6 vezes em que o governo Bolsonaro traduziu tudo errado

Não tá ok.

Jair Bolsonaro, com o então Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Robert O’Brien. Em seus bonés, é possível ler "Make Brazil Great Again".
Jair Bolsonaro, com o então Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Robert O’Brien. Em seus bonés, é possível ler "Make Brazil Great Again".

Marcos Corrêa/PR

Jair Bolsonaro, com o então Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Robert O’Brien.

Tradução é um trabalho difícil pra caramba. Uma letrinha errada, e o sentido muda. Duas talvez até te metam numa briga. Qualquer tradutor sabe disso - mas ainda há quem duvide.

Nessa semana, a prova de que isso é fato veio em nível nacional. Uma tradução errada fez o governo acusar o The Economist, um dos mais respeitados veículos jornalísticos do planeta, de incentivar o assassinato de Bolsonaro. Já seria ruim, se não fosse recorrente.

Fato é que, nos últimos anos, o governo Brasileiro tem cometido e divulgado diversos erros de tradução. Separamos alguns.

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1 - O rolê com o The Economist

Entrando um pouco mais em detalhes no caso mais recente: em sua edição desta semana, a revista britânica, teve como matéria de capa uma reportagem que questionava o papel do Brasil desde o início do governo Bolsonaro.

A reação do governo veio pelo twitter da Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República, que meteu essa:

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Mas, pera aí! Homicídio do presidente? É sério pra caramba! Ou melhor, seria. Se isso realmente tivesse escrito na publicação.

Na real, o texto dizia apenas “the most urgent priority is to vote him out” ( algo como “a prioridade mais urgente é vencê-lo nas urnas”). Bem longe do “eliminar” traduzido pelo governo.

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2 - El país anima Bolsonaro

O problema com a tradução de matérias gringas, no entanto, já faz aniversário. Lá em 2019, Eduardo Bolsonaro começou essa tradição. 

Nessa época, o 03 comparou dois títulos de uma mesma matéria do El País. Uma é a original, escrita em espanhol, e a outra é a adaptação para o português publicada no dia seguinte. 

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O problema de Eduardo foi em torno da palavra “anima”, que em castelhano passa longe de ser um verbo usado por quem curte uma festinha. Na real, o significado é mais próximo de “incentiva”. 

O texto original, então, falava que Bolsonaro tentou estimular investidores. Não que conseguiu. 

A tradução mudou a frase? Sem dúvidas. Isso é questionável? Há quem diga que sim. Elas dizem coisas opostas? Absolutamente não. 

O texto final manteve as mesmas conclusões, ou seja, o pití de Eduardo não tem muito fundamento linguístico. Alias, quem está dizendo isso, não sou eu; é Alicia González - a autora do texto, que chegou a corrigir o político brasileiro no Twitter.


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3 - El país anima Bolsonaro. SIM, DE NOVO!!!

Passado mais de um ano da confusão um Bolsonaro reviveu a comparação dos textos. Mas dessa foi Jair, vulgo atual presidente da República.

O líder do nosso executivo postou um vídeo que criticava a suposta diferença de tons entre o texto espanhol e brasileiro. 

Dessa vez a autora não teve que se manifestar. O próprio Instagram sinalizou que o presidente do Brasil estava divulgando fake news.

Print da publicação sendo bloqueada pelo Instagram
Print da publicação sendo bloqueada pelo Instagram

Reprodução

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4 - Propaganda soberana

Os erros aparecem não só na tradução para o português, como também do português. 

Rolou um problema no texto de uma propaganda oficial do governo vinculada, entre outros sites, na página do Financial Times (uma das principais publicações econômicas do mundo).

O texto deveria ser traduzido para algo como “"Brasil reafirma suas ações soberanas de proteção, desenvolvimento sustentável, e preservação da Amazônia".

Masss… no anúncio, a palavra “soberana” foi escrita errada: “sovereing”, ao invés de “sovereign“.

Print da propaganda do governo, no Financial Times
Print da propaganda do governo, no Financial Times

Reprodução

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Ah, mas é um detalhe, né? Na verdade não. “soberana” era a principal palavra do anúncio. Ela foi vinculada em meio à uma pequena discussão política entre Bolsonaro e Macron, à respeito da Amazônia. O presidente da França havia se referido à floresta brasileira como “nossa casa”, chegando a cravar que era um “bem comum”. Bolsonaro viu as afirmações como um desrespeito à nossa, olha lá, soberania. Por isso soltou o texto internet a dentro. Baixo astral, né? Calma que piora.

No Twitter do governo Brasileiro, a mesma publicidade foi publicada, olha só, com erros adicionais. “Sustainable” virou, erroneamente, “susteinable”.  


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5 - Deus salve a rainha

O problema principal está no pronome de tratamento. Não se chama a rainha de, bem, rainha. O termo correto é “Majestade”. Não chega a ser um problema diplomático, mas escancara a falta de domínio não só da língua, como dos protocolos internacionais.

6 - Buraco

Pra fechar, um retorno de Eduardo Bolsonaro. 

No começo de 2020, Eduardo trocou tweets com Paul Joseph Watson (um negacionista que hoje é banido do Facebook por seus discursos de ódio). Watson clamava que Jair estava sofrendo uma perseguição internacional por questionar as ações de combate ao coronavírus. Eduardo quis se incluir. Não era só seu pai, que estava sendo caçado, mas todos que carregavam seu sobrenome. A censura seria contra “a família toda”.”the whole family.”, em inglês. 

Mas Eduardo se confundiu. Escreveu “hole family” - que se pronuncia praticamente igual. Mas a frase passou a ter outro significado: família buraco. 

Ele chegou a apagar, mas não teve mais jeito. Já tinham visto. 


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Nem teria taaanto problema se, menos de um ano antes, Eduardo quase virava nosso embaixador nos EUA.

É aquela coisa, né? Quer postar em inglês sem tradutor? Posta! É de bom tom? Nãaao, não é de bom tom.


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Jair Bolsonaro em frente a um painel com escritos em inglês.
Jair Bolsonaro em frente a um painel com escritos em inglês.

Marcos Corrêa/PR

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