Como o orientalismo persiste e continua a marcar presença no cinema americano

A ira direcionada aos críticos de "Ilha de Cachorros", filme de Wes Anderson, é um lembrete de quantas pessoas se recusam a entender que homenagens também podem menosprezar uma cultura.

Fox Searchlight Pictures

Atari Kobayashi (Koyu Rankin) em "Ilha de Cachorros", de Wes Anderson.

Em 2001, a comediante Sarah Silverman contou uma piada no programa "Late Night With Conan O'Brien" que provocou a ira de ativistas asiático-americanos e, de um modo perverso, provocou uma virada em sua carreira.

Ao tentar se livrar da convocação para fazer parte de um júri, Silverman relembrou a sugestão que um amigo lhe deu para escrever algo "realmente inapropriado" no formulário — algo como: "Odeio os 'chinks'", termo ofensivo para designar pessoas chinesas nos EUA. Mas, segundo Silverman, ela não queria pegar tão pesado, então optou por escrever: "Adoro os 'chinks'. Quem nunca?"

A rede que levou o programa ao ar, NBC, pediu desculpas pelo insulto alguns dias depois. No entanto, Silverman se recusou a pedir desculpas, optando, em vez disso, por brigar com Guy Aoki, o cofundador da Media Action Network for Asian Americans no programa "Politically Incorrect".

A comediante, que nos últimos anos mudou sua perspectiva sobre — e se afastou do — tipo de comédia que critica o racismo fazendo racismo, insistiu, naquele momento, que Aoki era um rabugento sem graça: "Não é uma piada racista", disse ela no "Politically Incorrect", "é uma piada sobre racismo."

Ela parecia não ouvir a opinião de Aoki de que um insulto continua sendo um insulto, mesmo sendo humor.

Ao relembrar esse momento específico de "desculpe por não me desculpar" e pensar em como essa discussão pouco avançou desde então, o que realmente incomoda não é apenas a implicação de que o racismo contra asiáticos é menos séria e menos real. Trata-se da facilidade conhecida disso tudo, dessa sensação de que é possível safar-se porque o que é relativo à Ásia é flexível o suficiente como identidade de modo que qualquer um teria o privilégio de fazer piadas sobre isso.

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A existência do orientalismo não é algo novo, embora ainda pareça ser novidade para muitos que exista algo de errado nisso.

Quando Edward Said escreveu o livro "Orientalismo", em 1978, mostrou o longo arco das concepções paternalistas da Europa sobre o Oriente Médio. Desde então, o termo se expandiu e se mostrou útil para a visão seletiva com que o Ocidente vê o Oriente — principalmente, considerando-se o propósito deste texto, a Ásia Oriental — e seus muitos pecados: exotificação, condescendência, apropriação, alteridade e tratamento geral do asiático como um bufê cultural no qual as pessoas se sentem à vontade para pegarem tudo o que querem e descartarem o que não lhes interessa.

O Orientalismo se manifesta na mercantilização da espiritualidade oriental pelo movimento New Age, pela liberdade de declarações sobre fetiches por "asiáticas" e pelo apagamento da sexualidade dos asiáticos. E o orientalismo aparece nas telas — em filmes, na televisão, em videoclipes musicais — com muito mais frequência do que representações de boa-fé, de modo que lutar contra isso tem sido uma constante há décadas pelo ativismo asiático-americano.

É um fenômeno que perpassa a história dos filmes americanos desde os primeiros dias, quando a carreira da estrela pioneira Anna May Wong foi reduzida a estereótipos que existem até hoje – com Wes Anderson, Jared Leto, Anna Wintour e Scarlett Johansson.

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Quando o racismo — na cabeça de muitos — ainda significa ódio público, a ideia de que também possa vir disfarçado de carinho é uma realidade que muitos não querem reconhecer. 

Por um lado, o fato de que o orientalismo persiste mostra como os criadores parecem não ter consciência do que fazem. Por outro, mostra como eles parecem se importar pouco com isso.

