Aqui está tudo o que você precisa saber sobre endometriose e fertilidade

Até um quarto das mulheres com endometriose não apresentam sintomas.

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Segundo um estudo de 2009, 1 em cada 10 mulheres tem endometriose durante seus anos reprodutivos. Na doença, células semelhantes às que revestem o útero crescem fora do útero, levando a todos os tipos de sintomas, incluindo dor debilitante.

Até um quarto das mulheres com endometriose são assintomáticas, mas a maioria apresenta dismenorreia (períodos dolorosos), dor pélvica crônica e relações sexuais dolorosas, e entre 30 e 50% das pacientes com endometriose lutam com a infertilidade.

Endometriose e infertilidade "andam de mãos dadas", contou o cirurgião de ginecologia e laparoscopia avançada de Melbourne, Dr. Kenneth Leong.

"No nível mais básico, a endometriose pode causar cicatrizes nas tubas uterinas, o que interrompe a fertilização porque o óvulo não é coletado todo mês e viaja para onde pode ser fertilizado", Leong, que se subespecializou em infertilidade e fertilização in vitro, disse ao BuzzFeed News.

"Eu tenho muitas pacientes que, pelo fato da endometriose ser subdiagnosticada, elas vêm me ver, e muitos anos depois, elas têm toda essa inflamação, destruição do tecido e distorção da anatomia pélvica, e tudo isso contribui para a infertilidade", disse ele.

"Em casos realmente graves em que você tem essa inflamação e sua cavidade pélvica está realmente muito inflamada por causa da doença, a qualidade do óvulo pode realmente ser afetada, e há estudos que mostram que isso pode afetar a qualidade do revestimento endometrial, o que afeta a implantação do óvulo", disse ele.

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Ken Leong/Instagram

Leong disse que o “padrão-ouro” para diagnosticar a endometriose continua sendo uma laparoscopia — uma cirurgia para examinar ou operar no interior das cavidades abdominais ou pélvicas.

"Durante uma laparoscopia, você pode ver as lesões, removê-las completamente e obter alguma amostra de tecido para confirmar que é endometriose", disse ele.

"Se estiver nos estágios iniciais, será muito fácil tratar, e você só a elimina completamente quando ela não fez dano suficiente para destruir suas tubas uterinas e órgãos reprodutivos".

"Nesse estágio, eu faria a paciente usar um anticoncepcional, se ela ainda não estiver pensando em engravidar, e a faria aguardar".

A contracepção hormonal pode ser usada para tratar os sintomas da endometriose para suprimir a menstruação (que é quando os sintomas da endometriose podem ser piores) ou substituí-la por uma versão mais branda, sem sangramento.

Algumas pacientes farão uma laparoscopia e terão a endometriose removida, bem como, potencialmente, suas “tubas lavadas”, disse Leong, antes de tentarem engravidar.

"Até 80% das minhas pacientes têm endometriose, e acho que cerca de 30% delas engravidam dentro de três a seis meses após o tratamento", disse ele.

Muitas das pacientes de Leong com endometriose acabaram engravidando com sucesso com tecnologia de reprodução assistida, como a fertilização in vitro, disse ele.

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Kaitlyn Graham.

O Plano de Ação Nacional para Endometriose do governo federal da Austrália, divulgado em julho do ano passado, reconhece que a endometriose é “crônica”, “comum”, “frequentemente sub-reconhecida” e que afeta a “participação social e econômica, a saúde fisiológica, mental e psicossocial das afetadas”.

A tasmaniana Kaitlyn Graham fazia uso da pílula anticoncepcional oral durante o ensino médio, e não tinha menstruações dolorosas até parar de usá-la em 2015 e perceber que seu ciclo menstrual estava “supermaluco”.

"Eu nunca conseguia identificar quando eu poderia estar ovulando ou quando poderia estar menstruada, e estava tendo sintomas digestivos esquisitos e sentindo dor", disse a mulher de 25 anos ao BuzzFeed News. "Continuamos tentando engravidar, mas algo não estava certo".

Graham saiu “desanimada” do consultório do primeiro ginecologista com o qual consultou, mas dois anos depois ela fez uma laparoscopia e foi diagnosticada com endometriose.

"Eles rasparam o útero, e o cirurgião que fez isso disse que eu estaria superfértil pelos próximos seis meses", disse ela. "Minha cirurgia foi em julho, descobrimos que estávamos grávidos em agosto e perdemos o bebê em outubro."

Após o aborto, Graham disse que lhe foi dito para esperar pela primeira menstruação e então monitorar seu ciclo e começar a tentar assim que ela estivesse ovulando novamente.

"Estamos muito ansiosos para engravidar e, se isso não ocorrer nos próximos meses, poderemos estudar a inseminação intrauterina (IIU) ou a fertilização in vitro", disse ela. “Eu só quero ter certeza de que eu tenha tempo [para decidir sobre a tecnologia de reprodução assistida]".

Graham disse que tem lidado com uma "carga emocional de não compreensão".

"Eu sinto como se eu fosse uma pequena bomba-relógio", disse ela. "Eu gostaria de estar usando contracepção, porque isso pararia alguns dos meus sintomas, mas não vou usar até que tenhamos um bebê."

Um estudo publicado em janeiro na revista "Translational Medicine" ajudou a explicar como o revestimento interno do útero era deficiente em uma enzima específica em mulheres que eram inférteis por causa da endometriose.

A enzima, HDAC3, auxilia na regulação e expressão gênica — e quando há uma deficiência nessa enzima, os processos genéticos necessários para suportar a gravidez no útero são afetados.

Bronte Coates se sente “sortuda” por ter uma filhinha saudável de 2 meses de idade, mas diz que os últimos três anos tentando começar uma família foram “bastante angustiantes”.

"Quando eu tinha 28 anos, meu parceiro e eu começamos a tentar engravidar, e engravidamos e tivemos um aborto nos primeiros seis meses", disse a mãe de agora 31 anos, de Melbourne, ao BuzzFeed News.

"Por causa da minha idade, ficamos mais um ano sem investigar isso e continuamos tentando".

Coates disse que quando fez um ultrassom, a médica disse que ela poderia ter endometriose, e uma especialista em fertilidade sugeriu o mesmo.

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Bronte Coates.

"Eu achava que ela estava louca porque a endometriose é muito variada e, como a maioria das pessoas que eu conheço tem dores muito fortes, não achei que eu tivesse a doença", disse Coates.

"Você não sabe realmente quão dolorosas suas menstruações devem ser, e lhe dizem apenas que são dolorosas, então você espera que elas sejam dolorosas".

Coates fez uma laparoscopia através do sistema privado pela qual pagou quase US$ 4.000, incluindo consulta especializada. A operação revelou que ela tinha endometriose de estágio três (moderado).

"Tinha um monte de endométrio na minha parede intestinal, e [o cirurgião] não conseguia remover tudo sem cirurgia intestinal", disse ela.

Coates tinha problemas gastrointestinais há muito tempo, que o médico lhe disse mais tarde que podia ser um sintoma de endometriose.

"O problema com a endometriose é que ela é um termo abrangente em alguns aspectos, porque pode ser muito variada e haver vários sintomas, por isso, se eu soubesse que meus sintomas digestivos eram potencialmente sintomas de endometriose, eu poderia ter pensado nisso".

Coates engravidou cerca de dois meses depois da cirurgia.

"Eu me senti realmente sortuda", disse ela. "Eu queria que tivéssemos investigado isso mais cedo, porque quando você está tentando engravidar e as pessoas dizem que você está apenas estressada e para não se preocupar, você fica um pouco maluca".


Este post foi traduzido do inglês.