Estas mulheres estão redefinindo o movimento pela positividade corporal

Stephanie Yeboah, Lauren Nicole Coppin-Campbell, Olivia Campbell, Olakemi Obi e Rachael Sealy compartilharam suas experiências como mulheres negras promovendo o movimento da positividade corporal no Reino Unido.

Como a maioria das bênçãos, minha introdução ao movimento pela positividade corporal aconteceu por acidente. Começou com Nadia Aboulhosn, blogueira de moda, modelo e estilista da Flórida (EUA). Ela tem um blog com o seu nome que eu comecei a seguir em 2011 e que logo se tornou objeto de uma grande adoração minha.

O blog dela foi a porta de entrada para conhecer várias outras mulheres da indústria da moda plus-size - mesmo que Aboulhosn explique que ela tecnicamente não é plus-size, mas que acaba sendo vista como tal por estar fora do padrão. Contudo, à medida que o movimento começou a crescer no Reino Unido e a positividade corporal começou a ser adotada por marcas e reembalada para o consumo, uma pergunta e uma omissão vinham à minha mente repetidamente: onde estão as mulheres negras?

O BuzzFeed conversou com cinco mulheres que são só o início do processo de tentar encontrar uma resposta para esta pergunta. Aqui, Stephanie Yeboah, Lauren Nicole Coppin-Campbell, Olivia Campbell, Olakemi Obi e Rachael Sealy compartilharam suas experiências como mulheres negras promovendo o movimento da positividade corporal no Reino Unido.

Stephanie Yeboah, 28, blogueira plus-size e ativista pela positividade gorda.

Laura Gallant / BuzzFeed

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Stephanie Yeboah é blogueira e há oito anos começou seu blog Nerd About Town, quando estava na faculdade. "Ele começou como um blog de beleza porque eu era muito complexada e tinha uma autoestima muito baixa para me posicionar como uma verdadeira ~blogueira de moda~", relembra.

Tudo mudou quando Yeboah foi à Nova York (EUA). Lá, ela encontrou várias "mulheres plus-size negras maravilhosas" e, por coincidência, conheceu também Nadia Aboulhosn. "A gente se conheceu de um jeito bem aleatório", conta. "Eu estava ficando em um AirBNB e a pessoa de quem eu estava alugando o apartamento era um ex-namorado dela. As duas finalmente fizeram contato e Yeboah revelou seu desejo de ser blogueira de moda. "Ela simplesmente disse: 'Corra atrás disso porque foi isso que eu fiz... É só tirar uma foto e postá-la na internet, independentemente do que forem falar" — e foi exatamente o que Yeboah fez.

Laura Gallant / BuzzFeed

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Fazer parte da comunidade plus-size e do movimento pela positividade corporal tem sido o que Yeboah descreve como uma "via de mão dupla". "Por um lado, tem sido maravilhoso estar cercada por um grupo de mulheres que se parecem comigo em termos de forma física — e que ainda são descaradamente autênticas, se amam e se dão conselhos".

Contudo, ela admite que a questão da diversidade ainda incomoda. "Estar em uma comunidade cheia de pessoas que têm a mesma forma física que você, mas então perceber que você é a única pessoa não branca ou a única negra fazendo as coisas me faz pensar: Por que não somos consideradas boas o suficiente para estarmos na linha de frente? Como chegamos a esse padrão de beleza dentro da positividade corporal, uma comunidade que supostamente deveria celebrar a diversidade? Por que o padrão de beleza ainda são as mulheres brancas, cis, fisicamente capazes, com maçãs do rosto altas e silhueta de violão?"

A frequente falta de inclusão tem feito Yeboah ter uma relação complicada com o termo "positividade corporal". "Sinto que o termo 'positividade corporal' virou um clichê. Não sou tão fã do que ele é agora. De certa forma, ele perdeu seu significado" diz.

"A positividade corporal foi criada para celebrar corpos gordos de todas as formas e raças. Mas, hoje, o conceito foi totalmente roubado de nós e é usado apenas para celebrar corpos brancos de qualquer tamanho. Não é nem mais sobre gordos. Hoje em dia, há um padrão de beleza no movimento pela positividade corporal e, enquanto esse padrão existir, não quero fazer parte dele, portanto simplesmente celebro ser gorda porque sou gorda".