A existência do orientalismo não é algo novo, embora ainda pareça ser uma novidade para muitos que exista algo de errado nisso, ou que haja, de fato, uma diferença entre, digamos, a fetichização e trocas culturais legítimas.

Quando o racismo — na cabeça de muitos — ainda significa ódio público, a ideia de que também possa vir disfarçado de carinho é uma realidade que muitos não querem reconhecer.

No entanto, a ascensão dos mercados internacionais e da China, em particular, vem forçando Hollywood a ver a Ásia além de um esboço das suposições ocidentais.

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Boss (Bill Murray) em "Ilha de Cachorros".

O mais revelador após o lançamento do último filme de Wes Anderson, "Ilha de Cachorros" — um filme que trata indiscutivelmente das suposições ocidentais sobre o Japão — foi a diferença entre a crítica meticulosa e comedida (grande parte realizada por escritores asiático-americanos) e a resposta agressiva e desmesurada a elas on-line.

É como se mostrar a insensibilidade racial fosse pior do que qualquer ofensa por si só.

Os que responderam agressivamente às críticas formaram uma estranha aliança. Eram os devotos de Anderson, mas também aqueles que sempre se queixam na internet e extremistas. A maioria, a julgar pelos avatares no Twitter, era composta por homens brancos ou personagens de anime conscientes.

Porém, o próprio Anderson, cineasta que sempre foi desastrado com qualquer coisa relacionada à raça, descreveu seu filme como orientalista.

Na estreia do filme no Festival de Cinema de Berlim, em fevereiro, ele explicou que ele e seus colaboradores Roman Coppola e Jason Schwartzman queriam fazer um filme sobre uma matilha de cachorros e também queriam "algo no Japão", então as duas ideias foram combinadas: "A história poderia ter acontecido em qualquer lugar, mas juntamos as peças quando percebemos que deveria acontecer em uma versão fantasiosa do Japão".

E é isso que acontece, no Japão de um futuro próximo que também é definitivamente analógico, local onde acontece uma aventura de duas espécies um pouco inspirada nas obras de Akira Kurosawa e Hayao Miyazaki.

A maior parte dos talentosos atores é dos EUA. Os cães – na voz de Bryan Cranston, Edward Norton e Scarlett Johansson – falam inglês, enquanto os humanos falam japonês, o que frequentemente não é traduzido.

A maioria dos filmes de Anderson acontece em representações abertamente imaginárias de lugares reais, do sonho do forasteiro de Nova York em "Os Excêntricos Tenenbaums" à inventada república da Europa Oriental de "O Grande Hotel Budapeste". Nesse sentido, a cidade fictícia de Megasaki em "Ilha de Cachorros", juntamente com sua ilha adjacente de lixo e depósito de cães desprezados, não é diferente.

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Tracy Walker (Greta Gerwig) em "Ilha de Cachorros".

O que é diferente é o contexto cultural do mundo real: a tradição de alteridade Ocidental do Japão de Anderson parece despreocupadamente indiferente, mesmo quando ele participa disso. Por ser um filme stop-motion, utilizam-se bonecos em escala reduzida para representar os personagens na tela, mas eles também são diminuídos de formas mais figurativas, com um olhar destacado e impassível quando se trata da maioria dos humanos, com a exceção do jovem Atari Kobayashi (Koyu Rankin), de 12 anos, e da aluna intercambista Tracy Walker (Greta Gerwig).

Tracy, que lidera a resistência contra a opressiva liderança anticães de Megasaki, é a humana com a maior parte das falas em inglês e, com isso, muitas das expressões de emoção. Ela é a garota americana corajosa o suficiente para tomar a iniciativa quando nenhum nativo japonês se atreve a isso — algo frustrante e lamentável para os estereótipos sobre a conformidade asiática.

