Como a masculinidade tóxica contribuiu para que eu começasse a fumar

"Quantas vezes eu ouvi aquele 'fala que nem homem'? Pode parecer nada demais, mas essa masculinidade é tóxica, sim. Eu ia fumar tanto, mas tanto, que ia começar a falar mais grosso que o caubói da propaganda."

Reprodução/Camel

Este ano eu comemoro dois anos sem fumar. Dois anos! Eu finalmente conquistei algo na minha vida e nem eu mesmo acredito nisso. Talvez porque, ano após ano, minha lista de promessas era sempre a mesma: emagrecer, parar de fumar, beber menos e guardar dinheiro. A minha relação com o cigarro, a bebida e a comida (e por tabela com o dinheiro) era mais ou menos a mesma: eu sabia que tinha que mudar, mas o corpo pede por certos prazeres. E eu adoro um prazer.

Para entender como eu comecei a fumar, é preciso voltar 15 anos no tempo. É chocante fazer as contas e descobrir que, aos 30, eu já tinha sido fumante por 15 anos. Mas, quando se é tão jovem, o conceito de que cigarros matam não quer dizer nada. A adolescência é uma fase de descobertas e de quebra de regras. E o cigarro foi exatamente isso para mim.

Masculinidade tóxica

A primeira vez em que eu coloquei um cigarro na boca foi no intervalo entre a aula de português e biologia. Eu adorava as duas matérias e sempre estive entre os melhores alunos da escola. Além disso, eu era um menino gordinho escondendo sua homossexualidade de si mesmo e do mundo. Isso aí já seria suficiente para várias crises de ansiedade e algumas páginas de diário escritas por dia. Mas, apesar de adorar escrever, eu sempre fui mais prático do que dramático. Então a minha maneira de lidar com as minhas inseguranças era geralmente sublimando-as. Eu fingia que estava tudo ótimo comigo, que eu era muito seguro, maduro mesmo, sabe? Mas por dentro sempre carreguei a vergonha do mundo.

E é aí que entra meu amigo, o cigarro. Aos 15 anos, eu andava num grupinho de seis adolescentes. O que já era um milagre, pois todo mundo temia ficar sem um grupo naquela época. Só que a minha galera era meio inusitada: éramos eu e cinco meninas. Uma patricinha, sua irmã introspectiva, uma roqueira meio gótica, uma hippie, e por aí vai. Até hoje nos falamos e damos boas risadas de como agora fazemos muito mais sentido juntos do que naquela época. A mais saidinha da turma, a que beijou e perdeu a virgindade primeiro, foi quem nos alertou para a modinha. Fumou pela primeira vez com um menino de quem gostava e todos deveríamos tentar também. E foi assim que saímos da aula de português diretamente para a banca de revista para comprar um maço. Eu, que nunca tinha feito nada de errado na vida, fechei o meu caderno de anotações minuciosas com a certeza de que me transformaria.

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Ninguém chamaria meus pais para uma conversa se eu fosse flagrado comprando cigarros, pois eu era um menino. 

A decisão foi unânime e eu me tornei o responsável pela compra. Eu tinha cara de mais velho e, no mundo onde vivemos, um homem afeminado ainda é um homem e, por isso, goza de certos privilégios. Ninguém chamaria meus pais para uma conversa se eu fosse flagrado comprando cigarros, pois eu era um menino. E esta foi a primeira vez em que percebi esse privilégio. Ao longo da adolescência outras vantagens vieram, como não ter o medo de ganhar "má fama” na escola, não ter que seguir determinado “código de conduta” nas festinhas e até desconhecer os limites do que podíamos ou não usar como a parte de baixo do nosso uniforme. Eu lembro que as meninas adeptas ao shortinho mais curto eram mal vistas, mesmo num colégio liberal como o meu.

A missão foi cumprida. Comprei o cigarro sem nenhum problema e usaria aquela experiência por muitos anos até ter a idade legal para fumar. Eu e minha gangue de meninas fomos então a uma rua deserta nos arredores do colégio e tentamos por diversas vezes acender o tal do cigarro. Naquele momento, entre risadas e caras de medo, não nos demos conta de que estávamos nos apaixonando pela primeira vez. Eu havia encontrado o relacionamento mais estável que eu teria pelos próximos 15 anos. A coisa mais presente e mais fiel que eu já tive. Talvez nem um cachorro de estimação sobreviveria por tanto tempo.

