Feministas "malvadonas" censuram Chico Buarque

A música que, por conta do "feminismo", ele deixou de cantar é a mesma que hoje escutamos?

BuzzShe

Chico Buarque voltou às manchetes e aos trending topics semana passada. Motivo? Um suposto ataque de feministas raivosas que o levou a parar de cantar uma conhecidíssima canção sua, "Com açúcar, com afeto". Lógico que, para quem respirou fundo e tratou de ir atrás de mais informações, em vez de simplesmente ceder a esse imediatismo que a lógica das redes sociais propõe, o quadro era muitíssimo diferente e a ideia aqui será trazer um pouco sobre como isso se deu e meus pitacos sobre o acontecido.

Primeiro de tudo, é bom lembrar de onde saiu tudo isso. Na série documental recém-lançada "O Canto Livre de Nara Leão", um dos episódios é sobre a relação da cantora com Chico e, nele, vemos a história dessa composição. Nara teria encomendado a ele uma canção de "mulher sofredora", pois gostava muito de "músicas em que a mulher fica em casa, chorosa, e o marido na rua farreando", declarações da própria cantora, que cita como exemplos do que desejava canções que ela própria trazia em suas apresentações, como "Fiz bobagem" e "Camisa Amarela".

Chico Buarque e Nara Leão
Chico Buarque e Nara Leão

Reprodução/Internet

Chico fez a canção e, no seu depoimento (recente), diz que "as feministas vão ficar zangadas comigo e com a Nara", mas foi ela quem encomendou a música. Afirma ainda que naquele tempo não havia discussões sobre opressões de gênero, então ninguém via isso como problema, mas que, com o passar do tempo, ele deu razão às feministas e decidiu não mais cantar "Com açúcar, com afeto", decisão que, segundo Chico, seria seguida por Nara.

O que acabou não sendo dito pelo documentário é que a decisão de não mais incluir a música em suas apresentações data de, pelo menos, os anos 1980. Daí, o que ficou parecendo é que pressões contemporâneas de feministas levaram-no a tal decisão, quando, na prática, hoje em dia é difícil até encontrar textos que apontem o machismo dessa composição. Que pressão feminista foi essa, que ninguém conhece? Ninguém conhece porque ela não existe e, nisso, chegamos à hipótese que quero propor aqui, com uma nova cronologia para os acontecimentos.

Bom, pelo que ficou dito acima, está mais do que óbvio que Nara queria uma canção machistona e que Chico buscou atender ao seu pedido. Nada disso era um problema em 1967, ano de lançamento de "Com açúcar, com afeto", mas, com os espaços que o movimento feminista foi conquistando nos anos 70 e 80, não deve ter faltado oportunidade para alguma mulher mais antenada ter dado um toque no Chico de que essa canção era bastante machista. Sim, era machista: foi composta com essa intenção e, na época, essa era a única maneira como ela era entendida (ainda que isso não fosse visto como problema pela maioria absoluta das pessoas).

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A questão é que Chico deu razão a essa crítica e passou a ver como problemática a canção, deixando de trazê-la nos seus shows. Ponto. E, nesse documentário, deu a primeira declaração explicando o motivo de não a cantar mais. Percebam: ninguém nunca tinha sequer se dado conta de que ele não a cantava em seus shows, mas o que não faltou foram gentes indignadas diante dessa censura absurda.

Chico Buarque e Nara Leão
Chico Buarque e Nara Leão

Reprodução/Internet

Nunca houve censura. O que deve ter havido, isso sim, são simples conversas sobre a canção com feministas, Chico concordando com elas. Ele sabe que Nara lhe pediu uma canção machista e que ele próprio quis escrever uma canção machista, o que deve ter pesado nessa conversa com "as feministas". Importante notar que, mesmo hoje, ele próprio não parece conseguir ver o próprio objeto que ele criou por outro prisma.

Por que digo isso? Porque querer fazer uma canção machista não significa que você terá feito uma canção machista. O louco das obras de arte é que são coisas vivas, que vão se transformando com o passar do tempo, nunca sendo possível prendê-las numa interpretação única.

Daí que, após tantas produções do Chico em que nitidamente se vê uma crítica às opressões de gênero (e aqui os exemplos mais interessantes talvez sejam "Mulheres de Atenas" e "Geni e o Zepelim"), "Com açúcar, com afeto" passou a ser lida não como uma celebração do machismo que naturalizamos, mas como uma denúncia da condição da mulher em relações abusivas.

Toda a indignação que se deu nos últimos dias em função da decisão do Chico ignora solenemente que, se hoje essa canção parece uma denúncia, nem sempre ela foi vista dessa forma. Houve todo um processo até que chegássemos a esse ponto atual. O próprio Chico tem dificuldade de percebê-la como tal, por saber dos bastidores da criação. A canção foi criada para ser a encarnação do nosso machismo mais cotidiano, mas hoje, por essa ser uma obra viva e os tempos terem mudado, somos capazes de vê-la com outros olhos.

Dito isso, é preciso atentarmos para o fato de que esse episódio foi usado para vociferar contra o feminismo e os movimentos sociais, supostamente responsáveis por censurar produções artísticas e impor um molde politicamente correto para a sociedade. Nada disso aconteceu, mas, em tempos de fake news e reações imediatistas, isso pouco importa.

Daí a necessidade de respirarmos fundo nessas horas e irmos atrás de o máximo de informações antes de mergulharmos de cabeça nesse turbilhão de reactions e ódio.

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