Parte 5 de 'La Casa de Papel' parece ter sido feita pra esse momento do Brasil

Acabou a paciência com os fascistas.

O post abaixo contém spoilers sobre a quinta parte de La Casa de Papel. Te avisamos!

Manifestante em ato contra a ditadura militar, na Av. Paulista.
Manifestante em ato contra a ditadura militar, na Av. Paulista.

Manifestante em ato contra a ditadura militar, na Av. Paulista. Foto tirada em 2019 por: Cris Faga/NurPhoto via Getty Images

Os episódios mais recentes de "La Casa de Papel" chegaram à Netflix na última sexta, dia 3. Quatro dias depois, a política do Brasil entrava (de novo) em colapso. Os dois fatos não tem relação alguma - mas a coincidência deles rolarem quase que simultaneamente foi ótimo pra série (e pros brasileiros).

Pra começar, é importante ter o contexto: 

Policiais em frente a uma multidão bolsonarista. Em destaque, um homem branco de meia idade coloca a mão no coração e segura um berrante.
Policiais em frente a uma multidão bolsonarista. Em destaque, um homem branco de meia idade coloca a mão no coração e segura um berrante.

Marcos Correa/PR

Nas telas, encontramos os assaltantes do Banco Central espanhol em uma situação péssima. Os governantes convocaram o exército e começaram uma guerra contra os protagonistas. 

Na vida real, Bolsonaro aproveitou o feriado da independência para dar sinais de que tomaria o poder - talvez também com a ajuda do exército. Com discursos que os roteiristas da série provavelmente achariam surreais demais pra colocar na TV, o presidente brasileiro meteu o louco e recuou logo depois.

O cenário armado e carregado de caos, aproximou Tóquio, Rio, você e eu. Temos mais em comum do que provavelmente seria saudável ter.

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Estado de espírito.

Várias pessoas uniformizadas como os assaltantes.
Várias pessoas uniformizadas como os assaltantes.

Divulgação / Netflix

Parte da fama de "La Casa de Papel" vem do ar anárquico que os personagens carregam. "Bella Ciao", vale sempre lembrar, é um hino anarquista italiano dos anos 1940. Essa alma Robin-hoodiana, no entanto, havia sido deixada de lado. Desde a segunda metade da parte 3, a produção havia focado em cenas de tensão e planos mirabolantes para entreter o público. Deu certo, os episódios desse período são bons, mas o carisma dos assaltantes havia se dispersado. Parece que a produção sacou isso e deu meia volta. Nos cinco episódios mais recentes encontramos alguns dos momentos mais políticos de toda a série.

Isso vai de encontro absoluto com o momento atual do Brasil. Enquanto parte da sociedade está simplesmente exausta de lutar contra os absurdos políticos, os atos recentes de Bolsonaro acabaram cruzando uma linha que deu mais um fôlego de indignação pros brasileiros. 

O combo, então, começa a ficar perfeito aí. Quem ver a série antes das manifestações, talvez tire da produção a energia necessária para sair do sofá e ir protestar ou simplesmente não tolerar mais o fascismo no dia a dia.

Ao mesmo tempo, quem foi nas manifestações, antes de assistir os novos episódios, terminará com uma mensagem de que, sim, é importante combater pessoas que atacam minorias.

O ódio e o discurso.

Gandia e Bogotá lutando.
Gandia e Bogotá lutando.

Reprodução / Netflix

Dito isso, assim como os que enfrentamos agora, os duelos mais importantes da nova temporada não acontecem por causa do arsenal de armas pesadas. As principais brigas enfrentadas pelos assaltantes são majoritariamente políticas. 

Isso fica escancarado no segundo episódio da nova leva. 

