É assim que são alguns dos pequenos comércios ao redor do mundo

O livro do fotógrafo Vladimir Antaki, "The Guardians" [Os Guardiões, em tradução livre] explora os espaços únicos e curiosos onde a paixão vira negócio.

Jainul Abedin, jornaleiro em Nova York.

Vladimir Antaki

Fazer compras nunca foi tão fácil como é hoje em dia, graças a varejistas online como Amazon. Segundo o portal de estatísticas Statista, estima-se que 2,14 bilhões de pessoas no mundo todo farão compras online até o ano 2021. Mas com essa facilidade recente de acesso 24 horas às compras, competir com grandes varejistas online também tem sido cada vez mais difícil para empreendedores e artesãos locais .

Publicidade

Vladimir Antaki

O fotógrafo Vladimir Antaki viaja pelo mundo para documentar os espaços únicos e curiosos onde a paixão vira negócio. Seu livro "The Guardians", publicado pela editora Kehrer Verlag, é uma coletânea de retratos tirados em suas jornadas, nas quais fotografou comerciantes em seus locais de trabalho. O que essas fotos revelam é algo que não pode ser comprado ou vendido online: humanidade.

Aqui, Antaki compartilha com o BuzzFeed News uma seleção de retratos de "The Guardians" e suas palavras sobre como o projeto foi criado.

"A maneira como as pessoas fazem compras mudou consideravelmente no decorrer dos últimos 20 anos, e a internet tem redefinido todas as regras. Se é possível comprar de forma mais rápida e barata no conforto do seu próprio lar, então por que alguém deixaria de fazê-lo?

Lojinhas de bairro não conseguem competir com esse tipo de força de ataque. E como a profissão é menos valorizada do que costumava ser, essas lojas vendem menos. Enquanto isso, os valores dos aluguéis continuam a aumentar devido à gentrificação crescente, o que faz com que as pequenas empresas sintam a pressão e sejam forçadas a fechar. Várias histórias apresentadas no meu livro confirmam que esse é um problema global.

Foi isso o que me inspirou a tornar essas lojas mais visíveis: dar uma voz aos comerciantes. Acredito no poder de uma bela foto. As pessoas ficam curiosas quando veem minhas fotos — elas param e perguntam".

Publicidade

Henri Launay, médico de bonecas em Paris.

Vladimir Antaki

"Quando abri minha loja em 1964, eu costumava consertar artigos de couro e guarda-chuvas. Naquela época, consertadores de guarda-chuvas também consertavam bonecas. ... Tenho uma necessidade física de vir à minha loja todos os dias. É o meu universo."


Publicidade

Robert Perry, dono de bar na Filadélfia.

Vladimir Antaki

"Este lugar não é meu, este lugar é de todos que vêm aqui e deixam um pedacinho de si aqui de alguma maneira maravilhosa. E ele muda todo dia e toda noite, e isso é o que faz dele minha paixão absoluta."


Mario Antonio Hernández Escamilla, escultor e restaurador no Mexico.

Vladimir Antaki

"Meu trisavô Margarito Hernández foi o primeiro escultor na nossa família. Duzentos e quatro anos mais tarde, sou o décimo segundo escultor desta dinastia e, infelizmente, o último."


David French, vendedor de antiguidades em Londres.

Vladimir Antaki

"É um lugar ótimo para trabalhar. Não só se está cercado por objetos lindos, mas também há a sensação maravilhosa de conversar sobre história todos os dias com pessoas diferentes, e você continuamente aprende coisas novas."


Bill Kasper, vulgo The Birdman, dono de uma loja de discos em Nova York.

Vladimir Antaki

"Muitas pessoas olham pela porta e dizem, 'Oh, olha só o que tem lá dentro, que desastre.' Mas então vários amigos delas dizem, 'Oh, o velho sabe exatamente o que ele tem e o que ele não tem.' Se não tiver medo de entrar, você provavelmente vai acabar comprando um monte de coisas."

Mehmet Öztekin, consertador de gramofones em Istambul.

Vladimir Antaki

"Sinto saudades dos velhos tempos, quando um aprendiz aprendia com um mestre. A transmissão do conhecimento é essencial para manter uma profissão viva."

Marie Gagné, vendedora de antiguidades em Montreal.

