Como a tecnologia está sendo usada em relacionamentos violentos e abusivos?

A violência doméstica facilitada pela tecnologia é "um comportamento antigo com ferramentas novas".

Getty

Veja tudo o que você precisa saber sobre o abuso facilitado pela tecnologia:

Pode ser algo tão simples como uma mensagem de texto abusiva, mas às vezes pode ser mais sofisticado, como usar seu aplicativo de exercícios para rastrear seus movimentos, ou serviços que permitem mostrar um número falso na chamada para levar você a atender.

Alison Macdonald é a gerente de políticas no Domestic Violence Victoria (Violência Doméstica de Vitória), a entidade do estado de Vitória, Austrália, que lida com violência doméstica e familiar.

"Os smartphones e, em especial, os aplicativo que permitem o uso do GPS trouxeram esse novo elemento aos relacionamentos violentos e abusivos e estão presentes em quase todos os casos que vêm a ser cuidados pelos serviços de apoio", disse Macdonald ao BuzzFeed News.

"As mulheres, na maioria das vezes, são perseguidas através dos celulares, então a primeira coisa que o serviço de apoio faz é trocar os seus aparelhos".

Ela explicou que o abuso financeiro, quando o abusador controla o acesso da companheira ao seu próprio dinheiro, é melhor combatido com aplicativos bancários on-line, onde padrões de consumo podem ser monitorados.

"Ele não precisa estar fisicamente próximo para criar medo e pânico", disse Macdonald.

"As equipes nos centros de acolhimento às mulheres da Austrália, muitos dos quais funcionam em endereços confidenciais, geralmente precisam ensiná-las dos riscos na tecnologia do localizador GPS, instalada de fábrica em muitos modelos de aparelhos mais novos.

E os celulares dos filhos também, por isso elas precisam tomar o cuidado de, por exemplo, dizer aos filhos para não postar fotos com o uniforme da nova escola com a logomarca à mostra [o que pode identificar o novo endereço da família]."

O palestrante jurídico e criminologista especializado em violência doméstica, Hadeel Al-Alosi da Universidade do Oeste de Sydney, comenta que na mesma medida que evolui a tecnologia, também evoluem os abusadores que a usam para promover violência e manter controle.

"O abuso facilitado pela tecnologia pode tomar diferentes formas e incluir assédio por e-mail e mensagens de texto, uso de dispositivos de rastreamento para saber o paradeiro da vítima, invasão das contas em redes sociais e bancárias, ou espalhar imagens íntimas de uma pessoa sem consentimento", disse Al-Alosi ao BuzzFeed News. A pornografia de vingança consiste em alguém compartilhar ou ameaçar compartilhar imagens íntimas sem consentimento.

"Quando se trata da violência doméstica facilitada pela tecnologia as vítimas algumas vezes são incentivadas a 'deixar de usar a internet e telefones', e isso não ajuda em nada".

Karen Bentley é a diretora nacional do projeto Safety Net Australia (Rede de Proteção Australiana, em tradução livre), que auxilia organizações que trabalham com mulheres que passam ou escaparam de violência doméstica a saberem lidar com as muitas maneiras em que a tecnologia permite seus abusadores de monitorar e controlar as sobreviventes.

"Um dos nossos principais projetos é fornecer smartphones às sobreviventes para que possam ficar conectadas. Muitas vezes seus celulares foram destruídos ou quebrados pelo agressor, ou elas nunca tiveram a chance de ter um, porque ele controla seu acesso à tecnologia", disse Bentley ao BuzzFeed News.

"É imprescindível que as mulheres não se distanciem da tecnologia, já que atualmente é muito difícil tratar assuntos bancários ou se candidatar a empregos sem ela, fora que elas precisam poder ligar para a polícia, ou entrar em contato com seu grupo de apoio".

Bentley explica que essas mulheres precisaram virar a vida de cabeça para baixo e, muita vezes, a dos seus filhos, quando mudam para os centros de acolhimento, e o fato de ter sua localização exposta pode ser "extremamente traumático".

