'Loki' se aproveita da falta de representatividade - e ainda faz pouco

Mais uma vez, Marvel joga migalhas de representatividade pra comunidade LGBTQIA+.

Ficha criminal de Loki, onde a gênero é classificado como "fluído"
Ficha criminal de Loki, onde a gênero é classificado como "fluído"

Reprodução

Começou antes mesmo da série. Em um teaser (que depois integrou o primeiro episódio), fãs conseguiram identificar uma imagem de pouquíssimos frames: nela, a ficha criminal de Loki (Tom Hiddleston) identificava seu "sexo" como "fluido". 

Foi o bastante para dar início a uma comemoração que só cresceu semana passada. No terceiro episódio da série, o mesmo personagem dá a entender que se relaciona tanto com homens quanto com mulheres. Eba! Arrobas e manchetes comemoraram a representatividade.

Agora, não espere muito mais que isso se a série continuar seguindo o que a Marvel - e a indústria como um todo - vem fazendo. Representação LGBTQIA+ está limitada a jogos de palavras, e menos tempo de tela que um figurante mal pago. 

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De novo?

Tessa Thompson interpretando Valquiria
Tessa Thompson interpretando Valquiria

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Não é a primeira vez que a Marvel joga migalhas de representatividade pra comunidade LGBTQIA+. 

Em 'Thor: Ragnarok' temos, olha só, mais uma vez, a insinuação de que Valquiria (Tessa Thompson) se relacionava com uma ex-colega. 

Em 'Vingadores: Ultimato', o próprio diretor do filme, Joe Russo, interpreta um homem gay que vai ao grupo de terapia organizado pelo Capitão América. Mas o personagem nem nome tem. 

Thompson deu diversas entrevistas, clamando que sua personagem era bissexual. Russo também foi vocal sobre a importância do personagem creditado como "homem enlutado". Em ambos os casos, a homoafetividade era amplamente defendida. Apenas fora das telas.

Vamos falar sobre Loki?

Loki
Loki

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O caso de Loki é ainda mais complexo.

A começar pelo pelo "fluido", do primeiro episódio.

Rola uma ambiguidade aí. Simplesmente não dá para saber se estamos falando, de fato, sobre uma pessoa que é gênero fluido, ou se a ficha criminal se refere à habilidade do personagem, que pode mudar de forma e gênero.

Não para por aí.

Homens bissexuais são especialmente deixados de lado quando o papo é representatividade nas telas. 

Um estudo feito pela Aliança Gay e Lésbica Contra a Difamação (GLAAD, na sigla em inglês) apontou que dos 360 personagens LGBTQIA+ retratados em séries em 2020, apenas 36 eram homens bissexuais.

Para ter uma referência, tivemos 134 homens gays, 105 mulheres lésbicas e 65 mulheres bissexuais. 

No texto, Megan Townsend, diretora da pesquisa, pediu que as tramas bissexuais sejam "mais explícitas". Tudo que Loki não faz.

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Se for hétero, pode.

Peggy Carter e Capitão América
Peggy Carter e Capitão América

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E, antes que papais de plantão me critiquem. Relações explícitas não precisam ter a ver com sexo. 

Não é necessário nem mesmo um beijo para deixar as relações claras, mas nos cinco filmes em que Loki apareceu, nunca ele teve um envolvimento romântico e/ou sexual com outro homem. 

Praticamente todos os protagonistas dos 23 longas da produtora possuem pares românticos. Todos praticamente assexuados, com no máximo um beijinho ali ou acolá. Mas nenhum é LGBTQIA+.

Pouco demais.

Loki e Sylvie
Loki e Sylvie

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Meias palavras são muito pouco para representar uma comunidade. E, que bom se aquela cena fez você ou alguém que você conhece se sentir melhor. Mas poderíamos ter muito mais. Um personagem LGBTQIA+, mesmo simplesmente da questão narrativa, poderia oferecer infinitas possibilidades. Por enquanto, tudo é, no mínimo, muito mal aproveitado.

Afinal, se seu tio negacionista, ou mesmo uma criança tentando se entender, não sacar de primeira que aquele personagem importante não tem problemas em ser o que é… ainda é motivo de comemoração? Piada interna é representação?

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