Lucas Silveira fala sobre seu amor pelo pagode: 'Dá pra ser muito popular e muito foda'

O roqueiro tem mostrado amor pelo ritmo no TikTok e garante: não é roqueiro "racista" ou "arrombado".

"A gente que é roquista, às vezes, foca o nosso aprendizado musical em muito ritmo, timbre, no objetivo de fazer um bagulho pesado. Então é só tirar uma música do Vinícius de Moraes que rola um 'oh meu Deus, que arranjo impressionante'. O pagode não. As composições impressionam quem estuda Jazz!", clama Lucas Silveira, vocalista da Fresno. 

O músico, que entrou pra história da música brasileira como uma das principais vozes do Emo - sonzeira que dominou a passos largos qualquer Top 10 da primeira década do século -, está usando as redes agora pra defender o bom e velho pagode.

Numa série de vídeos intitulada "Pagode Supremacy", ele analisa composições pagodeiras no detalhe. Explicando como o ritmo, apesar de desprezado, é complexo e poderoso.

Não é à toa que o cara manja tanto sobre o gênero.

Com 37 anos, o cantor passou essa fase infanto-juvenil no Brasil dos anos 90, quando o pagode reinava. "No Rio Grande do Sul, ou você é boy e tem uma casa na praia, ou conhece alguém que tem. De qualquer forma, no verão, você vai pro litoral. E lá sempre rolava um pagodão", conta. "Foi ali que eu me descobri cantor. A primeira vez que alguém falou 'Caramba, o Lucas canta bem' foi durante um pagode num balneário de Turimar (SC)." 

A coisa foi pegando gosto até que a família formasse uma banda, a "Só Dá Nóis". "Nunca, jamais, fizemos um show. O dia que a gente ia se apresentar, no Mariscão (um restaurante de lá), choveu e foi tudo cancelado", lembra. "E esse foi o começo da Fresno, porque se tivesse dado certo o Só Dá Nóis nunca existiria a Fresno", completa.

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O timing também ajudou. Foi bem nessa fase que o Brasil conheceu um dos maiores casamentos musicais de que se tem notícia: o do produtor Arnaldo Saccomani com o Pagode Romântico. 

Arnaldo Saccomani
Arnaldo Saccomani

Divulgação / SBT

"Nós chamamos de a era Saccomânica. Mentira, eu inventei essa palavra agora", brinca.

Em 1995, depois de produzir Os Mutantes e Tim Maia, Saccomani começou a escrever músicas para Os Travessos. Mudou para sempre o gênero.

Com harmonias cada vez mais complexas, o pagode foi se tornando um dos ritmos mais densos da nossa música. O público amava, e consequentemente, as rádios tacavam replay. A era de ouro do ritmo. "Quando uma cena musical bomba, vai rolando uma busca por uma excelência, uma busca por uma diferenciação - até no Emo aconteceu isso", afirma Lucas. "E nessa hora as coisas vão ficando cada vez mais rebuscadas… Por isso, quando chegou no começo dos anos 2000, o bagulho já tava muito louco." 

Em 2003, Saccomani produzia "Dito e Feito", dos Travessos, com hits pagodeiros como "Alô". No mesmo ano, Lucas despontava no segundo álbum da Fresno "Quarto dos Livros", que colocou a banda no radar do então embrionário emo brasileiro.

Mais uma vez, a sincronia veio a calhar. 

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O pagode romântico já foi até objeto de estudo para tese de doutorado da Unicamp. Nela, o pesquisador Waldir de Amorin Pinto dedica 154 páginas de análises ao ritmo. E destrincha, por exemplo, como os sons de fundos de quintal conseguiram, como poucos, transformar em algo único influências musicais no pop negro americano, no soul, com pinceladas de samba e jazz.

"Pô, é só pegar as convenções, que são aqueles momentos em que a banda se olha e começa a harmonizar ao mesmo tempo. Isso é muito foda. E quando a gente tem uma cena que o nível é elevado assim, as músicas ficam difíceis! Tocar Os Travessos nos anos 2000 era muito mais difícil do que no tocar o Dream Theater, tá ligado?", afirma.

O TikTok, então, apareceu como uma baita forma de reforçar essas informações, pra um público que ainda está justamente naquela fase de molde musical.

"A ideia é falar algo na linha: Ó, da pra ser muito popular e muito foda, tá? Não fiquem nivelando por baixo as coisas", conta.

O que abre margem pra uma porrada de outros temas. "Depois eu posso fazer, sei lá, o Sertanejo Superemacy, o Rock Supremacy, o Lulu Santos Supremacy, o Alceu Valença supremacy. Sempre exaltando uma galera que é foda, e as pessoas meio que não se ligam que é foda de verdade, sabe?".

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