Vladimir Antaki

"Esta loja tem apenas um objetivo: fazer as pessoas felizes. Não nos levamos a sério. Aqui o tempo para, e nos encontramos em outra era."

“Baba” Conrad Sarr, engraxate em Paris.

Vladimir Antaki

"Este lugar é feito de conexões humanas. Alguns dos momentos mais felizes da minha vida aconteceram aqui. Conheci muita gente através do meu trabalho."

Habouba Ishac, costureira em Beirute.

Vladimir Antaki

"Larguei meu emprego em 1990 para trabalhar com a minha mãe. Ela trabalhou aqui até sua morte em 2006, aos oitenta e três anos. Continuei o trabalho dela modernizando-o e criei novos itens."

Curtis Anthony, vendedor de bicicletas na Filadélfia.

Vladimir Antaki

"Sou abençoado. Amo o que faço. Tratamos as pessoas como quem quer que elas voltem."

Denise Acabo, chocolateira em Paris.

Vladimir Antaki

"Minha loja oferece quase uma centena de artigos de confeitaria e chocolates orgânicos feitos por artesãos chocolateiros franceses, tais como Bonnat, Bochard e, claro, Bernachon. Meus clientes vêm de todo o mundo."

Dominique "Ménick” Perazzino, barbeiro em Montréal, no Canadá.

Vladimir Antaki

"Minha barbearia é um local amigável e familiar. Os frequentadores assíduos se misturam com os novos clientes. A barbearia do bairro sempre foi um ponto de encontro."

"Encontros aleatórios também são uma parte grande do meu processo criativo. Gosto de pensar em cada cidade como um labirinto no qual me divirto ao me perder e encontrar "tesouros".

Minha abordagem em "The Guardians" é baseada em um princípio de perambulação arriscada: acredito que não ter referência e entrar espontaneamente nesses templos urbanos força encontros inesperados. Meu objetivo principal é fazer com que essas pessoas pareçam majestosas em seu próprio ambiente.

O primeiro retrato foi tirado em Nova York, no verão de 2012. Enquanto esperava pelo meu trem na Times Square, 42nd Street, vi um homem com uma postura imponente trabalhando em uma banca de jornais. Ninguém estava prestando atenção nele. Talvez seja só em Nova York, mas ninguém parece perceber mais nada.

Tirei uma primeira foto dele, depois uma segunda, anotei o endereço de e-mail dele e peguei meu trem. Foi só uns meses mais tarde, após documentar alguns comerciantes em Montreal e Paris, que o projeto deste livro nasceu.

Cada retrato também é tirado nos primeiros minutos do nosso encontro, de estranho para estranho. Um aspecto muito importante do meu trabalho é que o meu público possa se identificar com a expressão do Guardião (o fotografado) e se conectar a ele em um nível humano.

Meu encontro com o Mario Antonio Hernández Escamilla na Cidade do México, por exemplo, foi bem especial. Quando conheci Don Mario, ele parecia angustiado e precisava desabafar. Deixei que ele falasse por quase 45 minutos antes de conseguir convencê-lo a deixar que eu tirasse sua foto. Foi aí que percebi que o conhecimento dele, passado de pai para filho por 12 gerações, iria desaparecer com ele. Isso me comoveu profundamente.

A minha esperança é de que a estética das minhas fotos chame a atenção de mais pessoas e deixe-as curiosas sobre as histórias por trás das fotos, a ponto de mudarem seu comportamento como consumidoras e ajudarem a manter essas lojas abertas pelo maior tempo possível.

Quando era criança, eu costumava fazer amizade com os comerciantes locais e me perdia em seu mundo belo e intrigante. Vê-los desaparecerem um após o outro realmente me entristece, e eu sinto que é o meu dever como artista prestar tributo a eles fotografando seus templos urbanos e ajudando a preservar suas memórias ao compartilhar suas histórias".

Saber que o conhecimento de alguns dos meus Guardiões irá desaparecer quando eles se forem realmente me entristece. Este livro é o meu presente a eles e a todos que se recordam e queiram se recordar. Para saber mais sobre o trabalho do Vladimir Antaki ou adquirir sua cópia (em inglês) de "The Guardians", visite www.vladimir-antaki.com.

Este post foi traduzido do inglês.