A origem da diferenciação entre travestis e transexuais

A distinção permitiu a transexuais desfrutarem de um começo de reconhecimento, mas aumentou o estigma que travestis vivenciam.

Terminei a coluna do dia 17/05, "Travesti ou mulher trans: outra vez essa história", afirmando que, apesar de as duas expressões do título serem sinônimas, isso não significa que elas são iguais, e muita gente reclamou por ter saído do texto sem uma resposta definitiva a respeito da espinhosa questão.

Não foi a primeira vez que escrevi a respeito, já o tendo feito quatro anos atrás, numa coluna que segue bastante atual, "Travesti ou mulher trans: tem diferença?", e recomendo também muitíssimo a reflexão feita por uma das pensadoras mais brilhantes da nova geração travesti, Amanda Palha: "Travesti X mulher transexual — afinal, qual a diferença?".

Nenhum desses textos, no entanto, vai te entregar uma receita prontinha, fácil, para não se meter em encrencas na hora de discutir o assunto ou se referir a uma pessoa trans do espectro feminino.

Por quê? Porque a questão tem implicações complexas, envolvendo a história dos termos, a rivalidade que se estabeleceu entre as duas categorias e o esforço, mais contemporâneo, para borrar as distinções entre eles. Isso sem contar as especificidades que cada um dos termos adquiriu no Brasil, pois o que chamamos de "travesti" aqui não é, nem de longe, a mesma coisa que, por exemplo, se denomina como "transvestite" em países de língua inglesa.

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O caminho que vou percorrer no texto de hoje buscará, então, trazer para o primeiro plano alguns aspectos históricos desse imbróglio, sobretudo os referentes às décadas de 1950 e 1960, quando, em função das primeiras cirurgias bem sucedidas de redesignação sexual, a tentativa de diferenciação entre os termos surge e começa a se popularizar.

Recorte antigo de O Jornal-RJ, 1953. Nele lê-se o título "Pedidos em massa de homens de várias nacionalidades para trocar de sexo"
Recorte antigo de O Jornal-RJ, 1953. Nele lê-se o título "Pedidos em massa de homens de várias nacionalidades para trocar de sexo"

Reprodução - O Jornal-RJ, 1953

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Quem tornou a cirurgia conhecidíssima mundo afora foi Christine Jorgensen, mulher trans operada na Dinamarca em fins de 1952, depois de dois anos de tratamento à base de hormônios.

A cobertura midiática foi avassaladora, seu nome sendo apontado como o mais comentado pela imprensa internacional no um ano que se seguiu à operação. Ela foi uma das responsáveis por tornar imaginável a ideia de uma transformação corporal tão radical que permitiria que a pessoa trans fosse vista (e se visse) da forma como ela própria se entendia: se o corpo é o que impedia que a pessoa vivesse da forma se compreendia, agora esse corpo podia ser radicalmente transformado.

Recorte do jornal "Manchete", de 1953. O título da matéria é "A Mulher do Ano", e tem foto de Chrstine Jorgensen
Recorte do jornal "Manchete", de 1953. O título da matéria é "A Mulher do Ano", e tem foto de Chrstine Jorgensen

Reprodução - Manchete (1953-04-18, edição 52, p.56, 'mulher do ano')

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Recorte antigodo jornal Manchete, de 1954. Nele, há uma matéria sobre Christine Jorgensen, mencionando o fato de ela ter lutado na Coréia antes de sua cirurgia
Recorte antigodo jornal Manchete, de 1954. Nele, há uma matéria sobre Christine Jorgensen, mencionando o fato de ela ter lutado na Coréia antes de sua cirurgia

Reprodução - Manchete (1954-10-16, edição 130, p.64, 'veterano de guerra')

Não foi, contudo, a possibilidade de uma cirurgia o que criou as pessoas trans. Relatos de figuras que gostariam de poder existir como (ou ter nascido do) outro sexo existem há bastante tempo, casos notórios sendo abordados tanto em obras estrangeiras, como Psycopathia Sexualis (1886), do psiquiatra Richard von Krafft-Ebing, e Die Transvestiten (1912), do médico e sexólogo Magnus Hirschfeld, quanto em nacionais, como Attentados ao pudor (1895), do desembargador e criminologista Viveiros de Castro (p.222):

"Um destes frescos, como eram êles conhecidos na gíria popular, tornou-se célebre pelo nome de Panela de Bronze. Vestia-se admiravelmente de mulher, a ponto de enganar os mais perspicazes. Dizem que chegou a adquirir alguma fortuna por meio de sua torpe indústria e que era tão grande o número de seus freqüentadores, pessoas de posição social, que era necessário pedir com antecedência a entrevista."

Nesses casos mais recuados, anteriores aos desenvolvimentos médico-farmacêuticos que permitiriam a pessoas trans imaginar, em intervenções corporais, a resolução dos dilemas que enfrentavam, não fazia ainda sentido tentar dividir essa categora em duas: de um lado, a das pessoas que, gostando de serem lidas socialmente como do outro gênero, não desejavam o genital que as mulheres legitimadas (isto é, as cisgêneras) possuíam e, de outro, a das que não se contentavam em ser lidas socialmente como mulheres, precisando ainda da intervenção cirúrgica para que sua identidade pudesse vivenciada plenamente.