Não parece haver intenção maliciosa em "Ilha de Cachorros", mas o filme é marcado por uma miscelânea de referências que qualquer americano (como Anderson) poderia fazer se fosse pressionado a falar do Japão — bateristas taiko, animes, Hokusai, sumô, kabuki, haiku, flores de cerejeira e uma nuvem de cogumelo(!).

Ao longo do enredo, um wasabi envenenado é escondido no sushi, e há um personagem cientista chamado Yoko-ono, que é dublado por Yoko Ono. Isso tudo tem mais a ver (sem dúvida foi projetado e decorado intrinsecamente) com o que passa na cabeça de Anderson do que com qualquer lugar real. É o Japão puramente estético — e outra obra de arte que trata o Oriente não como uma metade do planeta viva, que respira, mas como um espelho para a imaginação ocidental.

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O problema de Anderson não é a ideia de criar um Japão fantasioso — é o sentimento subjacente de que ele não seria capaz de conceber um real. 

No fim de semana de estreia de "Ilha de Cachorros", várias reportagens perguntavam se o filme era um ato de apropriação ou uma homenagem. Porém, a pergunta é retórica — as duas coisas não são mutualmente exclusivas, e a primeira delas não fica automaticamente eliminada apenas porque a intenção do criador era a segunda.

Mais importante ainda: é possível que "Ilha de Cachorros" seja tanto uma história encantadora sobre o relacionamento da humanidade com os cães (tente dizer o título em inglês em voz alta, "Isle of Dogs", e parece "I love dogs") quanto um ato de apagamento. Ele é capaz de mostrar tanto o que seu diretor tradicionalmente fez muito bem quanto o modo com o qual optou por se concentrar diretamente em um dos seus pontos cegos mais evidentes.

A reação on-line às críticas ao filme também foram repletas de pontos cegos, com pessoas aumentando injustamente a discussão como um apelo à pureza cultural, insistindo que "os asiáticos de verdade" não se incomodam com nada disso, e mostrando o coescritor Kunichi Nomura — trazido por Anderson para dar dicas sobre especificidades culturais e para dublar seu vilão — como um tipo de escudo humano contra qualquer crítica.

No espaço entre esses dois lados da discussão, pode-se ver como algumas pessoas acham ameaçadora a sugestão de que sua intenção pode não importar tanto quanto a reação daqueles que se veem na tela. O problema de Anderson não é a ideia de criar um Japão fantasioso — é o sentimento subjacente de que ele não seria capaz de conceber um real.

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Netflix

Jared Leto no filme "The Outsider", da Netflix.

E sim, é possível fazer um filme de fantasia, mesmo ao tentar levar uma versão real do Japão à tela.

O novo drama do momento, "The Outsider", no qual Jared Leto interpreta um soldado americano que se junta à Yakuza no Japão pós-Segunda Guerra Mundial, recebeu menos atenção do que "Ilha de Cachorros" quando estreou na Netflix no início de março, mas está ainda mais conectado à ideia do Oriente a ser possuído.

Após anos em desenvolvimento, "The Outsider" foi de um projeto com grande potencial — com Michael Fassbender e Tom Hardy como possíveis estrelas — a um produto a ir direto para serviços de streaming. Pode-se interpretar isso como Hollywood fazendo mea-culpa, porém, isso não impediu que o filme fosse feito, gastando bons valores de produção e contratando uma estrela vencedora do Oscar.

A relativa falta de cobertura sobre "The Outsider" está parcialmente relacionada a este ser um filme original da Netflix, mas também sugere que obras como essa ainda são feitas sem qualquer consideração mais aprofundada. A premissa é aquela que se estende de "Lawrence da Arábia" a "Avatar": um homem branco é deixado em uma comunidade alienígena para que se torne parte dela, então se torna uma versão melhorada da cultura do que aqueles que nasceram nela.

É uma afirmação de supremacia da qual "The Outsider" não faz nenhum esforço para subverter ou divergir.

