Em obituário, mulher que morreu de câncer desabafa sobre gordofobia na medicina

Ellen Maud Bennett, 64 anos, morreu em maio de um câncer inoperável.

BuzzShe

Quando Ellen Maud Bennett foi diagnosticada com um câncer inoperável e lhe foi dado apenas alguns dias restantes de vida, ela preencheu seus momentos finais na Terra com amor, bom humor e instruções específicas de como gostaria de ser lembrada.

A senhora de 64 anos que viveu em Newfoundland, Canadá, morreu em 11 de maio. No entanto, seu obituário, escrito segundo instruções dadas por ela em vida, vem sendo elogiado nos últimos dias por um grande número de pessoas que também já se sentiram discriminadas por médicos por causa de seu peso.

Um trecho do seu obituário diz:

Por fim, Ellen quis compartilhar [neste obituário] uma mensagem sobre a gordofobia [fat shaming] que sofreu por parte dos médicos. Nos últimos anos, já se sentindo doente, ela procurou ajuda médica e ninguém ofereceu nenhum apoio ou sugestão além da perda de peso. O último desejo de Ellen foi que mulheres gordas não deixem sua morte ser em vão – defendendo sua própria saúde e não aceitando que a gordura seja a única questão de saúde relevante [nos consultórios médicos].

Embora não esteja claro qual foi a experiência específica de Bennett com o sistema médico, suas palavras finais estão reverberando entre as pessoas.

Muitas têm compartilhado o obituário e aplaudido sua mensagem nas redes sociais, assim como no site Legacy.com.

"O tratamento que ela recebeu dos médicos, como foi descrito, me deu muita raiva. Eu também sou gorda e tenho enfrentado a negligência e a hostilidade dos médicos. Poderia ser difícil de acreditar se eu mesma não tivesse passado por isso", escreveu uma pessoa no Legacy.

"Você é uma heroína. Obrigada por este seu presente para todas nós com sobrepeso, precisávamos que este assunto viesse à tona", disse outra.

Bennett está longe de ser a única pessoa a denunciar a gordofobia em consultórios médicos. Existe um histórico conhecido de discriminação e preconceito contra obesos, tanto por médicos quanto por estudantes de medicina. Um estudo de 2003 constatou que mais de 50% dos médicos consideravam pacientes obesos como "estranhos, pouco atraentes, feios e desleixados". Outro estudo de 2014 constatou que 67% dos estudantes de medicina desconheciam seu próprio preconceito contra obesos.

Michael Orsini, professor da Universidade de Ottawa, que pesquisa como as atitudes sociais em relação ao peso impactam políticas mais amplas, disse que o problema vai além da comunidade médica. "Nós, como sociedade, associamos obesidade com saúde precária, comportamento irresponsável, pessoas preguiçosas, pessoas que não se importam com sua saúde e pessoas que não têm força de vontade para manter seu peso em um nível aceitável, qualquer que seja esse nível", disse ao BuzzFeed News.

No entanto, no sistema de saúde, esse preconceito pode levar os médicos a ignorarem as preocupações dos pacientes e dizer que eles apenas precisam perder peso. Isso, por sua vez, pode fazer com que pacientes com sobrepeso evitem procurar tratamento médico. "Os efeitos são reais, pois se as pessoas evitam o sistema de saúde para evitar a gordofobia, pode já ser tarde demais quando forem e algo que não está relacionado ao seu peso for diagnosticado", disse Orsini.

Dado o longo histórico de preconceito contra obesos na medicina, Orsini não se surpreende ao ver que o obituário de Bennett se tornou viral. “Ela deixou bem claro que não queria que sua morte fosse em vão, que gostaria de fazer um chamado para outras pessoas que passaram por experiências similares”, disse.

Além da sua luta no sistema de saúde, o obituário de Bennett a descreve como uma amante da moda, frutos do mar e arte. “Por favor, lembrem-se da Ellen da próxima vez que lerem um bom livro, forem se divertir ou comprarem um pequeno objeto de rara beleza. Perdemos uma mulher extraordinária”, disse o obituário.

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A tradução deste post (original em inglês) foi editada por Luísa Pessoa.

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