Laura Gallant / BuzzFeed

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Por sua franqueza, Yeboah tem encarado uma quantidade alarmante de reações negativas, à qual ela tristemente diz estar "acostumada". Após escrever um post em seu blog sobre a importância da participação das mulheres negras no movimento pela positividade corporal, ela recebeu mais de 1500 respostas racistas e gordofóbicas, que ela descreve como "absolutamente chocantes", especialmente porque, em sua grande maioria, "a comunidade ficou em silêncio".

Apesar das dificuldades, Yeboah reconhece a importância de ser franca e enfatiza: "não vou me silenciar para que os brancos se sintam à vontade".

"Faço isso pelas mulheres negras e gordas do Reino Unido, pois sinto que precisamos de uma voz. Precisamos de alguém que nos represente, que conte nossas histórias e fale sobre nossas lutas... Estou fazendo isso por elas."


Lauren Nicole Coppin-Campbell, 19, blogueira e modelo plus-size.

Laura Gallant / BuzzFeed

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Lauren Nicole Coppin-Campbell trabalha como modelo há um ano e começou seu blog quando tinha 15.

"Para ser sincera, eu não teria começado a tirar fotos do meu estilo pessoal se não tivesse começado a seguir pessoas como a Gabi Fresh e a Nadia Aboulhosn", conta. Após assistir a um remake do videoclipe de "Flawless" (Beyoncé) com Aboulhosn, Tess Holliday e Gabi Fresh, Coppin-Campbell se apaixonou pelo que viu e passou a seguir todas elas nas redes sociais. Este foi o marco de seu primeiro contato com a comunidade plus-size.

"O movimento me ajudou a desenvolver minha autoconfiança, mas também a me sentir representada. Até então, não existiam mulheres negras gordas que também fossem vistas como belas, inteligentes, desejadas, amadas. Em vez disso, elas sempre eram vistas como 'a mãezona', ou 'a tia', ou 'a engraçadona', e eu acho que esse tipo de representação não é saudável para uma menina que não se sente à vontade ou confiante em relação a seu corpo. E, para mim, a mudança dessa visão é crucial, é bem importante."

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Encontrar mulheres para admirar foi fundamental para Coppin-Campbell. Ela sente que, sem mulheres como Gabi Fresh e Nadia Aboulhosn, provavelmente não estaria fazendo o que faz.

"Provavelmente não me sentiria tão autoconfiante. Provavelmente ainda estaria lidando com o transtorno alimentar que tinha. Não seria a pessoa que sou hoje se não fosse por elas".

Com relação à diversidade racial, contudo, Coppin-Campbell concorda que existe um problema na comunidade. "Há poucas modelos negras plus-size famosas. Não tenho o nome de nenhuma na ponta da língua, como tenho os de Ashley Graham ou Hunter McGrady."

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Segundo Coppin-Campbell, não é uma questão de não haver mulheres negras plus-size, mas simplesmente uma falta de oportunidade. "Elas não recebem o mesmo destaque que as modelos brancas", explica.

Entretanto, nem sempre é fácil se manifestar sobre esses problemas, e o fato de se tornar uma influenciadora vem acompanhado de certa pressão. "Acho difícil me posicionar quando existe essa quantidade de gente observando o que você faz, se apegando a coisas que você diz", conta. "Posso ter dito algo ontem ou há dois meses, mas isso não significa necessariamente que hoje eu ainda acredite na mesma coisa que disse há dois meses ou ontem".

Ainda assim, aos 19 anos, Coppin-Campbell afirma que faz isso pelo seu eu mais jovem, que se sentia desconfortável com seu corpo e com quem era. "Ela não gostava da sua aparência, não gostava do jeito como se sentia, chorava quase o tempo todo, não se olhava em espelhos. Isso é para aquela menina de 15 anos".

Olivia Campbell, 31, modelo plus-size e influenciadora nas redes sociais.

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Apesar de ter sido recrutada várias vezes quando era adolescente, Olivia Campbell não pensou em virar modelo até os 22 anos. "Eu odiava minha aparência e pensava que aquelas pessoas só podiam estar tirando com a minha cara," explica. Mas seu desejo de ter alguém que a representasse, além da "beleza magra e branca", foi um dos motivos que a motivaram a começar a trabalhar na área. "No início, comecei a modelar puramente para fazer as pessoas se sentirem maravilhosas e verem que o padrão de beleza vigente era uma bobagem".

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Ela levou anos para se tornar a pessoa autoconfiante que orgulhosamente continua a ser, mas "não foi algo instantâneo". "Se você me dissesse aos 15 anos que eu seria uma modelo plus-size e teria essa plataforma na internet onde as pessoas estão interessadas pelo que faço, eu diria: 'até parece'".

