Após ser demitido, este fotógrafo está fazendo sucesso com os seus retratos da negritude

Cornell Watson transformou um ano desafiador e um projeto paralelo de sucesso em uma carreira na fotografia, provando que o ano de 2020 não foi tão ruim assim.

Uma mulher com coroa de flores com uma menina jovem ao seu lado e duas mãos de homens entrando pela esquerda
Uma mulher com coroa de flores com uma menina jovem ao seu lado e duas mãos de homens entrando pela esquerda

Cornell Watson

"Carga Alostática"

No começo do ano, Cornell Watson, fotógrafo de Durham, Carolina do Norte, se virava para conciliar o emprego de tempo integral na área de recursos humanos e teleconferências e criar uma filha de 2 anos juntamente da sua esposa. E então foi despedido.

Em questão de meses, no entanto, ele conseguiu transformar o seu projeto paralelo de fotografia de família que já era um sucesso em algo bem melhor. Agora o trabalho de Watson está sendo destacado nos jornais e campanhas de anúncios nacionais, e ele recebeu um Alexia Grant pelo seu trabalho pessoal, um projeto chamado "Por trás da máscara". O BuzzFeed News US conseguiu conversar com ele em seu estúdio para saber como ele transformou um ano desafiador em oportunidades para expandir seu portfólio e ganhar reconhecimento em todo país com seu trabalho.

Como foi sair de um trabalho de tempo integral em RH para trabalhar de freelance para o The New York Times e o The Washington Post?

Foi realmente surreal. Sou um grande viciado em notícias, e minha mulher também, nós dois assinamos. O pai dela é um grande fã do The New York Times, ele sai, compra o jornal e faz as palavras cruzadas todo dia, nós falamos sobre [as notícias] o tempo todo.

Os últimos dois anos foram como estar em um longo curso intensivo de fotografia. Fiz cursos de iluminação, de cores, não existe uma aula só que eu não tenha assistido. Minha amiga, Carolyn Fong, que é fotógrafa editorial e comercial, ajudou a me guiar por muitas coisas este ano. O que eu mais adoro nos trabalhos que eu fiz é que eles são centrados na experiência dos americanos pretos.

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Um jornal em primeiro plano com a matéria sobre a violência policial, e no fundo uma família na mesa de jantar. O homem está segurando uma arma.
Um jornal em primeiro plano com a matéria sobre a violência policial, e no fundo uma família na mesa de jantar. O homem está segurando uma arma.

Cornell Watson

"O Incidente da Cozinha"

Como você se interessou pela fotografia?

Eu comecei na graduação de engenharia da computação, e então troquei de curso e me graduei em marketing na North Carolina A&T. Nos últimos oito anos de minha carreira profissional, eu trabalhei na aquisição de talentos e recrutamento no departamento de RH. Eu me interessei pela fotografia porque eu queria tirar fotos da nossa pequena quando ela nasceu. Comprei uma Fuji mirrorless, um produto básico. Fiz muita pesquisa sobre as funções e como usá-la, e me meti nessa. No início, eu treinava tirando fotos no parque após o trabalho e depois meus vizinhos perguntaram se eu podia tirar fotos deles. Quando minha filha Wilhelmina nasceu, eu já tinha tirado fotos de duas ou três famílias. Eu fui à conferência da Family Narrative, que foi realizada em New Orleans seis meses após minha filha nascer, e conheci muitos grandes fotógrafos como: Summer Murdock e Creative Soul. Tudo que tinha feito era fotografia de família, e depois disso fiquei inspirado para fazer mais.

Como isso mudou este ano?

Fui demitido do meu trabalho na sexta-feira, dia da independência. Na outra segunda-feira eu recebi uma ligação da Durham magazine — eles procuravam por um fotógrafo para fazer uns trabalhos freelance. O primeiro grande trabalho foi fotografar Keith Knight, coprodutor da série "Woke" no Hulu. A parte mais interessante da interação toda foi que era uma das primeiras vezes dele trabalhando com um fotógrafo negro. A experiência de nós conseguirmos mostrar 100%, especialmente com todos os eventos de 2020, foi uma validação da importância da representação. Eu fotografei ele e sua família, e ele me ligou de novo três semanas depois e disse que o Post ia pagá-lo pela exibição, e ele queria que eu tirasse as fotografias.

Isso abriu as portas para mandar o projeto "Por trás da máscara" para o the Washington Post. E que criou as oportunidades de cobrir as eleições de 2020 para o the Washington Post.

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Um homem usando uma beca sentado descalço numa cadeira em um jardim
Um homem usando uma beca sentado descalço numa cadeira em um jardim

Cornell Watson

"Boot Straps"

Isso nos leva um pouco mais atrás ao "Por trás da máscara", projeto que você tem trabalhado neste ano. Obviamente há muito planejamento por trás dessas fotos. Como chegou a isso?

O Conselho das Artes de Durham me perguntou se eu estava interessado em fazer uma exibição solo. A minha relação com eles começou em 2019, depois que eu enviei algumas imagens para uma chamada para o 150º aniversário de Durham, que foram mostradas na exibição. Para a exibição, eu queria fazer algo impactante e significativo. Eu sentia que aquela era uma oportunidade para usar essa plataforma para fazer algo mais.