O filme acompanha um expatriado estrangeiro vinculado à Yakuza, que é recebido em um clã de Osaka depois de ajudar um membro de alto escalão (interpretado por Tadanobu Asano) enquanto ambos estão atrás das grades. Todo o restante acontece exatamente como você imagina, especialmente se já viu e lembra das batidas de "O Último Samurai". No fim, o estrangeiro se torna uma manifestação mais verdadeira da honra Yakuza do que o rival ressentido que sempre foi parte da família.

Projetos como "The Outsider" tendem a ser rotulados como atos de embranquecimento, mas o termo não se encaixa bem. O embranquecimento tem a ver com a intenção de narrar atores brancos sendo escolhidos para interpretar personagens que não são brancos ou que originalmente não eram retratados como brancos. Nunca ouve uma liderança asiática como centro de "The Outsider" — sempre foi, como o título diz, sobre um estrangeiro, e esse estrangeiro sempre foi (dados os esforços de seleção de elenco reportados) branco.

"The Outsider" seria melhor descrito como a mais recente versão de uma fantasia orientalista descarada que não é apenas sobre estereótipos asiáticos, mas que busca estabelecer um domínio sobre eles também (o cineasta Aaron Stewart-Ahn afirmou que em uma versão anterior do roteiro estava escrito que caucasianos teriam pênis maiores).

Talvez seja por isso que Leto interprete Nick com certa reserva incomum, como se não fosse um personagem que representasse o avatar do público. O filme não espera que o público se relacione com os personagens japoneses, mas com Leto, um branco no qual os espectadores podem se projetar.

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Timothy A. Clary / AFP / Getty Images

Rihanna, com um vestido da estilista chinesa Guo Pei, chega ao evento beneficente MET Gala em homenagem à exposição "China: Through the Looking Glass" em maio de 2015.

Em 2015, para sua exposição anual de primavera, o Costume Institute do Metropolitan Museum of Art apresentou uma exposição que era, literalmente, sobre a "asiedade" como roupa.

"China: Through the Looking Glass" foi uma exposição sobre a influência do oriente em estilistas ocidentais e atraiu um recorde de pessoas, levando a um dos momentos mais icônicos do tapete vermelho (de Rihanna) e alguns sussurros de controvérsia.

Obras de estilistas como Alexander McQueen e Yves Saint Laurent foram apresentadas ao lado de peças da coleção de arte asiática do museu ou projeções de filmes feitos ou ambientados na China.

Foi uma ode extravagante ao orientalismo, algo que a exposição reconheceu em seu texto introdutório, que explicava que o objetivo da exposição era "propor uma análise menos politizada e mais positiva do orientalismo como um local de criatividade infinita e desenfreada". A declaração sugeria que o orientalismo poderia ser uma conversa — "Como se, em um passe de mágica, a distância entre o Oriente e o Ocidente, abrangendo perspectivas muitas vezes percebidas como monolíticas e diametralmente opostas, diminuísse."

No entanto, nos bastidores da exposição não havia essa "mágica"; em vez disso, o local estava repleto de negociações tensas, como foi mostrado no documentário de Andrew Rossi de 2016 "The First Monday in May".

O filme mostra Andrew Bolton, curador do Costume Institute, e Anna Wintour, que preside o MET Gala e cujo reinado na "Vogue" englobou outros erros quando se trata de representações asiáticas, sendo constantemente desafiados sobre que ideia a exposição iria passar.

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Slaven Vlasic / Getty Images

Um conjunto Dior desenhado por John Galliano em exibição na exposição "China: Through the Looking Glass" do Costume Institute no Metropolitan Museum of Art em 2015.