Voltamos para a aula de biologia com aquela cara de quem tinha aprontado. Os colegas imediatamente perceberam que estávamos escondendo algo. É engraçado como os jovens se entendem. Eles não falam muito, com medo de errar, e por isso desenvolvem códigos silenciosos. Eu sentei na minha cadeira, meticulosamente escolhida no meio da sala para não ser fadado ao fracasso dos nerds da primeira fila e nem me perder com a galera do fundão. E senti o efeito imediato do cigarro. Eu olhava para os meninos da turma com outros olhos, de queixo erguido. Era como se um único cigarrinho (que eu nem tinha tragado) tivesse me dado toda a confiança que me faltava. Eu achava que aquela densa e malcheirosa fumaça que me enchia a boca fosse engrossar a minha voz, me deixar mais durão, mais respeitado diante dos meninos. E foi o que aconteceu. Não porque havia mudado alguma coisa de fato, mas porque mexeu com a minha autoestima.

A verdade é que eu morria de vergonha de mim mesmo e queria ser "mais homem". Um dos bullyings mais constantes que eu sofria na escola era por causa da minha voz. Eu já era vítima de chacota por falar fino e ter a voz anasalada, e, pra piorar, uma das minhas amigas se chamava Karen. Lembro perfeitamente do som dos meninos imitando a minha voz ecoando nos corredores: "Kaaaaareeeeeen!". E não eram só eles. Quantas vezes eu ouvi: "fala que nem homem" de pessoas da minha família? Pode parecer nada demais, mas essa masculinidade é tóxica, sim. E o cigarro me prometeu consertar isso. Eu ia fumar tanto, mas tanto, que ia começar a falar mais grosso que o caubói da propaganda. Eu ia virar homem de qualquer jeito.

E olha que não estamos falando de alguém que cresceu nos anos 50 ou 60. Estávamos em meados dos anos 2000, quando já se sabia abertamente dos males do cigarro. Meus pais sentiam o cheiro em mim quando eu chegava das festas, me questionavam e eu negava. Pronto, aquilo era suficiente para me deixarem em paz. Um garoto com boas notas, responsável, não tinha que dar muita satisfação em casa. E nem na rua. O cigarro e a bebida alcoólica sempre foram aceitos socialmente para os meninos. Eu me lembro de fumar e beber em festinhas de 15 anos na frente de pais e responsáveis e ouvir eles dizendo: "sabe como são os garotos, né?".

A vida adulta

Aos 18 anos eu entrei para a faculdade e imediatamente encontrei colegas com a mesma história que eu. Jovens querendo se afirmar e que já vinham da escola com o hábito de fumar. Então o nosso vício se solidificou e juntos fomos a bares, festas, enchemos a cara, fomos adultos pra caramba sem saber que éramos apenas bebês. Depois veio a saída do armário, a balada gay e a descoberta de um mundo onde eu não era um estranho, onde eu não tinha que esconder nada. Ou seja, eu não precisava mais do meu amigo cigarro. Eu podia ser gay demais, cada vez mais gay, sem que ninguém julgasse a minha masculinidade. Mas era tarde demais e a comunidade LGBTQ me recebeu de braços abertos e um cigarrinho na mão.

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A comunidade LGBTQ me recebeu de braços abertos, com um cigarrinho na mão.

No "meio gay" todo mundo era fumante. Naquela época, ainda era permitido fumar dentro das boates. Parece milênios atrás, mas não é. Conheci meus primeiros namorados (todos fumantes), me apaixonei e tive meu coração partido, sempre fumando pra curar a fossa. Havia beleza em ver um jovem fumando na balada. Era aspiracional, sensual, perigoso. O mesmo efeito de ver o Marlon Brando num filme de 50, 60 anos atrás.

Minha relação com o cigarro estava firme e forte enquanto eu me aproximava da casa dos 30. Eu jurava pra mim mesmo que não teria essa bobagem de querer mudar de estilo de vida só porque não tinha mais vinte e poucos anos. Isso porque eu estava cansado (ou ressentido) de ver as pessoas postando suas "transformações" no Instagram, perdendo não sei quantos quilos, entrando pro crossfit e meditando com a #gratidão. Aquilo pra mim era a coisa mais cafona do mundo e eu estava comprometido a continuar fumante, acima do peso e feliz, como sempre fui. Só que eu não sabia ainda do dia 3 de março de 2015.

