper também comigo... e não é exagero dizer, além disso, que só a aceitaram porque ela tinha uma passabilidade cis fora do comum.

Namoramos por três meses à distância antes de nos encontrarmos pela primeira vez, numa época em que não era fácil ter fotos digitalizadas, fazer videochamadas ou mesmo falar pelo telefone.

Ela era de Goiás e veio, meio fugindo de casa, de mala e cuia pra Campinas, para do nada começarmos a morar juntas, doideira total. Lembro que, ao encontrá-la na rodoviária, a primeira coisa em que pensei foi: "putz, eu não precisava ter contado pros meus pais que ela era travesti, nem parece". Eu não imaginava que fosse possível alguém ter aquela passabilidade, conhecia poucas pessoas trans até então, nunca tinha visto ninguém como ela.

Mas eu já havia contado, tarde demais, e foi melhor assim. Me poupou o stress de ter que ficar inventando histórias, vivendo em função do medo de a descobrirem... como se comportariam, nesse caso? Eu dependia financeiramente de pai e mãe, tentava gerenciar a situação com cautela, mas na medida do possível batia o pé e reivindicava o meu direito de estar apaixonada e de podermos viver abertamente aquele relacionamento.

Falei que ela "não parecia", mas percebam que isso não tinha relação alguma com o meu conceito de beleza. Ela era linda? Certamente, assim como outras tantas travestis que eu já havia conhecido até ali. A questão era especificamente a sua passabilidade cis, que nos poupava inúmeros problemas. Podíamos andar de mãos dadas sem todos os olhos do caminho se voltarem contra nós, sem ouvirmos xingamentos, minha família a aceitava muito em função disso, e mesmo em questões de trabalho isso colaborava horrores. 

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Ela era cabeleireira e, dada a informalidade dos vínculos trabalhistas em boa parte dos salões, ela conseguiu ficar meses trabalhando num salão do bairro sem precisar contar que era travesti. Contou pra empregadora só quando a relação de amizade entre as duas já estava consolidada e ela já havia construído uma boa clientela. Houve susto? Sim, mas tudo pôde ser contornado com tranquilidade.

Uma questão, no entanto, foi colocada pela empregadora: "você devia ter me contado antes". Eis algo que costumam cobrar de pessoas trans, que a gente avise a outra pessoa sobre nossa condição. A cisgeneridade se sente ofendida, enganada, quando convive conosco sem estar ciente disso, mas percebam que ela própria também não faz questão de se assumir, de chegar e já ir avisando "olha, eu sou uma pessoa cis, ok?". Por que somente de nós isso seria esperado?

Talvez a empregadora lidasse tranquilamente com a situação, mas a gente conhece o mundo em que vive e sabe que seria bem provável levar uma bela duma porta na cara, depois de se dizer trans. Ela, a empregadora, preferiria correr esse risco, se estivesse na pele da minha namorada? Duvideodó.

E agora, com a desburocratização da retificação de documentos para pessoas trans, esse tipo de situação vai se tornar cada vez mais comum, pois, se antes, os documentos denunciavam a nossa transgeneridade, agora nem isso. Sem contar que, com a circulação cada vez maior de pessoas trans pela sociedade e com o afrouxamento das noções de masculino e feminino, vai se tornando mais e mais difícil adivinhar o genital com que as pessoas a nosso redor nasceram.

Espero que isso indique que, em breve, "adivinhações" do tipo (porque é disso que se trata, pura adivinhação) se tornem obsoletas, não mais nos importando o genital que a pessoa com quem convivemos, conversamos ou só vemos na rua tem, teve ou deveria ter. No meu mundo utópico, aliás, esse dado não importaria nem caso a gente tivesse interesses sexuais pela pessoa: qualquer que fosse o genital dela, tenho certeza que as coisas iam se encaixar na hora. Não é, não?

Se você acha que não, talvez precise trabalhar um pouco melhor as suas habilidades imaginativas.

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