A beleza e a força de ser feia

Sonho que não precisemos de intervenções corporais para nos sentirmos à vontade com nossos corpos.

Pensemos uma mulher cisgênera que, tendo perdido o seio em função do câncer, vale-se de um implante de silicone para recuperá-lo: alguém ousaria dizer que ela, agora, não possui um seio de verdade? No entanto, em relação a mulheres trans e travestis esse tipo de acusação ainda hoje é recorrente.

Reprodução - Revista TPM, setembro, 2017

Mesmo mulheres cisgêneras que não perderam o seio por câncer ou acidente, mas resolvem valer-se do implante, não arcam com os estigmas que enfrentamos. Parece natural que os corpos delas tenham seios, independente do tamanho e maneira como foram obtidos, e antinatural que os nossos corpos os possuam.

No começo da minha transição, quando fui buscar clínicas bem reputadas para fazer o meu implante de silicone, descobri que nem toda clínica estava disposta a fazer o procedimento em uma travesti.

Eu tinha o dinheiro em mãos, mas mesmo assim muitas alegavam não ter profissionais que conhecessem as especificidades do implante "num corpo masculino". Outras diziam compreender como mutilação essa prática em travestis ou mulheres trans e havia as que, por fim, exigiam a apresentação de um laudo psicológico assegurando que eu, de fato, era uma mulher trans/travesti, para se sentirem seguras em realizar a cirurgia. Ou seja, era preciso que alguém se responsabilizasse por dizer quem eu sou, para que eu pudesse ter direito a esse procedimento.

Nenhuma mulher cisgênera precisa passar por isso, o que ajuda a explicar porque, tantas vezes, acabamos recorrendo a açougueiros em vez de clínicas especializadas, clínicas que seguem os devidos protocolos de segurança.

Reprodução - Globo

Isso me faz lembrar de Lorena Muniz, travesti que veio a óbito no começo deste ano quando, sedada para realização de um implante de silicone numa clínica velha conhecida das pessoas trans e travestis aqui de São Paulo, foi abandonada na sala de cirurgia no momento em que o ar condicionado pegou fogo.

Abandonada sedada durante um incêndio!

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Eu própria cogitei fazer nessa "clínica" o meu implante anos atrás, mas foi passando o tempo, vieram dificuldades, precisei gastar o dinheiro que eu tinha, aí acabei abortando a ideia.

E, nesse meio tempo, comecei a me aprofundar cada vez mais no debate a respeito dos padrões opressivos de gênero, e decidi que, no que me fosse possível, eu resistiria às pressões para ter que ter um corpo mais parecido com o de mulheres cisgêneras. Sim, eu me importaria com passabilidade, sim, mas não a passabilidade cis, e, sim, a trans: quero que as pessoas, ao baterem o olho em mim, não imaginem que nasci de vagina, mas que sou travesti e que quero ser tratada no feminino, só isso.

Não me sinto superior a ninguém por isso, é só uma maneira minha de lidar com as pressões do mundo ao redor. Se eu tivesse grana sobrando e nem precisasse pensar no impacto que isso teria no orçamento, talvez eu me permitisse mais intervenções.

Se meu trabalho, de alguma forma, cobrasse de mim uma adequação maior aos padrões de gênero, talvez eu fizesse diferente também. Mas não, sou escritora e professora e de tais profissões se tolera a feiúra e, depois de ler "Teoria King Kong" de Virginie Despentes, eu até que me divirto em poder ser feia, orgulhosamente feia, feia que, no entanto, chegou mesmo a ser capa de revista (quanta gente me chamou de feia por aquela capa e fiquei tão feliz por conseguir rir, me acabar de rir dessas acusações... quem dera a feiúra fosse o problema da minha vida, não a solução!). E tudo isso porque descobri que não tem nada mais perturbador, pro sistema, do que um corpo que, criado para sentir vergonha por ser como é, de repente passa a revelar orgulho de si, sem pedir desculpas por existir nem agradecer as migalhas que nos concedem.

Reprodução

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Talvez um dia eu ponha silicone, como a protagonista do meu monólogo sugere pra mim:

"X'eu ver esse peito que cê diz tanto. Ó, o peito tá assim aassim, dois limõezinhos, mas um 300ml ia ficar garota, troppo bella, e cê podia até parar essa porcaria de hormônios" ("Neca + 20 Poemetos Travessos", editora O Sexo da Palavra, 2021, p.24). Talvez eu nunca ponha, mas imagine uma narrativa em que ponho e brinque de imaginar meu corpo mudando por meio dessas tecnologias. Talvez eu só continue achando lindos os meus limõezinhos e escreva sobre a beleza de tê-los, depois dos tantos anos que sonhei em vê-los crescendo.

Não se trata aqui de demonizar essas tecnologias. Elas estão aí, elas existem, elas permitem que modifiquemos nosso corpo, e isso seja para nos sentirmos mais à vontade com esse corpo (já que a sociedade estragou, às vezes definitivamente, a maneira como lidaremos com ele), seja para finalmente sermos vistas por outres da forma como nós mesmes nos vemos, queremos ser vistas. A questão é menos a indivídua que recorre a tais procedimentos estéticos e mais os dispositivos sociais que nos levam a desejá-los, a ver neles a solução para os problemas que enfrentamos.

Nem todo mundo quer ser mártir, nem todo mundo dá conta de se lixar pros padrões de corpo e de gênero, daí adequar-se é uma maneira de tentar passar despercebido, de não ser mais tão atingido pela discriminação. Alisar o cabelo, afinar o nariz, usar maquiagem, fazer dietas extremas de emagrecimento, cirurgias para emagrecer, tomar remédios para acabar com as espinhas, eis alguns exemplos que conhecemos bem. As intervenções reivindicadas por pessoas trans compartilham o mesmo propósito.

Às vezes só queremos sumir na multidão, às vezes conseguimos bater o pé e dizer "não, vocês vão ter que me aturar do jeitinho que sou". Meu sonho é um mundo em que a segunda opção se faça cada vez mais presente, tenha cada vez mais força. Mas, enquanto esse mundo não chega, eu é que não vou julgar quem se vale de intervenções corporais pra se proteger das violências que só a nossa sociedade doente é capaz de infligir.

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