Foi neste dia que eu conheci a sigla GBM. O meu pai foi diagnosticado com um tumor malígno no lado direito do cérebro chamado glioblastoma (GBM para os íntimos). Eu vi a minha vida desabar diante de mim e, para lidar com toda aquela dor, eu recorri ao cigarro. Ele era tudo o que eu tinha porque a minha mãe, minha referência de força, não tinha a menor condição de me ajudar naquela situação. E a minha irmã mais velha, que eu admiro tanto, também desabou. Então eu segurei firme, afinal, homem não chora, homem não desaba. Eu fiquei na minha por muito tempo e não deixei ninguém me ver sofrer.

Finalmente o ano de 2015 acabou e a esperança de um ano novo prometia uma renovação na minha esperança. "Nada poderia ser pior do que 2015, né?", era o que eu pensava. Só que eu não sabia de nada.

Parei de fumar

O novo ano veio e, com ele, o resultado dos exames do meu pai mostrando que a quimioterapia não estava adiantando e que o tumor avançava. Ali foi quando eu desabei. Aquilo foi um tapa na cara, como se a vida tivesse dizendo para aquele menino de 15 anos que ele não era especial coisa nenhuma. Foi o primeiro grande "não" que eu recebi da vida. E eu não soube lidar com ele. Como assim eu não consigo? Como assim não deu certo? Como?

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Foi aí que eu tive que aprender o que significava ser um homem de verdade. E isso não tinha nada a ver com segurar um cigarro.

Foi aí que eu tive que aprender o que significava ser um homem de verdade. E isso não tinha nada a ver com segurar um cigarro. Eu tive que arregaçar as mangas e partir para a guerra contra aquele tumor. O meu pai passou a fazer sessões de quimioterapia intravenosa a cada 15 dias na clínica. Antes, ele tomava os remédios em casa, mas, por causa da gravidade da doença, partimos para um tratamento mais invasivo. E esta "simples" mudança foi responsável pela crise no meu namoro com o cigarro. Não foi uma promessa de virada de ano, e sim a convivência semanal com pacientes oncológicos que fez isso comigo. Eu sofri o que eu chamo de tratamento de choque.

A cada sessão de químio que eu acompanhava, eu era levado para mais longe do meu cigarrinho querido. Eu passei a ter nojo dele. Eu olhava as pessoas amareladas pelos medicamentos, as peles feridas, as cabeças carecas, e via um sofrimento que eu simplesmente não podia comprar para mim. Eu estava ingerindo um câncer lentamente durante todos esses 15 anos e ele chegou perto demais para eu continuar fumando. A realidade é muito dura. Os enjoos são reais demais. E foi num dia qualquer na clínica, do alto da minha masculinidade frágil, que achava que eu precisava provar minha força para todo mundo, que eu encontrei a mulher que me fez parar de fumar.

Eu não sei o nome dela até hoje e nunca mais a vi novamente. Mas bastou um dia para ela mudar a minha vida. Eu a vi entrar na sala de espera da clínica e fatalmente me ative ao buraco no lado esquerdo da sua face. Ela era uma vítima do câncer de boca, algo bastante delicado que deixa alguns pacientes com dentes e gengiva expostos. Nossos olhos se encontraram e eu fiquei morrendo de vergonha de ter encarado sua fragilidade assim de modo tão escancarado. Mas ela não pareceu se incomodar com o meu olhar. Ela seguiu inabalável para o balcão de atendimento, depois se sentou e leu uma revista de fofocas. A coragem daquela mulher, de cabeça erguida, vivendo, lutando, foi a gota d'água para mim. Eu provavelmente não teria visto aquilo aos 15 anos e a verdade é que as fotos no verso do maço do cigarro não têm o rosto do seu pai, elas não te cumprimentam na sala de espera da clínica.

Hoje o meu pai continua o tratamento dele e já passou da sessão número 50 de químio, um feito que me emociona e me ensina diariamente sobre a força do ser humano. E hoje também eu sei que foi um conceito tóxico de masculinidade o que contribuiu para eu começar a fumar e acabar me viciando por tanto tempo. Mas foi justamente a força de uma mulher desconhecida que me fez parar de fumar. E ela nunca soube disso.

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