Caso Evandro: episódio novo mostra o impacto da série na vida real

Com depoimentos inéditos e possíveis caminhos para a solução do caso, o episódio é uma adição bem-vinda.

Ivan no novo episódio da série.
Ivan no novo episódio da série.

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Na vida real, a história não acaba depois de oito episódios. E é nesse espírito que a série 'O Caso Evandro', do Globoplay, entregou (mais) um capítulo extra. Ao longo de 58 minutos, o episódio se foca em mostrar como a série impactou o andamento do caso fora das câmeras. 

Se você não sabe sobre o que se trata a série, um resumão rápido: 'O Caso Evandro' é um documentário que desconstrói a versão policial sobre o desaparecimento de Evandro Caetano, um menino que, em 1992, desapareceu na pequena cidade paranaense de Guaratuba. À época, os policiais e o júri condenaram sete réus que confessaram matar a criança em um ritual. O documentário, no entanto, mostra que as confissões foram obtidas sob tortura.

O episódio já começa prometendo algo esperado pelos fãs: uma entrevista com Osvaldo Marcineiro.

Osvaldo Marcineiro em depoimento à série
Osvaldo Marcineiro em depoimento à série

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Um dos principais acusados no processo, Osvaldo se manteve recluso desde que saiu da prisão em 2011, negando-se, inclusive, a participar da série. 

O depoimento é emocionante. Osvaldo denuncia os maus tratos que sofreu enquanto estava sob responsabilidade do estado. Afirmando, com o testemunho de Isabel Kugler Mendes (advogada especialista em Direitos Humanos), que foi obrigado a passar um ano sem poder tomar banho, cortar a barba ou o cabelo. 

Osvaldo conta também que a história dilacerou sua vida. Seus filhos e parentes haviam escondido o sobrenome Marcineiro, e ele mesmo já teve que se mudar de cidade para fugir da perseguição que a fama de bruxo-matador-de-crianças lhe trouxe. 

O pai de santo conta como a repercussão da série o ajudou, e está fazendo ele próprio, mas principalmente sua família, a retomar as rédeas da narrativa e contar sua versão da história.

Os depoimentos de Osvaldo e seus filhos são facilmente alguns dos mais emocionantes de toda a série.

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O mais interessante, no entanto, talvez sejam as possibilidades que a série trouxe para algo que ninguém mais esperava: a solução da morte de Evandro.

Televisão com retratos de desaparecidos, mostrados na série
Televisão com retratos de desaparecidos, mostrados na série

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Ivan Mizanzuk, responsável pelo podcast que deu origem à série - e uma espécie de narrador da produção - volta com uma atualização interessante: depois da exibição do primeiro episódio, um dos garotos que aparece entre os vários cartazes de crianças desaparecidas da região lhe chamou no Instagram. 

Hoje adulto, Alex Anderson conta que Elias Generoso da Rocha lhe pegou na rua horas depois de ter decidido fugir de casa, e lhe fez rodar o Brasil com ele. 

Anos mais tarde, Rocha foi preso acusado de abusar de mais de 30 crianças - e matar quatro delas no Paraná e em Santa Catarina. 

Segundo Ivan, há a possibilidade de Rocha ter sido responsável também pela morte de Evandro. A comprovação estaria em um caderno do criminoso, que está perdido em alguma delegacia paranaense. Talvez, esse novo episódio fosse o empurrãozinho que faltava para encontrá-lo.

Ainda neste episódio vale destacar os momentos que mostram o impacto da série na família Abbage.

Beatriz e Celina Abbage em novo depoimento à serie
Beatriz e Celina Abbage em novo depoimento à serie

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Não se entra tanto em detalhes sobre a ação judicial que a família já anunciou que quer iniciar. 

Foca-se, no entanto, muito no apoio que o grupo do Facebook (apresentado nesta outra matéria) e em como a percepção popular do caso ter mudado, ajuda a família a se reerguer.

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O episódio do começo ao fim, aliás, avança um pouco mais numa questão pouco abordada nos capítulos anteriores: a culpa da imprensa, mas principalmente da Rede Globo na condenação dos acusados.

Tela com o texto:  "Culpar a imprensa, e a Globo em particular , tornou-se o recurso daqueles que não têm explicação para seus erros. Toda cobertura jornalística é passível de críticas, especialmente uma de três décadas atrás, quando o preconceito em relação às religiões africanas não era percebido - e denunciado - como hoje.
Tela com o texto:  "Culpar a imprensa, e a Globo em particular , tornou-se o recurso daqueles que não têm explicação para seus erros. Toda cobertura jornalística é passível de críticas, especialmente uma de três décadas atrás, quando o preconceito em relação às religiões africanas não era percebido - e denunciado - como hoje.

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Seja na música que encerra a série, ou no depoimento do então governador do Paraná, Roberto Requião, o canal é repetidamente acusado de repassar (sem a devida apuração) informações vazias e a disseminação de preconceitos. 

A resposta do canal aparece no produto de forma engessada, como um letreiro com textão escrito por Ali Kamel, diretor de jornalismo da emissora. Um mea culpa fraco demais, ainda mais quando vemos o impacto que essa história teve na vida dos acusados. 

O comunicado fica ainda mais vazio neste episódio, quando em vários momentos temos a impressão de que a produção está dando um tapinha nas próprias costas, se parabenizando pelos impactos (agora positivos) da série. O que é legítimo, claro, mas traz lampejos de uma vaidade que nunca poderia se tornar o foco da história.

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