Como o ex-advogado dos Bolsonaro foi parar em 'O Caso Evandro'?

Frederick Wassef é dono da casa onde encontraram Fabrício Queiroz.

Wasef em entrevista á Globo
Wasef em entrevista á Globo

Reprodução / TV Globo

A série "O Caso Evandro", do Globoplay, tem uma surpresinha no último episódio. Os mais atentos ao um capítulo extra nomeado "Caso Leandro", perceberam que um nome aparece ali como quem não quer nada: Frederick Wassef.

É uma junção de palavras tão única quanto familiar. Federalmente familiar. Wassef trabalhou como advogado da família Bolsonaro. Era na casa dele, em Atibaia, que Fabrício Queiroz estava escondido.

Cena da série O Caso Evandro, onde o nome de Wassef aparece grifado em um documento.
Cena da série O Caso Evandro, onde o nome de Wassef aparece grifado em um documento.

Reprodução / O Caso Evandro - Globoplay

Mas como uma figura-chave da política brasileira parou no Caso Evandro? Explicamos. 

Antes de mais nada vamos deixar claro: não há absolutamente nada que indique o envolvimento de Queiroz com o desaparecimento de Evandro, e nem do Leandro que batiza o episódio. Ainda assim, é interessante ver as coincidências - e conexões - que colocam Wassef no caso. 

A história começa com a injustiicável tortura dos acusados de matarem Evandro Caetano, de seis anos, em Guaratuba (PA), em 1992. Os responsáveis pela investigação, em dado momento, decidiram que fazer os réus confessarem o crime não era o bastante. Eles também deveriam assumir o desaparecimento de Leandro Bossi - criança sequestrada dois meses antes de Evandro, em circunstâncias parecidas.

Em meio a sessões de tortura, então, os acusados disseram que haviam raptado Leandro e o entregue para uma mulher estrangeira, loira e magra.

Essas acusações, então, recaíram sobre Valentina de Andrade.

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Valentina de Andrade nos anos 1990
Valentina de Andrade nos anos 1990

Valentina de Andrade. Foto: Reprodução - Revista Veja / Arquivo - Ivan Mizanzuk

Esposa de um argentino, ela estava em Guaratuba na época dos crimes. Mais especificamente, hospedada no hotel em que a mãe de Leandro trabalhava, onde a criança circulava com frequência.

Andrade é uma figura peculiar. Líder de um grupo chamado Lineamento Universal Superior (LUS), ela defende uma visão religiosa que mistura entidades cristãs com extraterrestres. Em seu site, por exemplo, ela afirma tanto que não devemos "confundir Jesus com Deus. São consciências antagônicas", quanto que "comandantes" nos trarão uma missão, e que as cumpriremos em naves "Uma delas possui exatamente, 795.000m".

Capa do livro "Deus, a grande farsa", de Valentina de Andrade. A capa é alaranjada e conta com a foto de um bebê de duas cabeças, com uma parecendo agonizar.
Capa do livro "Deus, a grande farsa", de Valentina de Andrade. A capa é alaranjada e conta com a foto de um bebê de duas cabeças, com uma parecendo agonizar.

Divulgação

Essa é a capa de um de seus livros.

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Entrevista de Wasseff à Globo
Entrevista de Wasseff à Globo

Reprodução / TV Globo

E daí? Bom, e daí que Wassef era membro do grupo. E estava em Guaratuba durante os crimes. 

Só que os fatos param por aí. E faz sentido: nunca houve nenhuma gringa para que os acusados tivessem entregue Leandro, porque essa história foi criada sob tortura. 

Coincidência demais? Ainda não se convenceu? Sua desconfiança não está só. Luis Carlos de Oliveira, era delegado de Guaratuba na época e resolveu investigar a fundo essa história. Ele pediu, inclusive, a prisão preventiva de quatro membros do LUS - entre eles, Wassef. 

O jornalista Ivan Mizanzuk, responsável pelo podcast que inspirou a série e pela maior parte da apuração moderna envolvendo o caso, organizou a história do envolvimento de Wassef nesta thread que contém, inclusive, o pedido de prisão. Curiosamente, o endereço citado no documento é o mesmo onde encontraram Queiroz, 28 anos depois.

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O desfecho.

Wasef em entrevista á Globo
Wasef em entrevista á Globo

Reprodução / TV Globo

Mas não passa disso. 

Como a Justiça não autorizou as prisões, Wassef nunca recebeu nem voz de prisão. "O próprio Oliveira hoje admite que errou, que eles não tem nada a ver com o caso", afirmou Mizanzuk em entrevista ao site Migalhas.

Ou seja, não há nada de concreto ligando os desaparecimentos com o advogado bolsonarista.

Ainda assim, foi nessa história com coincidências, espiritismo e aliens, que ele parou dentro do caso - e da série.

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