A Igreja como empecilho às primeiras campanhas de prevenção à Aids

Com medo de o estímulo ao uso da camisinha promover "promiscuidade", Igreja atacou campanhas de prevenção.

Nas minhas pesquisas a respeito das perseguições sofridas por travestis nos anos 1980, no auge da epidemia do HIV/Aids, fiquei chocada ao me deparar com matérias sobre as duras críticas da Igreja Católica às campanhas que recomendavam o uso de camisinha como método de prevenção. Não que eu não esperasse essa postura da Igreja, mas vê-la em declarações oficiais, num momento em a sociedade estava apavorada diante do crescimento avassalador dos casos, é algo que me espanta profundamente.

Um dos primeiros conflitos com a instituição se deu em 14 de janeiro de 1987, quando o "Jornal do Brasil" publicou a foto de um cartaz do GAPA (Grupo de Apoio aos Pacientes de AIDS) pregado na janela do Ministério da Saúde, como ilustração da matéria "Campanha contra Aids começará em fevereiro". Na legenda da imagem, diz-se que "o cartaz sugere prevenir doença sem privação do prazer" e, pela própria surpresa que a legenda revela, pode-se intuir que era uma novidade para a época semelhante proposição.

Mas o cartaz era bem mais explícito do que isso. Trazendo como título "Transe numa boa", logo abaixo afirma-se que "sexo é bom, não deixe a aids acabar com isso" e, a seguir, uma série de recomendações bastante progressistas: "evite contato com esperma; use camisinha; reduza o número de parceiros; masturbação a dois é gostoso e oferece menos risco".

Na edição seguinte do Jornal do Brasil (15/01/1987), sob a manchete "Cartaz sobre Aids escandaliza a CNBB", uma matéria falando do incômodo que a publicação gerou entre "grupos conservadores da Igreja e outros segmentos da sociedade". A Conferência Nacional de Bispos do Brasil sozinha telefonou 27 vezes para o Ministério da Saúde, "criticando duramente o texto e a liberalidade da mensagem". Ainda segundo a matéria, "a última frase foi a que mais escandalizou os bispos da CNBB, que não admitem o homossexualismo".

No ano seguinte, novos ataques às campanhas de prevenção, tendo como alvo primordial, dessa vez, o preservativo. Na matéria da Folha de São Paulo "Igreja não apoia a campanha da camisinha" (06/02/1988), o presidente da CNBB, d. Luciano Mendes de Almeida, declara que "não há motivo para se apoiar uma campanha de prevenção à Aids que faça o aconselhamento do uso da camisinha como forma de se evitar o contágio via sexual". Segundo ele, "o mais importante é dar destaque à educação da população, no sentido de que 'faça uso ordenado do sexo dentro da vida conjugal, evitando relações ilícitas'", dessa maneira restringindo-se "pela base essa forma de contágio via sexual.

O secretário-geral da CNBB, d. Celso Queiroz, vai na mesma linha: "'Se a via sexual é realmente o grande meio de transmissão da doença, então a educação sexual é a solução e não a camisinha'", disse, referindo-se à recomendação de seu uso nas relações sexuais. Mas d. Celso deixou claro que não é contrário ao uso da camisinha para aquelas pessoas que optaram por viver em promiscuidade." Vejam que ele fala em "educação sexual", mas aqui com o sentido de ensinar à população que, para prevenir a transmissão do HIV/Aids, o essencial é abster-se de sexo ou fazê-lo apenas dentro do casamento.

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Algumas matérias chegam mesmo a apontar para a interferência da CNBB nas campanhas de prevenção do Ministério da Saúde, que, segundo o Correio Brasiliense, "aceitou usar em alguns textos a palavra 'preservativo' no lugar de 'camisinha de vênus' e retirar a expressão 'coito anal', substituindo por relação sexual, a pedido da Igreja" (25/02/1987). Por trás desses embates, o medo de que uma conversa franca sobre sexualidade pudesse promover práticas sexuais não aceitas pelo moralismo vigente, como se pode ver na seguinte declaração de d. Luciano Mendes (Jornal do Brasil, 27/02/1987): "Deve-se incentivar o fim da promiscuidade sexual, evitar a desordem sexual, o bissexualismo, e não o uso de camisinha".

Detalhe: essa última declaração foi dada após a CNBB ter conseguido com que se retirasse "o DIU da cartilha sobre planejamento familiar do Ministério [da Previdência]", pois, "apesar das pesquisas que comprovam a baixa eficácia dos métodos naturais de contracepção, d. Luciano Mendes defendeu sua utilização e discordou completamente do resultado das pesquisas".

Foi com esse pano de fundo que surgiu a Operação Tarântula, discutida na minha última coluna. Na próxima, irei discutir a maneira como autoridades médicas foram criando e propagando conceitos hiper problemáticos como "grupo de risco" e a ideia de que bissexuais seriam responsáveis pela transmissão do HIV para heterossexuais.

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