"Sabemos que a violência contra as mulheres tem a tendência de aumentar quando ela planeja partir ou assim que parte, e há o risco real de ser assassinada ou seriamente agredida, por isso ser encontrada é realmente muito perigoso e, caso ela tenha buscado algum desses serviços de apoio, para as mulheres que estão lá também".

Segundo Bentley, o elemento chave para entender a violência doméstica facilitada pela tecnologia é ver que ela é tão comum porque é "um comportamento antigo com ferramentas novas".

Publicidade

Getty

"Se você analisar os comportamentos típicos de um relacionamento abusivo e violento, atitudes como monitorar o que ela está fazendo, controlar suas finanças, restringir o que ela faz ou quem vê, isolá-la, ou abusar dela verbal e emocionalmente; essas são coisas que agora também podem ser feitas com a tecnologia", ela disse.

"Por exemplo, se levarmos em conta o que hoje é a pornografia de vingança, antes da internet, os abusadores tiravam fotos instantâneas, faziam cópias e enviavam por correio a familiares ou na vizinhança, mas agora é fácil ficar no anonimato on-line e existem sites específicos para compartilhar esse tipo de imagem".

Bentley disse que a forma mais comum de abuso facilitado pela tecnologia são as mensagens de texto: "‘Onde você tá?, ‘por que não responde?’, ‘me envie uma foto provando onde você tá’”.

Ela comentou que mulheres que saíram de um ambiente de abuso podem ficar isoladas sem acesso à suas contas bancárias e de serviços oferecidos pelo governo, que em geral são controladas pelo marido, que também tem os comprovantes das compras de telefones e notebooks.

Abusadores podem instalar softwares que monitoram o dispositivo e a localização do usuário, as mensagens de texto, fotos, vídeos, com quem a pessoa se comunica e o que diz no telefone de suas companheiras sem elas saberem.

Bentley comentou que existem muitos aplicativos benéficos, como de exercícios ou de transportes que armazenam dados de localização, que podem ser acessados por abusadores para monitorar os movimentos de suas companheiras ou de seus filhos.

Embora os membros de sua organização tenham percebido menos casos envolvendo "spywares", nos últimos seis a nove meses, Bentley disse que uma forma de abuso facilitada pela tecnologia que "já era vista por muito tempo" nos Estados Unidos, já chegou na Austrália — serviços que permitem mostrar um número falso na chamada.

Isso acontece quando alguém usa um aplicativo, site ou serviços de encaminhamento para disfarçar seu verdadeiro nome e número quando a sobrevivente está evitando o contato pelo celular. Eles podem usar um número aleatório, até um que pareça ser de um contato de confiança, para levar a sobrevivente a visualizar ou aceitar a chamada do abusador.

"Quando alguém usava serviços para disfarçar seu número no passado, era preciso rotear através do Japão e chegava aqui como ligação não identificada; mas agora ele pode ligar como se fosse o número da sua mãe sabendo que ela irá atender, ou pode acontecer, como alguns casos que tivemos, de o abusador mandar mensagens abusivas como se fosse dela para ele para fazê-lo parecer a vítima", Bentley disse.

As recomendações gerais para segurança virtual são "ótimas para a maioria das mulheres australianas", ela comentou, mas as sobreviventes de abusos facilitados pela tecnologia podem ser submetidas a um nível de vigilância, monitoramento e controle similares aos que são "dissidentes em um país", ela disse.

"Um abusador motivado pode com certa facilidade acompanhar, vigiar e fazer muito estrago de forma direta, anônima ou por um servidor proxy".

Se você está ou conhece alguém que está em um relacionamento abusivo, procure ajuda.

Você pode conversar com alguém da sua confiança, ligar para o 180, a Central de Atendimento à Mulher que funciona sete dias por semana e 24 horas por dia, ou procurar uma Delegacia da Mulher.

Este post foi traduzido do inglês.

Publicidade