Realmente, é algo totalmente diferente do ela imaginaria no passado, no qual ela queimava cada foto que tinha de si mesma e se recusava a se olhar no espelho. "Não fiquei mais magra, não fiquei mais perfeita. Estou mais gorda, mais velha, o corpo está desistindo", diz, rindo, "Mas tenho toda a autoconfiança que nunca tive, porque não tem mais a ver com o que as outras pessoas pensam".

Assim como Stephanie Yeboah, a experiência de Campbell no movimento pela positividade corporal é de que ele "foi embranquecido, de certa forma". "Quando comecei, não fazia ideia de que havia essa comunidade toda online. Não sabia que ela existia, e ela está crescendo cada vez mais. Mas também tem o Instagram e todo esse 'Vou me sentar nesta posição, olhem para os meus pneuzinhos'. Aí a pessoa fica de pé, veste 42 e é sarada! — quando uma pessoa magra usa a hashtag #positividadecorporal isso é condescendente com toda mulher que é realmente gorda. Explico: todo mundo tem direito a gostar de seu corpo seja lá como ele for. Mas você tem um corpão! Você pode dizer apenas: 'Sou abençoada!'"

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Quando Philomena Kwao, uma modelo plus-size negra de Londres, tuitou "a indústria plus-size tem um problema racial grave", Campbell a retuitou quase que imediatamente. "É imensamente racista, como toda indústria da moda, como quase todas as indústrias. Só é gritantemente óbvio por ser uma indústria que é baseada em imagem".

Segundo Campbell, além do racismo, o colorismo também é uma parte vital do "problema racial" da indústria. "Eu sou o padrão da negritude [na indústria] e, cara, eu sou muito clara, eu tenho pele cor de marfim!", brinca. "Sim, eu sou uma mulher negra", diz, mas estabelecer seu tom de pele como regra para negras na indústria é "sacanagem".

De qualquer maneira, ela é otimista que moda caminhará rumo à diversidade e inclusão. "As pessoas sempre dizem: 'Ah, você acha que a positividade corporal é só uma moda?' Pode até ser, mas não vão se livrar tão facilmente de nós", diz. "Independentemente de ser uma moda ou não, não me importa. Ainda estaremos aqui no final."

Olakemi Obi, 27, modelo plus-size, fundadora da campanha Plus is Diverse.

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A jornada de Olakemi Obi como modelo começou há quatro anos, ao ser recrutada para uma competição plus-size chamada Ms Curvaceous UK e ficar entre as cinco finalistas. Foi aí que ela percebeu que tinha o potencial para seguir uma carreira como modelo, que começou dois anos depois.

Antes de ser recrutada, trabalhar como modelo nunca havia passado pela cabeça de Obi, mas ela se lembra de quando viu uma modelo plus-size negra pela primeira vez: Toccara Jones no America’s Next Top Model. "Eu pensei: 'Eita, o que está acontecendo aqui? Peraí, eu posso ser como ela!'" Apesar de isso não tê-la influenciado na época, Obi diz que, depois da competição Ms Curvaceous, se lembrou de pessoas como Jones e disse: "Sim, eu também posso".

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Mas abrir espaço na indústria não é fácil e, apesar de receber várias mensagens de mulheres negras perguntando como fazer o que ela fez, Obi admite que é difícil aconselhar outras pessoas. "Será que as agências de modelo realmente aceitam modelos negras plus-size?", pergunta. "Você tem que insistir e fazer muitas coisas por conta própria."

Nesse espírito de "fazer por conta própria", Obi criou com três outras mulheres — Philippa Ann, Danielle Nash e Aliya — a campanha Plus Is Diverse, com o objetivo de mostrar que "mulheres plus-size também deveriam ser diversas". "Sempre se fala em diversidade das mulheres plus-size em relação a tamanho, mas quando falaremos sobre diversidade na representação racial também?, insiste Obi.

"Que toda mulher saiba que pode se identificar com alguém que esteja sob os holofotes de alguma forma. Foi isso que inspirou a iniciativa". Segundo ela, "Não era para ter durado tanto quanto durou", mas as pessoas parecem adorar a campanha e querem apoiá-la.