O chefe do Departamento de Arte Asiática do MET temia sobre como o trabalho chinês atual seria transformado em pano de fundo para exposições que mostram principalmente a moda ocidental. O cineasta Wong Kar-wai, convidado para ser o diretor artístico da exposição, sugeriu gentilmente que justapor a obra relacionada de Mao Zedong e os Budas ofenderia tanto os chineses quanto os budistas. Um jornalista de Pequim questionou o porquê de a concepção da China na exposição estar repleta de iconografias clichês, como dragões e vasos Ming, e com foco no passado, dizendo: "todos nós adoramos a fantasia na moda, mas é muito provável que a fantasia também implique interpretações errôneas ou equívocas". Depois de sair, Wintour torceu o nariz desdenhosamente e disse: "Ela só quer que tudo comece em 1949".

Se o orientalismo é, como Bolton insiste em dizer, um "diálogo em andamento", a realidade sugere que apenas um lado sente a obrigação de escolher suas palavras cuidadosamente.

Os designers ocidentais parecem perfeitamente confortáveis com uma troca unidirecional, evocando obras baseadas claramente em uma fantasia. "É bom mesmo não ir ao país", ri Jean-Paul Gaultier ao falar sobre sua própria coleção com inspiração chinesa, dizendo que preferiu pensar na China como a viu representada em filmes e livros: "É melhor, eu acho."

John Galliano destaca o "a sensação de mistério e perigo" que sentia "por meio das representações de Hollywood" e como não tentou recriar um país de verdade na obra que homenageia a ópera chinesa, a gueixa e a rainha-mãe.

Quando Rihanna finalmente chega à escadaria do MET Gala com um vestido amarelo feito por Guo Pei, uma das poucas designers chinesas presentes na exposição, ela impressionou não apenas por sua beleza, mas porque aquele pareceu, de certa forma, um momento de intersecção cultural.

Por outro lado, grande parte do restante da exposição, embora suntuosa, pareceu estar sendo apresentada de um modo tematicamente fraudulento, como se algo inerentemente político pudesse ser neutralizado para que todos os envolvidos se sentissem mais confortáveis. Nem mesmo uma exposição que explicitamente reconheceu o orientalismo conseguiu descobrir como realmente falar sobre isso.

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Warner Bros.; Columbia Pictures

Restaurante com venda de macarrão em "Blade Runner: O Caçador de Androides" (à esquerda) e "O Quinto Elemento" (à direita).

O futuro, na tela, é frequentemente inspirado na Ásia. Isso tem sido feito desde pelo menos o surgimento da era do cyberpunk, quando escritores como William Gibson extrapolaram megalópoles realistas do futuro que refletiam os anos 80 em expansão do Japão.

Rick Deckard em "Blade Runner: O Caçador de Androides" e Korben Dallas em "O Quinto Elemento" fazem suas refeições em restaurantes com macarrão no cardápio, e os personagens em "Firefly" falam palavrões em mandarim. Tudo na franquia "Alien" existe com base na extensa e implacável empresa britânico-japonesa Weyland-Yutani Corporation. Esse tecno-orientalismo reflete tanto uma sensação de inevitabilidade sobre um futuro asiático quanto um medo dele, o que pode ser o motivo de por que os protagonistas dos filmes quase nunca serem asiáticos.

É como se, para que se considere um futuro no qual o Ocidente não é mais dominante, os não ocidentais que acompanham essa mudança tenham que se tornar invisíveis.

Isso fica bem evidente em "Blade Runner 2049", filme em que o futuro de Los Angeles tem menos rostos asiáticos ainda do que o apresentado nas telas há 35 anos, mesmo sendo maravilhosamente marcado por placas e propagandas enormes em várias línguas asiáticas e apresentando personagens de diferentes estilos com influência asiática.

Mesmo em visões do futuro em que os personagens asiáticos estão na tela, eles geralmente não são os protagonistas ou estão transmutados em corpos brancos.

O cenário anônimo da adaptação "A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell", do ano passado é, em partes, Hong Kong, onde algumas das sequências foram filmadas, e, em partes, Japão, com Takeshi Kitano dando ordens em japonês que seus subordinados de língua inglesa não têm dificuldade de entender.