Este ano nos forçou a trazer a experiência preta nos Estados Unidos para o primeiro plano de nossas vidas diárias. Os eventos de 2020, incluindo mas não limitados aos assassinatos de George Floyd, Ahmaud Arbery e Breonna Taylor, bem como a politização da morte deles, me fizeram pensar em todas as coisas que vivi na minha vida. Eu pensei em como minha mãe se esforçava para sempre dar 1000% de si no trabalho e nunca ter sido reconhecida. Pensei em como as escolas da minha cidade natal ainda são segregadas e em como elas conseguem produzem ótimos alunos apesar de não terem os mesmos recursos que as escolas de maioria branca. Pensei nos dias que vinha para o trabalho e queria chorar depois de ver meus irmãos e irmãs serem mortos nas mãos da polícia, mas em vez disso sorrir e trabalhar ao lado de pessoas que são alegremente ou intencionalmente indiferentes.

Pensei em um poema de Paul Laurence Dunbar, e Maya Angelou — que fez sua própria versão dele — chamado "Nós usamos a máscara". Isso relaciona com o fato de que estamos usando uma máscara fisicamente o tempo todo por causa do coronavírus, e então existe esse outro mundo em que eu uso outra máscara que as pessoas não enxergam. O propósito desse projeto foi dizer todas essas coisas que não temos a oportunidade de dizer em espaços de brancos por medo de comprometer nossa segurança, e que essa foi a oportunidade de dizer e refletir.

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Dois meninos observando seu pai deitado com a cabeça dentro da água, em cima de uma bandeira dos Estados Unidos
Dois meninos observando seu pai deitado com a cabeça dentro da água, em cima de uma bandeira dos Estados Unidos

Cornell Watson

"O Afogamento"

Eu criei uma página no meu site perguntando às pessoas que estavam interessadas nesse projeto para compartilhar informações do contato e um pouco de suas histórias usando a máscara. Um dos primeiros conceitos para a fotografia e uma das últimas imagens que criei foi o afogamento. Este é meu melhor amigo, ele tem três filhos. Ele me disse que conforme envelhece, a realidade de ter "a conversa" com os filhos é assustadora. Não deveria ser uma experiência paterna ter que contá-los que eles não podem brincar com armas de brinquedo na frente de casa e como eles tem que agir de um certo modo perto das pessoas fora de casa por causa de histórias como as de Tamir Rice e Emmett Till. Eu criei um conceito dele se afogando, porque é assim que ele se sentia como um pai negro nos EUA.

Todas as imagens nas séries ou são baseadas em experiências próprias como um homem preto, ou em experiências das pessoas e das famílias que eu fotografo. Enquanto algumas das imagens refletem partes da minha experiência de ser negro, nem todas elas são minha história.

Por exemplo, na imagem 35, eu fotografei uma mulher transgênero negra. O "35" é a representação de uma estatística triste — o número representa a expectativa de vida das mulheres transgênero negras.

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Uma mulher trans se olhando no espelho e sorrindo, com um bolo e velas de 35 anos acesas
Uma mulher trans se olhando no espelho e sorrindo, com um bolo e velas de 35 anos acesas

Cornell Watson

"35"

Tivemos algumas conversas por telefone que foram muito difíceis: ela estava se sentindo muito isolada e tinha o medo de sair e ser 100% ela mesma. Finalmente criamos o conceito de celebração do amor próprio, mas é uma celebração em casa, onde ela se sentia mais segura. Há uma mancha no espelho que na verdade sou eu de pé representando todas as forças malignas da transfobia, patriarcado e racismo sugando a luz dela — a figura masculina, seja ela negra ou branca. Mas queria ter a certeza que a alegria negra dela fosse o ponto central, a alegria que ela sente em ser 100% ela, apesar de ter que usar várias máscaras nas interseções de ser negra, mulher e transgênero.

O que você acha do impacto que esse financiamento vai causar neste projeto e no seu trabalho?

Uma das metas iniciais que eu tracei para o projeto foi sobre a diversidade e sobre garantir que essas imagens representem a diversidade da Negritude. É difícil fazer isso com 10 imagens, mas uma das coisas que esse financiamento vai ajudar é a ter um maior alcance.

Com essas imagens, comecei a pensar frequentemente muito alto e sem limites, e então reduzir ao que eu podia fazer com os recursos que eu dispunha. Agora, sem ter que me preocupar tanto com tempo e dinheiro, isso me permite pensar alto novamente, mas não ter que reduzir a algo baseado nos recursos. Eu planejo passar mais tempo do que da última vez pensando em conceitos e ideias, e passar mais tempo com indivíduos e famílias e entrando mais fundo nessas histórias.

Estou empolgado. Às vezes, você não sabe o que vai sair da sua própria cabeça. Eu provavelmente vou me meter em outra no próximo ano, e estou ansioso por isso.

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Quatro jovens no canto da imagem olhando para o outro lado
Quatro jovens no canto da imagem olhando para o outro lado

Cornell Watson

"Weldon"

Este post foi traduzido do inglês.

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