Apesar do próprio trabalho que vem fazendo, a indústria ainda é amplamente carente de representatividade de mulheres negras e, mais do que isso, de mulheres negras de pele escura. "Em um ensaio recente, um cliente disse: 'Eu não conseguia achar nenhuma modelo negra plus-size no Reino Unido. Fiquei tão feliz quando te encontrei. Te achei maravilhosa!', e eu pensei: 'Sério que eu fui a única modelo plus-size de pele escura que essa pessoa conseguiu encontrar?'"

Laura Gallant / BuzzFeed

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Entretanto, as histórias não param por aí. Obi também se lembra de ter ouvido de um estilista que teria que se esforçar mais, porque sua amiga modelo de pele mais clara tinha mais chances de ser contratada do que ela, o que ela tristemente reconhece como verdade. "Pode ser desencorajador se você não for muito determinada, mas a gente escuta essas coisas o tempo todo. Infelizmente, a questão do colorismo é parte da vida de uma pessoa negra".

Depois de ser acusada de ser uma "negra raivosa" por um conhecido, Obi momentaneamente pensou em acabar com os posts sobre diversidade no seu blog, mas felizmente mudou de ideia. "Não vou parar", declarou.

"Adoro diversidade e ponto final. É algo tão vibrante! Como alguém pode não gostar de diversidade? Não só para mim como mulher negra, mas para todas as mulheres. É bom poder ver alguém com quem você se identifique".

Rachael Sealy, 29, fundadora da UK Afrolista.

Laura Gallant / BuzzFeed

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A UK Afrolista, plataforma fundada por Rachael Sealy há seis anos, celebra o cabelo natural, a beleza, a positividade corporal e o empoderamento feminino. Originalmente destinada a conteúdo sobre cabelo natural, o site começou a abordar os demais temas nos últimos dois anos e meio.

A partir da experiência de quem sempre enfrentou dificuldade em se ver representada por "sempre ser maior", Sealy é ligeiramente cética quanto ao interesse "repentino" do mercado em mulheres gordas. "Essa eu não engulo", alega. "Não é como se eu não fosse capaz de ficar feliz por isso, mas eu me pergunto: Onde estava todo este interesse antes?", explica. "Não foi da noite para o dia que mulheres se tornaram gordas, então, de onde isso está vindo?".

Laura Gallant / BuzzFeed

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O termo "plus-size" é algo com que Sealy tem tido um relacionamento complexo. Apesar de "ser mais fácil caber em uma determinada caixa para conseguir trabalho", ela "não se considera plus-size como na definição da indústria" e às vezes tem dificuldades em encontrar o seu lugar.

"Acho que ser blogueira e influenciadora me expôs a uma situação complexa. Existe toda uma cena do plus-size e eu não sou tão grande quanto as outras garotas. Por isso, me pergunto: será que eu realmente me encaixo nessa categoria?".

Ela acrescenta: "Se você usar tamanho 60, você é uma influenciadora grande, linda, plus-size. O meu tamanho é 50, hoje em dia eu posso ser classificada como magra demais, mas, se eu for a uma loja, eu ainda sou gorda demais".

Por isso, Sealy diz preferir o termo "curvilínea" ou "cheinha". "O termo plus-size faz com que algumas pessoas se sintam chateadas porque é como dizer que elas não estão dentro da categoria normal, enquanto que 'cheinha' significa simplesmente que você tem um corpo mais cheio e só. Acho que serve para todo mundo".

Como Campbell, Sealy não acredita que o racismo nem a falta de diversidade sejam exclusivos da indústria da moda. Ela vai além e acredita que todo o discurso de "diversidade é uma fraude". "As pessoas usam esse termo só para fazer todo mundo se sentir desejado ou incluído, mas não fazem ideia do que diversidade significa", diz. "Não é nem um pouco real".

Laura Gallant / BuzzFeed

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Apesar disso, Sealy ainda acredita que ainda é sua responsabilidade falar sobre essas questões. "Às vezes dá vontade de desistir, mas aí eu vejo uma menina no Instagram que visivelmente não tem a menor autoconfiança em relação a seu próprio corpo por causa do que ela vê na mídia e penso: 'OK, eu ainda preciso continuar falando. Eu preciso falar, porque se eu não falar, ninguém vai fazer nada'".

"Acredito que fui colocada neste planeta para inspirar, animar e empoderar mulheres negras", diz. "As mulheres não precisam ser como todas as outras. Nós somos suficientes. Nós somos mágicas."





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A tradução deste post (original em inglês) foi editada por Juliana Kataoka.

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