Jovens com deficiência mostram por meio de fotos como navegam por sua sexualidade

Neste ensaio, eles escolheram o que vestiram e como gostariam de ser retratados.

Belinda Mason/Family Planning NSW

Iz Connell.

Iz Connell acredita que existe uma noção equivocada de que pessoas com deficiências são "assexuadas ou hipersexuais". "As pessoas acham que uma pessoa com deficiência não vai a festas e que somos incapazes de dar consentimento em qualquer relação romântica ou sexual", disse Connell ao BuzzFeed News.

O retrato da estudante de serviço social de 25 anos faz parte da série Outing Disability [Assumindo a Deficiência, em tradução livre] de Belinda Mason, fotógrafa de Sydney (Austrália). Com o apoio da Family Planning NSW, organização estatal australiana de serviços relacionados à saúde reprodutiva e sexual, a exposição está em seu quinto ano e visa combater "mitos e discriminações" que pessoas LGBTIQ com deficiência enfrentam.

"Minha deficiência é o transtorno esquizoafetivo," esclarece Connell.

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Belinda Mason/Family Planning NSW

Sage Amethyst, outra participante da sessão de fotos.

"Se eu vejo uma fotografia minha quando estou psicótica, me enxergo enorme, dolorida, com o rosto inchado e o abdômen distendido.

"Ao olhar [a imagem], eu quase sempre penso que poderia estar menor ou mais magra, mas então percebo que essa ideia de parecer perfeita é algo que a sociedade impõe a mim apenas pelo fato de eu ser mulher".

Connell é lésbica e disse que já ouviu "perguntas muito ofensivas" sobre sua saúde mental de potenciais parceiros no passado.

"Se você disser que já foi internada, ou que já ouviu vozes, ou que já teve que tomar medicação antipsicótica, as pessoas se sentem na liberdade de fazer perguntas com um grau de intimidade que não teriam com uma pessoa com deficiência física", relata.

A fotógrafa do projeto pediu aos seis participantes deste ano que escolhessem suas roupas, e Connell escolheu um sutiã e calcinhas de látex.

"É o que eu usaria para sair à noite," disse. "Eu já fiquei com algumas meninas em bares vestindo essa roupa".

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Belinda Mason/Family Planning NSW

Kerry Chin, um rapaz de Sydney, usou cores vivas para mostrar que o fato de "ser arromântico e assexual não significa que ele seja entediante".

"Os protetores auriculares e os óculos escuros são uma forma de representar visualmente o fato de eu ser autista, já que a condição tem como característica frequente uma alta sensitividade visual e auditiva", disse Chin ao BuzzFeed News.

"Sendo um homem transgênero, eu usava roupas exageradamente masculinas, mas isso não é tão importante".

Usar protetores auriculares em público "abriu um mundo completamente novo de pessoas com quem eu poderia socializar e que me fizeram sentir parte de uma comunidade", relata Chin.

"Em muitos eventos LGBTQI+, os assexuais são sub-representados. Meu objetivo era estar lá e chamar a atenção para esta comunidade," avalia.

"Embora exista um estigma de que pessoas com deficiência são dessexualizadas, muitas vezes também é negada à pessoa com deficiência – não só entre os autistas – a liberdade de reivindicar para si sua assexualidade e seu arromanticismo".

Chin disse que nos primeiros anos de sua adolescência, quando seus amigos "começaram a falar de quem eles eram a fim ou quem eles consideravam atraentes", ele percebeu que era assexual.

"Eu descobri todas essas coisas relativamente cedo e aceitei quem eu era e, na verdade, quem eu sou. Mas nem todo mundo tem essa sorte e muitas pessoas passam a vida inteira tentando descobrir o que há de errado com elas. É por isso que acredito que é tão importante trazer visibilidade e abertura para essa possibilidade identitária".

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Belinda Mason/Family Planning NSW

Harley Mahon.

Harley Mahon, estudante de Sydney, vestiu um top arrastão para as fotos. Aos 18 anos, elx se identifica como uma pessoa não-binária e conta que gostaria de ajudar a aumentar a visibilidade de pessoas como elx, "transsexual, com identidade cruzada e deficiência".

"Eu tenho autismo e pode ser difícil encontrar espaço dentro da comunidade trans," disse ao BuzzFeed News. "Eu me assumi como bissexual aos 12 ou 13 anos e me falaram que poderia ser uma fase, mas acabei rapidamente com essa hipótese já dizendo: 'Não, não é uma fase'. Também me identifico como arromânticx porque não tenho ideação romântica por pessoas".

Mahon diz que o fato de ter autismo limitava a maneira de conhecer outras pessoas.

"Algumas pessoas podem não gostar de mim porque não consigo juntar as palavras", conta elx. "Às vezes, pode ser difícil socializar e mais difícil ainda ir a locais que estejam muito lotados".

Apesar disso, Mahon diz que tem sorte por ter pais que o/a aceitam.

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Belinda Mason/Family Planning NSW

Mark Tayar.

"Frequentei uma escola católica e não entendia que poderia haver algo entre homem e mulher e gay e hétero. Foi quando pensei: 'Pode ser que você seja bissexual, há um espectro para essas coisas'."

O gerente de promoção de saúde da Family Planning NSW, Rob Hardy, disse que a série de fotos mostrou a "verdadeira diversidade da comunidade LGBTIQ, que inclui também pessoas com deficiência".

"Esta exposição é uma grande vitória para os envolvidos, uma vez que a sexualidade pode ser um aspecto silencioso, ignorado e invisível da vida de pessoas com deficiência."

"Pessoas com deficiência podem ter sexualidade e gênero tão diversos quanto qualquer outra pessoa. Existe neste trabalho um grande propósito, o de poder contar ao mundo: 'Eu sou assim!'".

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A tradução deste post (original em inglês) foi editada por Juliana Kataoka.

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