Logo no começo do capítulo temos uma luta física entre Bogotá e Gandía. Em meio aos socos, temos talvez a cena mais milituda de toda a série. O assaltante com nome de cidade começa a luta apanhando, pedindo mais. E, só começa a revidar quando cita todas as minorias que o militar atacava diariamente. Bogotá clama que não está batendo no rival só porque ele é um ser desprezível, ele quer se vingar das vítimas do psicopata - e dá um soco para cada preconceito que esse distribui: racista, machista, torturador. Cada porrada é um flash. 

A luta de Bogotá não é um convite a deitar na porrada todo mundo que discorda de você. Na real, a luta em si é o que menos importa na cena, os caras podiam estar jogando dominó. Cada murro ali é uma metáfora. É um grito de "chega". Um desabafo. Uma gota d'água que não tolera mais um segundo de fascismo em silêncio. É o único estado de espírito possível para o cidadão realmente de bem. Principalmente se ele for brasileiro, e viveu o 7 de setembro.

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O pai tá off. 

Ainda no segundo episódio, a trama parece não ter mais paciência para outro vilão da série: Arturo Román, o Arturito. 

Arturito é o exemplo de outro tipo de pessoa que o brasileiro médio não aguenta mais: o cara que fala pra cacete, mas na hora de fazer ou não faz, ou faz mal feito. 

O cara faz fama na internet, inflando pessoas e falando sobre uma coragem que não tem. Ameaça, entra onde nunca devia ter pisado, e na hora H corre pra um homem mais velho lhe dar conselhos. Conhece alguém assim? 

Arturito sai de cena por conta de uma ação de Mônica, uma de suas maiores vítimas, que não deixa ele terminar a frase "você nunca vai fazer nada, porque é só uma secretária".

O ponto forte.

Indígenas segurando uma bandeira com o escrito "Fora Genocída".
Indígenas segurando uma bandeira com o escrito "Fora Genocída".

 Felipe Beltrame/NurPhoto via Getty Image

Em outro momento absolutamente lindo, o único assaltante da América Latina, Palermo, reúne sua equipe para levantar os ânimos. Ele relembra que todos ali são membros de alguma minoria: gays, latinos, pobres, imigrantes. E que esse era seu maior trunfo. 

Enquanto seus inimigos usavam essas mesmas características para diminuir os assaltantes, Palermo os lembra que justamente essas características lhes deram resiliência o suficiente para aguentar qualquer desafio que aparecesse. Qualquer porrada que tomassem. E que, como moeda de troca, devolveriam ainda mais poder e força. 

Qualquer semelhança com o Brasil…

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Dignidade acima de tudo, esperança acima de todos. 

Tóquio olhando, marejada, para uma mão que sai de um buraco no chão.
Tóquio olhando, marejada, para uma mão que sai de um buraco no chão.

Reprodução / Netflix

Os últimos momentos dos novos episódios só reforçam isso. A cena final de Tóquio, na saideira do quinto episódio, dá mais uma paulada no lado político da série. 

A assaltante protege seus aliados, e enfrenta os inimigos, sabendo que seria uma luta que talvez lhe custasse tudo. Mas ela o faz de consciência tranquila. Por que o resultado da briga importava menos do que o fato de saber que não havia espaço para que assassinos, fascistas e racistas iriam parar suas ações ali. 

Mais uma vez, é uma cena que pode trazer péssimas interpretações literais. Não é para, na próxima manifestação, você sair adotando uma tática violenta e kamikaze. 

O argumento existe muito mais no campo das ideias: Tóquio, assim como o brasileiro cansado, entendeu que estar cercado por quem você ama, e fazer o que você acredita, sempre será mais importante do que qualquer forma de repressão conservadora. 

Ela protege quem ama: seus amigos que são (como a própria temporada bate na tecla diversas vezes) membros de minorias. E fará isso nem que precise enfrentar um exército. 

Se os militares batendo na porta do Banco de Madri fez os personagens começarem a lutar pelo que acreditam, o exército fazendo sombra em Brasília trouxe um efeito semelhante por aqui.

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