O filme "A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell" foi muito criticado por escalar Scarlett Johansson como Motoko Kusanagi, transformando a personagem em alguém cuja consciência japonesa foi esvaziada na forma de uma mulher branca.

Essa troca de corpos na série de Netflix "Altered Carbon", de fevereiro, faz a mesma coisa, de um modo mais meticuloso e canônico, com seu anti-herói birracial Takeshi Kovacs (interpretado principalmente por Joel Kinnaman).

No entanto, a ótica de ambos, assim como a composição das populações replicantes em "Blade Runner: O Caçador de Androides", sugerem um limite para a imaginação de Hollywood — que mesmo em uma paisagem culturalmente caleidoscópica em que a fisicalidade é maleável, a branquidade continua sendo o padrão.

O mundo real, à medida que se inclina para um futuro em que o Ocidente não é mais dominante, não é cercado por tais limitações. Uma das coisas mais interessantes sobre o aumento da dependência de Hollywood por mercados internacionais tem sido que a indústria teve de reconsiderar lentamente, mas seriamente, seu público, não podendo mais depender de antigas suposições de que o mundo e a audiência massiva da China em particular aceitarão comprar a mesma coisa que sempre foi vendida.

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Jasin Boland / Universal Pictures

Jing Tian como CEO Shao Liwen em "Círculo de Fogo: A Revolta".

O sucesso da franquia "Velozes e Furiosos" e de "Pantera Negra" fora dos EUA só serve como mais uma evidência de que o mito que existiu por muito tempo de que a branquitude é o que os espectadores no exterior buscam é exatamente isso – um mito.

Porém, Hollywood também fez tentativas mais diretas, ainda que problemáticas, de atrair o público chinês. A estrela chinesa Jing Tian, por exemplo, começou a aparecer em sucessos de bilheteria americanos com uma frequência similar à presença de Scarlett Johansson em filmes ambientados na Ásia. E, embora o papel de Jing em "Kong: A Ilha da Caveira" não tenha sido digno de destaque, o lugar que ela recebeu em "Círculo de Fogo: A Revolta", como uma incrível CEO na área de tecnologia cujos objetivos são incertos, é uma admissão tácita de que o público principal do filme não é norte-americano.

Não é como se "Círculo de Fogo: A Revolta" ou o novo "Tomb Raider" — que pelo menos tenta lidar com a premissa orientalista de sua franquia e lança o arrojado Daniel Wu como o mais próximo de algum interesse amoroso — estivessem prestes a revolucionar o mundo ou destinados a deixar um legado artístico. Todavia, esses são sinais, sejam eles ainda problemáticos, de que uma indústria comercial está sendo forçada a abandonar suas tendências arraigadas e inquietantes — porque não pode se dar ao luxo de mantê-las.

As forças do mercado exigem que Hollywood pense no que o público da Ásia gostaria de ver (ou, pelo menos, com o que não se ofenderia), com executivos e diretores os reconhecendo não como conceitos abstratos ou comunidades tradicionalistas, mas como mercados modernos e complexos.

Esses sucessos de bilheteria improvisados podem não ser a melhor indicação de mudança, mas são uma indicação e também um lembrete da dinâmica de poder na raiz do orientalismo — que é sobre um espectador ser capaz de olhar para um grupo de pessoas e ver apenas o que quer ver.

Ver um filme de ação se contorcer na esperança de se adaptar ao público internacional é ver Hollywood tentando atravessar o oceano para buscar uma verdadeira compreensão de pessoas que não são mais um abstrato, mas as que podem manter a indústria viva.

Dezessete anos depois de Sarah Silverman ter ido à televisão e contado sua piada, ainda somos péssimos em falar sobre o orientalismo e o racismo antiasiático. A moeda chinesa yuan, por outro lado, é aparentemente bastante eloquente. ●

Este post foi traduzido do inglês.

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