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Páginas de dois livros antigos: Psycopathia Sexualis (1886), do psiquiatra Richard von Krafft-Ebing e Attentados ao pudor (1895), do desembargador e criminologista Viveiros de Castro (p.222)
Páginas de dois livros antigos: Psycopathia Sexualis (1886), do psiquiatra Richard von Krafft-Ebing e Attentados ao pudor (1895), do desembargador e criminologista Viveiros de Castro (p.222)

Reprodução - Psycopathia Sexualis (1886), Richard von Krafft-Ebing, e Attentados ao pudor (1895), Viveiros de Castro (p.222)

Como defendi na coluna "Resistências às narrativas trans no movimento LGBTQIA+", ninguém nasce querendo ter uma vagina ou um pênis.

Temos o corpo que temos e pronto. No entanto, quando esfregam o tempo todo na nossa cara que, por conta do genital que possuímos, jamais poderemos ser o que dizemos ser, é difícil não desenvolver uma reação de repulsa por esse genital e sonhar com uma operação milagrosa que corrija esse "equívoco da natureza". E, se a medicina surge oferecendo um milagre do gênero, mais difícil ainda não mergulhar nessa narrativa e depositar toda a sua fé nela.

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E é justamente em fé que fala o endocrinologista responsável por popularizar a distinção entre "travestis" e "transexuais", Harry Benjamin. Em The transsexual phenomenon (1966), livro que dissemina essa distinção mundo afora, ele afirma (p.11, capítulo "Transvestism versus transsexualism"):

"O travesti geralmente quer ser deixado em paz. Ele não demanda nada da profissão médica, a menos que queira um psiquiatra para tentar curá-lo. O transexual, porém, deposita toda a sua fé e futuro nas mãos do médico, em especial do cirurgião. Esses pacientes desejam se submeter a uma cirurgia corretiva, a assim chamada "operação de conversão", de forma a que seus corpos ao menos lembrem aqueles do sexo ao qual sentem pertencer e do qual tão ardentemente desejam fazer parte."

Capa do livro The transsexual phenomenon (1966), de Harry Benjamin
Capa do livro The transsexual phenomenon (1966), de Harry Benjamin

Reprodução - The transsexual phenomenon (1966), Harry Benjamin

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A Medicina e a Justiça da época, com algumas pouquíssimas exceções, consideravam essas intervenções corporais "mutilações" e pode-se pensar que a distinção proposta por Benjamin teve como um de seus objetivos criar condições para que ao menos determinadas pessoas trans pudessem recorrer a tais cirurgias. A transfobia existia ainda hoje e, se mesmo hoje intervenções corporais seguem importantíssimas para que pessoas trans possam disputar um lugar no mundo, imaginemos lá atrás o impacto que elas não poderiam ter nas nossas vidas.

Mas a questão vai além, pois essa distinção, se por um lado propiciou narrativas que permitiriam a algumas pessoas trans não só recorrer a tais procedimentos, como também começarem a ter suas identidades reconhecidas (várias pessoas trans, à época, obtiveram a retificação dos seus documentos civis após tais cirurgias), por outro aumentou drasticamente o estigma sobre indivíduos trans que não desejavam nenhum tipo de intervenção cirúrgica ou, em específico, essa de redesignação sexual.

Benjamin racha o espectro feminino trans ao meio, oferecendo a uma das metades uma narrativa possível para negociarem o reconhecimento de suas identidades ("mulheres" são as pessoas que nascem com vagina, mas agora vai se desenvolvendo a possibilidade de que as que desejam ardentemente possuir esse genital também sejam assim consideradas), mas o custo disso é a estigmatização ainda maior da metade que não sentia necessidade desse tipo de intervenção, reivindicando tão-somente a descriminalização e despatologização do travestimento.

Uma das principais reivindicações do transfeminismo é que o genital que se tem, ou se deixa de ter, não importa para a determinação do gênero de pessoa alguma, bastando a compreensão que ela faz de si. Mas essa é uma reivindicação atual, bastante distinta da possível para aquele tempo. Benjamin foi responsável por criar condições para que a sociedade começasse a compreender determinadas narrativas trans, em especial as das pessoas que acreditavam tanto ter nascido no corpo errado, quanto poder corrigir esse erro por meio de intervenções cirúrgicas e medicamentosas.

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O que espero, a esta altura, ter deixado claro é que a diferenciação de pessoas trans entre "as que se relacionam bem com o genital com que nasceram" e "as que têm aversão ao genital com que nasceram" é profundamente transfóbica, razão para, hoje em dia, querermos borrar a distinção entre "travestis" e "transexuais" (ou uma forma aparentemente mais neutra, "trans").

O problema, no entanto, é que essa distinção problemática acabou ganhando vida própria na sociedade brasileira, inúmeros outros elementos sendo incorporados ao debate, essa sendo a principal dificuldade para chegarmos a uma compreensão definitiva sobre tais termos (num próximo texto, pretendo discutir a história da palavra "travesti" no Brasil).

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